quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Aula na Pós-graduação Fotografia, UCAM


Às vezes, têm-se a oportunidade de retornar a assuntos que nos são caros.
Esta semana, por exemplo, tive o prazer de dar aula sobre questões que apresento na dissertação de mestrado A História bem na Foto: fotojornalistas e a consciência da história, aprovada m Julho de 2008 pelo PPGHC – Programa de Pós-Graduação em História Comparada, do IFCS - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, na UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Este trabalho trata da questão da consciência do repórter-fotográfico, em relação ao caráter histórico do seu trabalho. Tem por base a escolha e apresentação, por parte de fotojornalistas atuantes na segunda metade do século XX, de suas fotografias que, eles mesmos, consideram históricas.
Os depoimentos (em vídeo, entrevista ou por escrito) foram transcritos e publicados em blogs. A série se inicia em A História bem na Foto - 1  


com dois históricos “depoimentos exemplares” (e mais o do próprio autor), se estendendo por vários outros. Os depoimentos estão disponíveis para consulta (ou mera curtição), conforme relação (e links) abaixo:
A História bem na Foto - 2 >  Vera Sayão > Brizola e o Beijoqueiro; Luiz Carlos David > O Papa no Aterro; Renan Cepeda > Polícia no Morro; Juvenal Pereira > JK nos Braços do Povo; Alcyr Cavalcanti > Desafetos Cordiais
A História bem na Foto - 3Mabel Arthou > Mais um Domingo...; Antonio Batalha > Tancredo se despede; Silvana Louzada > Collor x general Tinoco; Américo Vermelho > O enterro de D. Lyda; Elisa Ramos > Deficientes físicos: superação
A História bem na Foto - 4 > Zeca Guimarães > A dor de Tancredo; Antonio Scorza > Troféu de Guerra; Luciana Whitaker > Bala Perdida; Rogério Reis > O Poeta vira Estátua; Masao Goto Filho > Vitória nos Pênaltis
A História bem na Foto - 5 > Sergio Araujo > Pulo para a morte; Gilson Barreto > O prédio cai; Walter Firmo > Um santo enternecido; Cristina Zappa > Na alma; Luiz Morier > Todos negros
A História bem na Foto - 6 > Pedro Agilson > A chacina de Vigário Geral; Delfim Vieira > Seca no Ceará; Evandro Teixeira > Vinicius, Tom e Chico; Claudio Versiani > Taffarel e Baggio; Alex Ferro > Carnaval de Rua
A História bem na Foto - 7 >   Américo Vermelho > A bunda da Abertura; Rogério Reis > Vavá encontra Magalhães Pinto; Alcyr Cavalcanti > Sexo na hora, na rua; João Roberto Ripper > Editando Diretas-Já!; Custodio Coimbra > A multidão das Diretas
A História bem na Foto - 8 >   Ronaldo Theobald > O Deus de calção e chuteira; Georges Racz > O nascimento de uma paixão; Héctor Etchebaster > Homenagem no mar; Januário Garcia > Marcas do tempo; Luiz Carlos David > Asa-delta sobre o Cristo.


A aula está inserida no programa da Pós-Graduação Lato Sensu Fotografia - Imagem, Memória e Comunicação, da Universidade Candido Mendes – Rio de Janeiro, curso criado em 2001 por Milton Guran e coordenado, nos últimos anos, por Andreas Valentin.
Além da uma mudança de foco e de nome (chamava-se "Fotografia como Instrumento de Pesquisa nas Ciências Sociais"), o curso, que, a princípio, recebia basicamente fotógrafos e cientistas sociais, tem hoje alunos com alta diversificação em suas origens e/ou intenções profissionais, evidenciando a ampliação do interesse pelo uso da fotografia como material de reflexão nas mais diversas áreas.

Turma Pós-graduação Fotografia-UCAM - Aguinaldo Ramos, Set/2010.
 A foto (já que não lembrei de tirá-la no correr da aula) serve de homenagem aos que resistiram até o fim...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

07 > Na "Pré-Imagem" do fotojornalismo brasileiro


Se a História depende da escrita e se a História antes da escrita é chamada de "Pré-História", então o que tivemos na Casa de Rui Barbosa (Rua São Clemente, 134 – Botafogo – Rio de Janeiro) bem poderia ser chamado (com certa liberdade e algum humor) de a “Pré-Imagem” do fotojornalismo brasileiro...

Angelo Agostini, por Pires, (?)
De 15/09 a 17/09/2010, aconteceu lá o seminário “Angelo Agostini – 100 anos depois”, organizado pela historiadora Isabel Lustosa, apresentando uma série de palestras e reflexões sobre este prolífico caricaturista, impressor e, digamos, “cronista visual” ítalo-brasileiro.
Angelo Agostini chegou ao Brasil em 1859, aos 17 anos, aqui vivendo (e até se naturalizou) até a morte, com exceção de curto autoexílio em Paris, por conta de interdita e trágica paixão...


A exemplo de Raphael Bordalo, por uns tempos concorrente e desafeto, Agostini muitas vezes usou a fotografia como base para desenhos, em um tempo em que limitações técnicas (da fotografia e da imprensa) impossibilitavam a publicação mecânica das fotografias, exigindo a intermediação da xilografia (madeira) ou da litografia (pedra).

Um exemplo, ainda dos seus primeiros anos no Brasil, foi apresentado por Ricardo Salles (História/UniRio). Trata-se da imagem do oficial de um Exército brasileiro condecorado pela atuação na Guerra do Paraguai, na qual Agostini acrescenta ao realista portrait fotográfico o simbolismo heróico de coroas de louro...


Em outros momentos, como destacou Gilberto Maringoni (Comunicação/Cásper Líbero), Agostini transformava sua Revista Illustrada no que seria praticamente um jornal popular de hoje em dia, reproduzindo fielmente as fotografias, e ainda dando crédito ao fotógrafo... É o caso do drama das duas meninas escravas de 12 e 14 anos, que, mesmo resgatadas por populares, vieram a falecer, em 1886, em razão de maus tratos por parte de sua senhora, aliás, moradora do mesmo e nobre bairro de Botafogo, Rio de Janeiro...



Mas, na maior parte de sua obra as fotografias serviram a Agostini como referência genérica para  ilustrações alegóricas, como se evidencia na extensa e insistente série, comentada por Lilia Moritz Schwarcz (Antropologia/USP), de caricaturas do imperador Pedro II, de quem costumava debochar através da inversão de sentido dos seus próprios (e variados) retratos formais...  

Fotos do seminário: Aguinaldo Ramos, 2010.
 
Não é ainda, propriamente, fotojornalismo (até, porque a impressão mecânica das fotos pela imprensa só se tornaria realidade na virada do século XX), mas lá já estavam as fotografias, através do traço preciso de Agostini, de Bordalo e de outros, aflorando às periódicas páginas da imprensa brasileira...

Postagem atualizada em 30/10/2012.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

06 > A foto-síntese

O conceito, eu chamaria de foto-síntese.
O Acordo Ortográfico não me autoriza o uso do hífen... Por outro lado, a junção “fotossíntese” tem outro significado, específico, não fotográfico. Fico com foto-síntese porque, pergunto, alguém engoliria, como alternativa, por exemplo, a expressão “fotografia sintetizadora”?...

Então, foto-síntese nada mais seria que (mas, reconheçamos, é muito!...) aquela fotografia capaz de fazer, de ser (para toda uma maioria de observadores) o resumo, o sumário, a síntese (evidentemente simbólica e a mais compacta possível) de algum tema, assunto, evento etc.
(Hum, seria a tal imagem que vale mais que mil palavras?...)

Seja como for, a foto-síntese é uma procura constante do fotojornalista.
As limitações técnicas, nos primórdios da fotografia, e as limitações de espaço em veículos jornalísticos, entre outros fatores, contribuíram para que a foto-síntese se tornasse uma meta (às vezes inconsciente) dos repórteres fotográficos, mais tarde meio que substituída pelo “ensaio”, em especial nas revistas, e mesmo nos jornais.

A proposta de busca de um “momento decisivo”, a la Cartier-Bresson, seria uma derivação (ou, quiçá, a origem?...) da foto-síntese?... Não, acho que dá para diferenciar.
A “foto-momento-decisivo” pode até ser a foto-síntese de uma situação, de uma oportunidade, mas se conforma, sob a direção do fotógrafo, com a sua habilidade e/ou sorte, à geometria do instante.
Já a foto-síntese tem abrangência mais ampla (e que não se limite a escolha a um único fotógrafo...): um contexto, um ciclo, um período, um corpus fotográfico. De certo modo, muito mal comparando, a foto-síntese seria o punctum (a la Roland Barthes) de todo este material...

Como um exercício aplicado à nossa temática, alguns presidentes brasileiros e as possíveis foto-sínteses de cada um de seus governos (são, evidentemente, escolhas arbitrárias, mergulhadas em nuances ideológicas, mas todas sempre serão...).

A foto-síntese de JK, período rico de acontecimentos e imagens (construção de Brasília etc), fica em aberto, poderia até ser a “Me dá um dinheiro aí” de postagem anterior...

            Começo então por aquela que é, talvez, a foto mais reconhecidamente histórica de toda a  Fotografia brasileira. Foi feita por Erno Schneider em Abril de 1961 e publicada apenas em Agosto, quando o governo Jânio Quadros parecia tão indefinido quanto a direção dos seus pés na foto...

Foto de Erno Schneider - “Qual o rumo?” - 21/04/61


Pulemos João Goulart e o seu (até visualmente) confuso mandato e vamos logo à dureza da Ditadura Militar... Ou melhor, como propõe Daniel Aarão Reis, à Ditadura Civil Militar.

Alguns meses depois do golpe de 1964, o fotógrafo Braz Bezerra, do Jornal do Brasil, chegando cedo a uma reunião ministerial no Palácio do Catete, flagra o Mal. Castello Branco sozinho à cabeceira de mesa vazia de ministros, fazendo uma espécie de retrato do momento do país.

Foto de Braz Bezerra - Castello Branco só na reunião ministerial - 30/12/64


Em Dezembro de 1968, após a edição do AI-5, o mesmo tipo de foto, com o mesmo simbolismo, agora muito mais radical, se repete...
Na edição seguinte, a revista Veja publica na capa (autoria e data não são citados no site da revista) uma foto do presidente Costa e Silva sentado, sugestivamente só, em pleno Congresso Nacional.

Costa e Silva sozinho no Congresso - c. Dez/68


Passemos rápido pelos dois seguintes governos militares, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, deixando para depois a escolha, tarefa árdua, das suas foto-sínteses...
Chegamos, então, à dúbia presidência do Gal. João Figueiredo, período da chamada "Abertura". O presidente militar mantinha os óculos típicos, embora não mais usasse fardas e, sim, ternos. 
A foto de Jair Cardoso como que o desmascara...

Foto de Jair Cardoso - "A origem do poder" -  27/08/81


Qual a foto-síntese do inesperado governo Sarney?... E a de Collor: a de sua saída acelerada do Palácio após o impeachment?... A de Itamar, esta não correria o risco de ser um tanto eroticamente carnavalesca?... Qual a foto-síntese do intelectual Fernando Henrique Cardoso?... E a do operário-presidente Lula?...
Maior a proximidade, mas amplo o universo de escolha.
E mais difusa qualquer certeza...

[Atualizado em  08/09/2012]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

05 > A primeira fotorreportagem do Brasil e o Dia do Repórter Fotográfico


O fato é que temos verdadeira vocação para inventar efemérides, somos realmente seres históricos!
Sempre comemoramos a passagem do tempo (cada um, seus aniversários, e, solidariamente, as várias “bodas”). Ou marcamos no tempo, pela associação de datas a fatos, a nossa relação com as mais variadas entidades, inclusive as profissionais.
Daí, resulta que temos ao menos três “Dia de...” em torno da fotografia no Brasil: o 8 de Janeiro, Dia da Fotografia; o 19 de Agosto, Dia Internacional da Fotografia e, valorizando a classe dos fotojornalistas, o Dia do Repórter Fotográfico, neste 2 de Setembro.
Com exceção do 19 de Agosto (veja aqui), o difícil é saber a razão das escolhas, e desta vez o Google não resolveu o problema... 
Além disso, o 2 de Setembro é também o Dia do Florista, e não me perguntem os motivos, nem as possíveis consequências desta inesperada associação...

Por outro lado, outra forma muito frequente de aplicação do chamado “senso comum” à História é a incessante busca de uma definição sobre a primeira vez, seja lá de qual fato... Por exemplo, o primeiro avião: é de Santos Dumont ou dos irmãos Wright?... Em suma, intermináveis variações daquela dúvida cruel de nossa infância: o ovo ou a galinha?

Assim, temos aqui o cruzamento destas duas “necessidades” históricas, a “data oficial” e a “primeira vez”: qual foi a primeira reportagem fotojornalística realizada (e publicada) no Brasil?...
(Hum, hora de pedir ajuda aos especialistas...)


Para Joaquim Marçal, em seu livro “História da fotorreportagem no Brasil: a fotografia na imprensa do Rio de Janeiro de 1839 a 1900” (Elsevier, Rio: 2004), a primeira fotorreportagem foi publicada em 1878 na revista O Besouro – folha ilustrada, humorística e satírica, dirigida pelo português Raphael Bordalo.

José do Patrocínio ia ao Nordeste registrar a seca para o jornal Gazeta de Notícias e Bordalo lhe encomendou algum material para a revista. Impressionado com a miséria, Patrocínio consegue fotografias no formato carte-de-visite e as envia para o Rio.
Transformadas em litografias pelo próprio Bordalo, são publicadas na primeira página da edição de 20 de julho de 1878 de O Besouro, encimadas pelo título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”.

J. A. Corrêa, 1878 - Vítimas da seca no Ceará
Note-se o desenho que enquadra as fotografias: é a mão de um esqueleto, usando paletó e camisa social com abotoaduras, que segura as duas carte-de-visites como cartas de baralho, em evidente alusão à crítica generalizada de que as autoridades estavam “jogando” com as vidas humanas. Marçal destaca que o editor associa “a ‘objetividade positivista’ das cópias fidelíssimas das fotografias ao posicionamento crítico e subjetivo dos títulos e de vários detalhes significativos de seu desenho”, mas ressalta tratar-se do “primeiro uso da fotografia como um instrumento de denúncia naquele meio de comunicação”, a revista.

Mas, quem foi o fotojornalista? 
Quem se dispôs a trazer ao estúdio e registrar para a História estas crianças subnutridas, a imagem da seca?...
Bordalo não lhe dá o crédito, destacando apenas o autor do texto, mas Marçal identifica, nos originais da Biblioteca Nacional, uma marca impressa tipograficamente em vermelho que traz o nome do fotógrafo: J. A. Corrêa – Ceará.
No entanto, não se sabe exatamente quem foi... 
Era a marca de um estúdio de Fortaleza, onde trabalhavam dois fotógrafos, certamente parentes, irmãos ou primos: Joaquim Antonio Correa e José Antonio Correa...

Curiosamente, o próprio Joaquim Marçal é candidato a quebrar este paradigma, o da primeira fotorreportagem no Brasil.
Atualmente ele pesquisa, para seu doutorado na História Social - IFCS/UFRJ, a Guerra do Paraguai (1864-1870), de que se conhece apenas fotografias posadas (o chamado “teatro de guerra”). Para ele (e outros pesquisadores), fotografias podem estar engavetadas (como acontece com registros históricos mais recentes) em algum departamento um pouco mais zeloso do Exército brasileiro... Tais fotos, trazidas à luz e associadas a relatórios de campo, seriam certamente outros marcos iniciais da fotorreportagem no Brasil.

Ah, outra ironia: o 2 de Setembro é, ainda, o Dia do Lazer!
Pois escrever esta postagem deu um bocado de trabalho...
 
Joaquim Marçal Ferreira de Andrade é designer (ESDI/UERJ), fotógrafo e pesquisador. 
Mestre em design pela PUC-Rio e doutorando em História Social pelo IFCS/UFRJ. 
Como pesquisador da Biblioteca Nacional, coordenou o projeto de resgate da coleção
de fotografias de D. Pedro II, hoje inscrita no programa Memória do Mundo, da Unesco.
Professor adjunto de fotografia do Departamento de Artes & Design da PUC-Rio
e da pós-graduação em Fotografia do Instituto de Humanidades da UCAM.