segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O desgastante papel da imprensa

No dia 23/10/2010, Pelé comemorou 70 anos. No correr da semana, merecidamente, mais do de sempre: muitos elogios à sua arte e algumas ironias sobre as suas opiniões...
Vídeos e fotos, evidentemente históricos, marcaram o momento. Algumas destas escolhas, porém, foram chutes contra o gol da História...

O jornal O Globo, na série de cinco reportagens publicadas de 3ª-feira (19) a sábado (23), abriu, no dia 20, o Caderno de Esportes com uma “foto-alegoria” aos 1.000 gols de Pelé, creditada a “Keystone/1969”. 

Foto de Sergio Jorge - Santos, 1969
Na 6ª-feira, 22/10, certamente cedendo a reclamações, publicou a nota “’Manchete’ fez foto dos mil”, informando que “a foto foi feita pelo fotógrafo Mituo Shiguihara, na Vila Belmiro, por iniciativa do diretor de redação da época, Zevi Ghivelder”, numa correção a posteriori do crédito da foto, trocando a empresa que a vendeu por um detalhado informe sobre a autoria... 
 [Em Julho/2011, o fotógrafo Sergio Jorge reivindicou o crédito e contou a verdadeira história da foto, veja em A foto de imprensa e as questões do momento]

Por outro lado, não publicou um dos registros mais perfeitos de uma bicicleta futebolística, a foto de Alberto Ferreira, do concorrente Jornal do Brasil, do jogo da Seleção contra a Bélgica, em 1965, no Maracanã.

Foto de Alberto Ferreira - Rio de Janeiro, 1965

Foto que o Jornal do Brasil (não mais em papel...), com fotografias do CPDoc JB (sem créditos), incluiu na galeria Pelé, 70 anos de reinado e também no vídeo Pelé 70 Anos, que atualiza a postagem 23 de outubro de 1990 - Pelé completa 50 anos de seu JBlog.  

No entanto, não publicaram outra emocionante foto de Pelé, do mesmo Alberto Ferreira, que rendeu a ele e ao JB o Prêmio Esso de Fotografia de 1962...

 

Foto de Alberto Ferreira - Copa do Chile, 1962
Jogo duro...
Sucessivas publicações das fotos na imprensa (ainda mais com a intermediação de agências) tendem ao sumiço dos créditos; concorrência entre os veículos de imprensa leva à desvalorização (e ao esquecimento) do trabalho e da obra alheios...
Em outras palavras, possíveis citações (e publicações), que acrescentariam valor histórico às fotos, podem ser bloqueados por desinteresses (e interesses...) amesquinhadores.
O lance é ficar atento à jogada. O jogo (a História, a vida) não se ganha no grito, a partida não termina de repente: há uma prorrogação contínua... 

E se é para homenagear os 70 anos de Pelé, as revista Manchete e Fatos & Fotos (desaparecidas testemunhas de sua carreira) entram nesta história (parcial, como todas).

Foto de Orlando Abrunhosa - Copa do México, 1970

Em gesto muito próprio, pelo fotógrafo Orlando Abrunhosa, a foto síntese, foto ícone, foto símbolo: Pelé, um vitorioso!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Aos Mestres, com carência...

Uma homenagem (jamais tardia, nunca bastante) ao Dia do Mestre.

Não há candidato a qualquer coisa que não faça o diagnóstico exato: o problema do Brasil é a educação. Ok, está certo, não é bem assim... Eles sabem (e talvez até queiram dizer) que o problema do Brasil é a falta de educação!
A história da educação no Brasil é, em grande parte, a história das tentativas frustradas (pelos outros...) de melhorar (ou até revolucionar) suas estranguladas estruturas.
Pode-se até pensar que, historicamente, nós, brasileiros, temos simplesmente desprezado nossos melhores educadores. Talvez, por mera falta de educação...

No Império, D. Pedro II acumulou, neste campo, extensa “folha corrida” de benemerências. Foi inclusive o primeiro fotógrafo brasileiro, a partir de março de 1840. Mas, apesar da seriedade de sua figura, não conseguiu, em geral, muito mais do que ser caricaturado como um governante alienado dos problemas do país [veja neste blog  http://afotohistoricanobrasil.blogspot.com/2010/09/na-pre-imagem-do-fotojornalismo.html]
Pedro II aos 61 anos, 1887 - Lucien Waler
"Interessado na educação, o imperador freqüentava concursos nas escolas de Medicina, Politécnica, Militar e Naval. Isso sem falar do Colégio Pedro II, a grande predileção do monarca” [SCHWARCZ, Lilia Moritz, As Barbas do Imperador, Companhia das Letras, 2002]. “Foi o fundador, mantenedor e incentivador de inúmeras instituições científicas no Brasil, entre as quais se destacam, além do já citado observatório astronômico, o Instituto Baiano de Agricultura, o Instituto Agronômico de Campinas, o Museu Paraense, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e a Escola de Minas de Ouro Preto.” [http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_II_do_Brasil]
Rui Barbosa - Chapelin, Paris, 1907

Rui Barbosa voltou consagrado da Segunda Conferência da Paz, Holanda, 1907, aclamado como a Águia de Haia! Pois, em 1910, apesar do vulto da Campanha Civilista, foi derrotado na disputa para Presidência da República, certamente muito mais pela ignorância dos adversários que a dos eleitores...
A participação de Rui na Conferência da Paz, encerrada em 18 de outubro de 1907, repercutiu na imprensa internacional, colocando em evidência uma brilhante atuação. Diplomatas que regressavam da Holanda espalhavam notícias sobre o triunfo do delegado brasileiro. Quando desembarcou no solo natal, em dezembro daquele ano, um povo envaidecido e orgulhoso consagrava-o como a Águia de Haia. Rui Barbosa atingia o ápice da glória. [http://www.projetomemoria.art.br/RuiBarbosa/periodo1/index.htm]

Villa-Lobos - s/d, 1942
Villa-Lobos, um gênio tão inspirado quão transpirador, investiu no potencial transformador da música. Aproveitando interstícios do poder (inclusive um convite de outro grande educador, Anísio Teixeira), criou, em 1942, o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, que formaria o Magistério Orfeônico nas escolas, e elaborou diretrizes para o ensino do Canto Orfeônico etc etc, iniciativas que... desapareceram com o tempo.
Escreveu Carlos Drummond de Andrade: "Quem o viu um dia comandando o coro de 40.000 mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber". [http://www.boamusicaricardinho.com/villalobos_83.html]

Paulo Freire - s/d, anos 80
Em 1963, Paulo Freire testou, no Rio Grande do Norte, seu método de alfabetização pela conscientização: ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias. Com o golpe de 64, preso e depois exilado, produziu no exterior extensa obra prática (implantando o método em vários países) e teórica (publicando vários livros). Após a Anistia de 1979, retornou à luta pela educação no Brasil.
“Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” (Paulo Freire) [http://www.paulofreire.ce.ufpb.br/paulofreire/]

Niemeyer, Brizola e Darcy apresntando CIEPs - s/d, 1982



Darcy Ribeiro, antropólogo, um dos fundadores e primeiro reitor, 1962, da UNB - Universidade Federal de Brasília, também se exilou da ditadura do golpe de 64, trabalhou com Allende no Chile. Após a anistia, foi um dos idealizadores (no primeiro governo Leonel Brizola, 1982-86) dos CIEPs, Centros Integrados de Ensino Público, projeto pedagógico com assistência em tempo integral ao aluno, abandonado pelos governos posteriores...
“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu” [Darcy Ribeiro, http://fundar.tempsite.ws/]

Uma opção que todos estes Mestres possivelmente assumiriam.
O problema é que os tais que lhes foram vencedores continuam nos mesmos lugares...

sábado, 9 de outubro de 2010

A foto de grupo

Há poucas coisas mais apropriadas a uma foto histórica do que gente...
E gente costuma aparecer nas fotos das formas as mais variadas.Uma das mais comuns é certamente a forma “grupo”. Qualquer grupo, em algum momento (no que as pessoas se reúnem e se pretende um registro, e já aconteceu com todos nós...), assume a forma de “foto de grupo”, e sempre se pede que façam uma...
Uma foto de grupo assume proporções históricas, antes de mais nada, pelo valor social de seus fotografados. Até porque estão fora de cogitação outros fatores, como a dinâmica ou a surpresa do momento, por exemplo.
As formas (de composição) das fotografias têm, certamente, sua história. O retrato, por exemplo, mereceu considerável bibliografia. Já a foto de grupo, solução tão evidentemente óbvia, não tendo muito como variar no tempo, pode ser um desafio para historiadores. Na verdade (e os fotógrafos sabem muito bem disto), suas variações de forma estão, muito mais propriamente, presas às escolhas (e às restrições) do espaço.

Pode assumir estilo elegante, como na foto de vários dos fundadores da ABL, digna das cabeças privilegiadas ali reunidas.

Foto: autor desconhecido. “Integrantes da panelinha, criada em 1901 para a realização de festivos ágapes e encontros de escritores e artistas. A fotografia é de um almoço no Hotel Rio Branco (1901), que ficava na rua das Laranjeiras, 192. De pé, temos: Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Olavo Bilac, José Veríssimo, Sousa Bandeira, Filinto de Almeida, Guimarães Passos, Valentim Magalhães, Rodolfo Bernadelli, Rodrigo Octavio, Heitor Peixoto. Sentados: João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos”.
Fonte: Academia Brasileira de Letras - http://www2.academia.org.br/

Não é necessariamente a forma ou o ambiente que dá sentido às fotos de grupo
Às vezes as circunstâncias visuais parecem semelhantes com, no entanto, significados completamente diferentes...
Abaixo dois exemplos:

            Foto: Milton Neves. Delegação do Brasil embarcando rumo à Suécia, 1958, conquista de nossa primeira Copa do Mundo: Paulo Machado de Carvalho (o terceiro à esquerda), Dr. Hilton Gosling, Dino Sani, Zito, Dida, Pepe, De Sordi, Mazzola, Mauro e Mário Américo. Agachados: Moacir, Oreco, roupeiro Luisão e o dentista Dr. Mário Trigo.


Foto: autor desconhecido. Presos políticos libertados por exigência de sequestradores do embaixador americano Charles Burke Elbrick, posam em frente ao Hércules 56 da FAB que os levaria para o exílio no México. De pé, a partir da esquerda: Luís Travassos, José Dirceu, José Ibrahim, Onofre Pinto, Ricardo Vilas, Maria Augusta, Ricardo Zarattini e Rolando Frati. Agachados: João Leonardo, Agonalto Pacheco, Vladimir Palmeira, Ivens Marchetti e Flávio Tavares. Rio de Janeiro, 1969.

Ou pode assumir um aspecto impactante, pelas condições dos (pelo menos em parte) fotografados do grupo.

 Foto: autor desconhecido. Lampião e grande parte de seu grupo foram mortos em 28 de julho de 1938, na Fazenda Angico, Sergipe, vítimas de emboscada de uma tropa de 48 policiais de Alagoas, comandada pelo tenente João Bezerra, que dispunham de quatro metralhadoras Hotkiss. Lampião, Maria Bonita (degolada viva) e nove cangaceiros tiveram suas cabeças cortadas e expostas em praça pública: Lampião, Quinta-feira, Maria Bonita, Luiz Pedro, Mergulhão, Eléctrico, Caixa de Fósforo, Enedina, Cajarana, (desconhecido) e Diferente.
Fonte: http://members.fortunecity.co.uk/acardoso/genios/lampiao.html



            Além das imagens, a foto de grupo acrescenta estrutura ao que, por escrito, não passa de uma mera relação de pessoas fotografadas... 

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Quando o povo perde a eleição

Talvez se encerre neste domingo, 03/10/10 (se não houver 2º. turno) uma das campanhas eleitorais para Presidência da República das mais insossas de todos os tempos...
Entre outros motivos, pela pouca presença do eleitor, o povo, nas ruas, nos comícios, nas campanhas. Seguindo a tendência tecnológica das últimas décadas, até a própria campanha eleitoral foi se tornando virtual, frequentando basicamente o rádio, a televisão e a internet.
Mas, nem sempre foi assim...
No início da República as eleições mantiveram o padrão "coronelista", o "voto de cabresto", a lista de eleitores do chefe local, heranças das divisões de poder do Império. Práticas que evoluíram para a predominância dos governadores como chefes políticos regionais, com destaque para os estados economicamente mais fortes, São Paulo e Minas Gerais, a alternância "café com leite" no poder.
Acrescenta-se a este quadro a intempestividade das intervenções militaristas e ainda mais confusa se tornou a política brasileira, sempre garantida a divisão do poder por grupos restritos. A partir de várias formas de mobilizações democratizantes, de anarquistas a grupos legalistas, o povo aumenta sua participação nas campanhas presidenciais, mas não chega a  influir muito no resultado...
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Em 1909, Rui Barbosa percorreu de trem, em campanha, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo - Arq. FCRB.
O exemplo mais significativo é o das eleições de 1910. A Campanha Civilista, encabeçada por Rui Barbosa (ao centro da foto), recebe amplo apoio popular, mas, por conta do esquema de manipulação de votos dominado pelo deputado Pinheiro Machado, foi oficialmente eleito o Marechal Hermes da Fonseca.

Há outras formas do povo perder as eleições... Escolhas excessivamente emocionais, por exemplo. Na última eleição antes da ditadura e também na primeira após seu fim, as candidaturas mobilizadoras das massas acabaram dando chabu!...
Jânio Quadros, em 1960, é eleito com mais de 2/3 dos votos, mas, após pouco mais de um ano de mandato, vítima, segundo ele, de "forças terríveis", renuncia.
João Roberto Ripper. - Diretas Já - Rio de Janeiro, 1985
Collor de Mello, eleito em 1990 sob a fama de "caçador de marajás", é acusado, pouco mais de um ano depois, de corrupção e, correndo risco de impeachment, renuncia.
















A ironia das ironias, em termos de participação do povo no processo de escolha do presidente da República, é certamente a campanha das Diretas Já, 1985.






Custódio Coimbra - 1985





Provavelmente a maior mobilização popular da História do Brasil, visava a aprovação pelo Congresso de eleições diretas em 1985, o que encerraria o ciclo ditatorial que vinha de 1964. Apesar do fracasso, a campanha serviu de base para o consenso na escolha, por eleição indireta, do presidente Tancredo Neves.  Que, eleito, não chegou, afinal, como se sabe, a tomar posse...