quinta-feira, 26 de agosto de 2010

04 > Jornal do Brasil: bem na foto, o princípio do fim...


Não é difícil assistir à morte de um jornal ou revista...
No Brasil, nas últimas décadas, dezenas deles desapareceram, muitos no Rio de Janeiro.
A bola da vez é o já saudoso Jornal do Brasil, onde, aliás, trabalhei nos anos 80.
Doloroso é acompanhar sua agonia, ouvir o viúvo lamento de seus leitores, lembrar a importância (e valor) da fotografia em suas páginas. 

A ironia é que o princípio do fim do JB está ligado a uma fotografia...
Em plenos Anos Dourados, governo Juscelino Kubitschek, agosto de 1958, uma importante missão americana, sob o comando do Secretário de Estado John Foster Dulles em pessoa, veio ao Brasil para tratar da situação do petróleo, tema da recente campanha nacionalista “O petróleo é nosso”.
No início de uma reunião no Palácio Laranjeiras, no tradicional tempo dado aos fotógrafos e cinegrafistas para o registro dos cumprimentos, o fotógrafo do Jornal do Brasil, Antonio Andrade fez a foto polêmica. A foto “dá a impressão de que JK estende a mão, suplicante, ao secretário norte-americano, que por sua vez parece que está abrindo uma carteira à cata de dinheiro”.
Antonio Andrade, 1958 - ‘Me dá um dinheiro aí’


O Jornal do Brasil publicou a fotografia em sua primeira página sob o título ‘Me dá um dinheiro aí’, em alusão à modinha de carnaval de recente sucesso, mote intensamente repercutido pela oposição, capitaneada por Carlos Lacerda.


Versão de Moacyr Franco para a marchinha  
'Me dá um dinheiro aí’, trecho do filme Entrei de Gaiato, de 1959.




Para a História do Brasil, uma espécie de imagem-símbolo do relacionamento político e econômico, por décadas, entre Brasil e Estados Unidos.
Na História do Jornal do Brasil, consequências trágicas: JK puniu o jornal com o cancelamento da concessão de um canal de televisão, que já estaria em sua mesa para ser assinada. O JB seria o segundo jornal a ter um canal de TV – a Tupi pertencia aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand –, o mesmo que, mais tarde, seria dado a O Globo, de Roberto Marinho.
Uma perda cuja mágoa jamais seria esquecida. Embora o jornal tenha tido ainda grandes momentos, outros fatores influenciaram na sua decadência (leia, clicando aqui, a iconoclasta versão de Paulo Henrique Amorim, editor do jornal na década de 80).

Curiosamente, esta imagem teve gênese relativamente prosaica, mera conseqüência da disciplina profissional do fotógrafo, à procura de uma foto diferente: “Na verdade, Andrade só procurou seguir as normas do jornal e seu instinto, quando o cinegrafista Jean Manzon (que na hora estava atrás de Dulles mas não aparece na cena) pediu ao presidente que posasse junto ao secretário, para registro. JK teria dito ‘Mas, agora?’ ao mesmo tempo em que Dulles consultava sua agenda. Daí as mãos de JK e o gesto do norte-americano.”
.

Uma descrição dos acontecimentos (a partir da matéria citada, publicada em 1998 pelo Paparazzi, jornal da Associação Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro, ARFOC/Rio) pode ser lida em A história da foto de Antônio Andrade, material de referência para a dissertação de mestrado A História bem na Foto: fotojornalistas e a consciência da história, deste autor.



Antonio Andrade nasceu na Bahia, veio para o Rio se alistar e começou a fotografar em 1949 no jornal Imprensa Popular,“voz” do PCB, então perseguido pelo governo Dutra. Passou por O Globo e foi para a Tribuna da Imprensa em 1955. Entrou no JB quando da famosa reforma gráfica de 1956. Em 1960, volta à Tribuna da Imprensa como editor de Fotografia. Foi, por seis meses, correspondente da agência cubana Prensa Latina no Brasil, fotografando a visita de Che Guevara. Passou um tempo na Bahia e voltou para a Revista Manchete em 1966. Ganhou o Prêmio Esso de 1967 com uma foto publicada em Fatos & Fotos em que bombeiros salvam uma grávida arrastada por enxurrada na Tijuca. Esteve seis meses no Correio da Manhã e voltou para o JB, até 1980, e novamente O Globo, daí até 1986. Foi editor de Fotografia do jornal da Vale do Rio Doce até a privatização da empresa em 1997 e, depois da aposentadoria, seu colaborador.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

03 > A primeira foto da História... do futuro!


A fotografia é de todo dia...
Alguns deles até formalizados, mas não vêm ao caso listá-los agora.
É certo que o Dia da Fotografia é hoje, 19 de Agosto, e reverencia a apresentação ao mundo, em 1839, do processo fotográfico batizado de daguerreotipia (desenvolvido por Louis J. L. Daguerre, a partir de sua parceria com Joseph Nicéphore Niépce) pela Academia Francesa de Ciências, que, num belo exemplo, adquiriu e liberou a todos, uma espécie de “software livre” de então...
Mas, este foi só o "baile de debutante" da fotografia.
A menina (dos nossos olhos...), a Fotografia, já mostrara sua face a Hércules Florence, aqui mesmo no Brasil, por volta de 1833, fez alguns volteios com Fox-Talbot na Inglaterra e tivera sua primeira imagem fixada pelo próprio Niépce, em 1826, na França (que, aliás, a chamava de “heliografia”, até porque, afinal, sem o Sol não conseguiria fazer...).
Uma foto que ficou para a História e tem sido infinitamente reapresentada ao mundo nestes tempos de reprodutibilidade digital, mostra nada mais que a vista da janela do laboratório do autor.


Niépce, 1826 - Vista da janela em Le Gras

Trazendo um pouco de teoria historicista a esta história, cito Reinhart Koselleck, autor de “Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos” (Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006).
No ensaio “Espaço de experiência e horizonte de expectativa: duas categorias históricas” ele observa que o passado (ou seja, a História) “se prende” em experiências, eventos, enquanto o futuro “se abre” em horizontes, possibilidades. Ou seja, para contar o acontecido pinçamos fatos, momentos, mas não podemos fazer o mesmo em relação ao futuro, apenas imaginamos sua ampla gama de alternativas.

Então, para comemorar e contribuir com a História deste futuro indefinível, fui à janela (ou melhor, à área de serviços, queria incluir o Corcovado...) e fiz uma fotografia. 
É uma tentativa de marcar uma experiência, um ponto na História: quem sabe não será útil a futuros historiadores?

Aguinaldo Ramos, 2010 - Vista de área de serviço, Tijuca, Rio de Janeiro.

E aproveito para um exercício de comparação (que é também algum divertimento...) entre as duas fotos, suas técnicas e suas linguagens:


Foto Niépce - 1826

Foto A. Ramos - 2010
Processo

“Heliografia”
Digital
Câmera

Sony 7,2 megapixel
Superfície sensível à luz
e suporte físico

Betume da Judéia (asfalto) sobre placa de metal
Sensor CCD
sobre cartão de memória
Tempo de exposição

8 horas ao sol
Milésimos de segundo
Processamento

Óleo de lavanda
Automático
Tamanho da imagem
8" x 6.5" (c. 20 x 16,5cm)
2048 x 1536 pixels
(reduzida para 425 x 319)

Disponibilidade
Encontrada por acaso em 1952, entre suas cartas
Imediata, via Internet
 
Seria, simbolicamente, um retorno, o fechamento de um ciclo?......
Talvez sim, talvez nem tanto: só a História do futuro dirá.
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Mais comentários sobre o tema  na postagem

O dia da Fotografia é... do Historiador!


O dia da Fotografia é... do Historiador!

O dia 19 de Agosto é o Dia Internacional da Fotografia.
Isto porque, nesta data, em 1839, a daguerreotipia foi apresentada à Academia de Ciências de Paris, o que não deixa de ser uma boa referência para historiadores...
E é também o Dia do Historiador!
Instituído por lei aprovada pelo Congresso em Janeiro deste ano, tem como referência a data de nascimento de Joaquim Nabuco (nascido em 1849), intelectual pernambucano que exerceu, além de grande opositor à escravidão e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), diversas atividades, entre as quais, diplomata, político, jornalista e... historiador.

Não que haja qualquer lógica nesta associação, mas, para um projeto que integra Fotografia & História, é o que se pode chamar, no mínimo, de uma feliz coincidência...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

02 > O passar do tempo


Como foi dito, este projeto tem como referência a dissertação de Mestrado “A História bem na Foto: fotojornalistas e a consciência da história”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Comparada – PPGHC/IFCS da UFRJ, em Julho de 2008. Partindo de depoimentos de fotógrafos profissionais sobre as suas fotos históricas, por eles mesmos escolhidas e justificadas (disponíveis na série de blogs A História bem na Foto), foi possível supor categorias de fotos históricas, que serão progressivamente apresentado neste blog.
Curioso foi perceber que uma categoria praticamente óbvia tornou-se a última a aparecer entre os depoimentos...
Trata-se do que poderíamos chamar de “mero passar do tempo”.
Sem dúvida, o fato relevante, a notícia, é a grande matéria-prima do fotojornalismo (e, afinal, da própria História). Mas, há muito mais acontecendo e disto a explosão das notícias não dá conta. Há todo um passivo e pacífico mundo de eventos no cotidiano das ações humanas, que a fotografia (em grande parte e felizmente) vem registrando desde os seus primórdios, para ficar no chavão. E é desta mesma maneira, passiva e pacificamente, que estas imagens vão se tornando históricas...
Quem finalmente trouxe esta foto exemplar foi Georges Racz, com a sabedoria de toda uma vida voltada para a fotografia, o cinema e a crítica de arte, em grande parte através da imprensa.
Ele a chamou de “O nascimento de uma paixão” e é a foto de um dos primeiros desfiles, no já distante ano de 1961, da hoje poderosa Escola de Samba Unidos da Tijuca, do Rio de Janeiro.


Georges Racz – Escola de Samba Unidos da Tijuca – Rio de Janeiro, 1961

É o próprio Racz quem explica:

A fotografia tem muitas funções. Mas, algumas são especiais, porque registram a história e, em outras, a mudam, como as fotos de Lewis Hine sobre as horríveis condições de trabalho infantil nos EEUU no século 19.
Claro, este singelo instantâneo não tem esta importância. Mas, para o historiador de amanhã poderá ser uma senda.
O mais importante é que de algo sem História saiu mais uma História.

A própria sobrevivência do registro vem garantir valor histórico à fotografia: o tempo fez dela uma âncora...

Georges Racz, fotógrafo e cineasta, nasceu na Hungria (1937).
Formou-se em Ciências Sociais pela PUC-RJ (1964).
Foi professor de Sociologia, Fotografia, Cinema e Artes Visuais,
implantou cursos de Fotografia do Museu de Arte Moderna RJ,
que coordenou entre 1972 e 1976.
Um dos criadores e presidente do grupo Photogaleria, 1973.
Crítico de arte, principalmente na revista Visão, entre 1976 e 1990.
Expôs fotografias com freqüência nas décadas de 70 e 80,
tem trabalhos nas coleções do MAM-RJ,
MNBA-RJ e The Art Museum of Chicago (EUA).
Para o Instituto Itaú Cultural é um dos
80 mais importantes fotógrafos do século XX,
.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

01 > Quais as fotos mais antigas do Brasil?

Nada melhor que iniciar estes comentários sobre fotos históricas por aquelas que são, reconhecidamente, as mais antigas do Brasil.

Hercules Florence à época 
da Expedição Langsdorff
Não há como deixar de reconhecer o impressionante pioneirismo de Hercules Florence, um francês que chegou ao Rio em 1824, registrou em pinturas e aquarelas (de 1825 e 1829) os 13.000km da Expedição Lansgdorff e desenvolveu, por volta de 1833, pioneiros processos fotográficos em Campinas-SP, reproduzindo rótulos e outros elementos gráficos (vide KOSSOY, Boris. Hercules Florence - 1833 - a descoberta isolada da fotografia no Brasil (2ª ed.). São Paulo: Duas Cidades, 1980).



O fato é que as primeiras fotografias (daguerreótipos) a registrar nosso ambiente sócio-cultural são imagens do Paço Imperial, do chafariz do Mestre Valentim e da Praia do Peixe (com o Mosteiro de São Bento ao fundo), obtidas em janeiro de 1840, no Cais Pharoux (atual Praça XV), Rio de Janeiro, pelo abade Louis Compte, capelão do navio-escola francês L’Orientale (ele antes teria feitos imagens, desaparecidas, de Salvador). 
Paço Imperial, Rio - Louis Compte (?), 1840 (?)

Um registro jornalístico (Jornal do Commercio, de 17/01/1840) mostra bem a impressão que a nova técnica causou:
É preciso ter visto a cousa com os seus próprios olhos para se fazer idéia da rapidez e do resultado da operação. Em menos de 9 minutos, o chafariz do Largo do Paço, a Praça do Peixe e todos os objetos circunstantes se achavam reproduzidos com tal fidelidade, precisão e minuciosidade, que bem se via que a cousa tinha sido feita pela mão da natureza, e quase sem a intervenção do artista.
Chafariz do Mestre Valentim e Cais da Praia do Peixe, Rio - Louis Compte, 1840

Assistiu à demonstração o futuro Imperador D. Pedro II, então com 14 anos de idade. Entusiasmado, D. Pedro adquiriu o aparelho em março do mesmo ano, iniciando  emocionada relação com a fotografia, como fotógrafo, mecenas (atribuindo títulos e honrarias aos principais fotógrafos do país) e  colecionador, legando à posteridade a “Coleção Família Imperial” do Museu Histórico Nacional e a “Coleção D. Thereza Christina Maria” da Biblioteca Nacional.

A daguerreotipia, primeiro processo fotográfico formalmente reconhecido (19 de agosto de 1839, Academie des Sciences de Paris), teve como principal desenvolvedor Louis Jacques Mandé Daguerre. 
Daguerreótipo é "uma imagem única realizada sobre uma 
placa de cobre recoberta de uma fina camada de prata. 
Sua superfície prateada reluzente mostra, conforme 
o ângulo do olhar, ora uma imagem negativa, 
ora uma imagem positiva: é um positivo direto".

No Brasil, um dos poucos pesquisadores (e autor) de daguerreótipos é Francisco Moreira da Costa, fotógrafo do Museu do Folclore, que ministra oficinas sobre o tema em todo o Brasil e também em seu estúdio de Lumiar, Nova Friburgo-RJ.
Curiosamente, nesta data, na palestra “Os daguerreotipistas estão chegando”, do ciclo Memória & Informação, da Casa de Rui Barbosa, Francisco comentou que o daguerreótipo com a imagem do Paço ( do acervo do Palácio Imperial de Petrópolis, reproduzida por ele) pode não ser o original...
Diz ele que, segundo alguns pesquisadores, acréscimos de balcões na fachada do Paço seriam de meados da década de 1840, o que significa dizer que a imagem pode ser posterior às outras obtidas por Louis Compte.
Ou seja, algo a ser conferido...

De início, princípios


É evidentemente uma honra receber o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, título dos mais prestigiantes da Fotografia brasileira.
O Prêmio tem longa história, em que assumiu várias formatações, calcadas sempre na escolha de fotógrafos e pesquisadores que se destacaram por sua contribuição profissional.
O que é muito justo, e acho que poderia ser mantida a concessão de um grande prêmio anual, talvez por escolha de um conselho formado, talvez, e é uma sugestão, pelos seus ex-ganhadores.
Por outro lado, entendo que a maneira e o resultado do padrão atual, através de edital público em que se faz a proposição de projetos para produção ou pesquisa, são profundamente democráticos e dinamizantes.
Em suma, vejo como um grande estímulo à Fotografia brasileira.
E, sem mais divagações, me coloco pessoalmente como um exemplo, grato, de tais efeitos.

domingo, 1 de agosto de 2010

A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil


A publicação deste blog é parte integrante do projeto
"A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil",
um dos vencedores do
Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia - 2010.

O objetivo do projeto é identificar na História do Brasil
fotografias que foram (ou ainda são) chamadas de “históricas”
e redigir, a partir da pesquisa, os originais de um pretenso livro.

Será priorizada na pesquisa a relevância social da fotografia,
sua influência sobre os acontecimentos históricos
após sua publicação ou, ao menos, realização.
Em suma, a princípio, para esta pesquisa,
fotos históricas são fotografias
que afetaram (ou afetam)
significativamente
a História. 


Ainda que a importância de tal foto se dilua no tempo, 
a pretensão é reconhecer, recuperar e registrar 
a sua relevância numa determinada época, 
baseado na observação das opiniões da imprensa, 
de cronistas e da literatura (em referências diretas aos fatos), 
além de, evidentemente, relatos históricos sobre os acontecimentos. 


Comentários sobre as leituras desenvolvidas na pesquisa
serão, certamente, um tópico constante neste blog,
permitindo a quem se interesse seguir o autor
nesta viagem às fotografias do passado 
ainda presentes na História.

Este projeto tem como referência 
a dissertação de Mestrado  
A História bem na Foto: 
fotojornalistas e a consciência da história
 do Programa de Pós-Graduação em História Comparada
PPGHC/IFCS/UFRJ
apresentada pelo autor em Julho de 2008.