terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Viagem a um encontro histórico da Fotografia brasileira Ouro Preto, 1987

Se é por uma boa e divertida causa, reabrem-se as atividades do blog
A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil,
que, por algumas postagens, tentará recuperar histórias de cinco fotógrafos cariocas 
(Aguinaldo Ramos, Ana Paula Romeiro, Celso Oliveira, Masao Goto Filho e Vera Sayão)
numa viagem a um grande encontro fotográfico,
a VI Semana Nacional de Fotografia - INFoto, em Ouro Preto, 1987
durante uma semana, 16 a 22 de Agosto, de domingo a domingo.
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Durante a década de 1980, a fotografia brasileira recebeu o precioso estímulo
 da atuação do INFoto, setor da Funarte dedicada ao setor.
Baseado no Rio de Janeiro, em salas do Museu Nacional de Belas Artes,
promoveu importantes eventos de alcance e repercussão nacional.
Dos mais importantes, as Semanas da Fotografia, a cada ano da década,
em cidades de todas as regiões do país.
A maior e mais importante, certamente, a de Ouro Preto, 1987.
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E este evento, entre muitos registros, tem a sua "foto histórica", 
aquela em que todos os que participam querem se ver representados.
Foto L C Felizardo
  Esta foto é o ápice, mas até lá (e depois também)
houve um longo (mas sempre prazeroso) caminho...
Leia nas  páginas ao lado  as nossas 

Lembranças da VI Semana Nacional de Fotografia - INFoto

Ouro Preto, 1987

um descompromissado exercício memorialista, 
versões particulares desta grande aventura da Fotografia brasileira.
 

E depois,
se quiser participar da viagem,
volte aqui
e faça seus comentários!...
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

O blog "A Foto Histórica" passa à História...

A partir desta data, interrompo as atividades do blog
A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil,
que provavelmente não será mais atualizado neste formato.
Fruto do prêmio Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia - 2010,
o blog cumpriu a sua função de dar visibilidade ao projeto
e servir de apoio à redação de um livro sobre o tema.
A possibilidade de publicar o livro está em aberto,
a depender de arremates e acertos editoriais,
o que poderá levar à reativação do blog, se for o caso.

Quero lembrar que o tema “fotos históricas” é cada vez mais cultivado na Internet.
Há dezenas de sites sobre o assunto e aproveito para deixar algumas sugestões.

Entre os blogs, destaco e recomendo
OlhaVê, de Alexandre Belém e Geórgia Quintas;
Icônica, de Rubens Fernandes Jr, Ronaldo Entler, Claudia Linhares Sanz e Maurício Lissovsky;
Images & Visions, de Fernando Rabelo;
Blog da Josefina, de Claudio Versiani.
No Facebook, alguns fotógrafos comentam fotos históricas,
vejam os perfis do próprio Fernando Rabelo e de Claudio Edinger.
E há importantes fotógrafos que falam sobre suas próprias fotos,
como Pedro Martinelli e Orlando Brito, em seus blogs,
e Ricardo Beliel no Facebook.

Espero que todos fiquem com uma boa imagem do blog.
Ou melhor, com as muito boas imagens das fotos históricas!
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É hora de novas ideias e projetos.
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Agradeço a todos pela atenção,
especialmente aos que participaram com comentários.
Aguinaldo Araújo Ramos

Aulas na Pós-Graduação Fotografia

No final de Setembro/2011, convidado pelo seu coordenador, Prof. Dr. Andreas Valentim, tive o prazer, de ministrar duas aulas no curso de Pós-Graduação FOTOGRAFIA - IMAGEM, MEMÓRIA E COMUNICAÇÃO, do Instituto de Humanidades, da Universidade Candido Mendes, a exemplo dos anos anteriores.
As aulas versaram sobre temas que desenvolvi nos últimos anos, na área acadêmica e em pesquisas.
A primeira teve por base minha dissertação de mestrado A História bem na Foto: fotojornalistas e a consciência da história, apresentada ao PPGHC – Programa de Pós-Graduação em História Comparada, no IFCS - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2008.
A segunda, foi justamente referenciada neste projeto A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil, assunto deste blog.
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Fiquei muito bem impressionado com o grau de interesse e dedicação da turma deste ano, bem madura e com interesses bastantes amplos. Alguns têm projetos em andamento (por exemplo, a pesquisa sobre festas populares de Luiz Sombra), outros são profissionais em arquivos e museus, e vários fazem do curso um importante investimento de ordem pessoal.  
Agradeço a todos a boa acolhida e o interesse que demonstraram nas aulas.

domingo, 11 de setembro de 2011

Atentados, no atacado e no varejo

Esta data, que desde 2001 é, de certa maneira, o Dia Internacional dos Atentados, sugere uma mínima olhada sobre os nossos...
Para os mais jovens (e os menos ligados) talvez valha a pena lembrar que quando se fala "no varejo" trata-se do indivíduo, o nominado; e quando se fala “no atacado” é o coletivo, o indiscriminado. Uma regra que tem valor geral, desde o mercado de secos & molhados de antigas esquinas até as lutas mais insanas das políticas mais globalizadas.
Pois, afinal, em matéria de atentado, também no Brasil temos nosso legado...

Atentado contra Ronald Reagan - Sebastião Salgado, 1981
Os tempos do Império podem ser às vezes idealizados como a calmaria que precede uma republicana tempestade... Nem por isto D. Pedro II escapou de um atentado, do qual, contam os jornais, saiu-se com elegância e generosidade. Na saída do Teatro Santana (atual Carlos Gomes), no largo do Rocio (atual Praça Tiradentes), em 15 de julho de 1889, o Imperador e a Imperatriz, além dos gritos de "Viva a República", ouvem, já em sua carruagem, três tiros que são contra eles disparados. O autor, Adriano do Vale, português de 20 anos, é preso e, não tendo qualquer ligação com republicanos ou militares que combatiam o governo, é simplesmente perdoado por Dom Pedro II.
Não tínhamos então um Sebastião Salgado, que, em 1981, em Washington, fotografou, em condições semelhantes, o atentado contra Ronald Reagan, presidente dos EUA, e ainda conseguiu, com a venda das fotos, a sua independência financeira...  

Mais dramático foi o atentado contra o primeiro presidente civil (e eleito pelo voto direto, em 1894), Prudente de Morais, representante da oligarquia cafeeira paulista. Além da Guerra de Canudos (finda em outubro de 1897), Prudente de Morais enfrentou a oposição de setores militares que atuavam como milícias independentes.
Prudente de Morais presidente, 1894
Mal. Machado Bittencourt
Na chegada das tropas ao Rio (05/11/1897), o anspeçada Marcelino Bispo de Melo o atacou, com revólver e faca. Resultou uma vítima fatal, seu Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt, morto a facadas. Bittencourt era justamente o militar responsável pelo ataque final a Canudos e também pela aplicação da “gravata vermelha”, ou seja, a degola, "no atacado", de milhares de homens, mulheres e crianças, que tinham se rendido no arraial.
Em resposta ao atentado, Prudente de Morais decreta estado de sítio na capital, desarticula a oposição e dois Capitães são condenados, como mentores intelectuais do crime. O anspeçada Marcelino, preso no ato, acaba sendo encontrado enforcado na cadeia...
Prisioneiros da Guerra de Canudos - Flávio de Barros, 1897

 
Lacerda ferido - Mundo Ilustrado, 11/08/54
Não temos, como alguns dos mais belicosos países, presidentes mortos por atentado em pleno exercício do mandato. Temos, porém, o caso do presidente que, abalado pelas repercussões de um atentado, logo atribuído a seu governo, toma a decisão de, com êxito, atentar contra a própria vida... 
O atentado da rua Tonelero, contra o agressivo jornalista Carlos Lacerda, em 5/8/1954, de tal forma reverberou que chega a ser considerado um fato determinante para o suicídio de Getúlio Vargas. Dada a evidente participação de membros da guarda pessoal do presidente, a situação em poucos dias evoluiu de uma forte pressão pela renúncia para a ameaça explícita de golpe militar. Na madrugada de 24/08, Getúlio Vargas, deixando uma carta testamento à Nação, se suicida e é a emocionada reação popular que provoca o adiamento dos planos golpistas.

Alte. Nelson Gomes Fernandes
Com a ditadura, que se segue ao golpe de 1964, recrudescem no Brasil os atentados “no atacado”... 
Na manhã de 25/07/1966, ainda que o alvo principal fosse o candidato oficial à sucessão de Castelo Branco, marechal Arthur da Costa e Silva (que viria de João Pessoa), uma bomba é colocada, por grupos de esquerda, no saguão do aeroporto de Recife. Tendo a viagem aérea sido cancelada por pane no avião, o futuro presidente não correu qualquer risco, mas o atentado do aeroporto Guararapes provoca duas vítimas fatais, o jornalista Edson Régis de Carvalho e o almirante reformado Nelson Gomes Fernandes, causando ainda14 feridos.

A maior contrapartida, efetuada por grupos de direita a este tipo de ação é, realmente, um exemplo de atentado que, visando efeitos políticos pela escolha de um alvo simbólico, deveria ser potencializado ao atingir vidas humanas indiscriminadamente. 
Sgt. Guilherme Pereira do Rosário – Vidal da Trindade, 1981
No atentado do Riocentro, na noite de 30/04/1981, os autores tinham a intenção de explodir bombas no pavilhão onde milhares de pessoas assistiam ao show comemorativo do Dia do Trabalhador.  
Numa espécie de acidente de trabalho, as vítimas foram justamente alguns dos seus executores, morrendo na precipitada explosão (ainda no Puma em que preparava uma das bombas) o sargento Guilherme Pereira do Rosário, especialista em explosivos, e
ficando ferido o então capitão, hoje coronel, Wilson Dias Machado.

Desde então, talvez por conta da redemocratização, os atentados deste porte, “no atacado”, ou contra alvos "notáveis" não mais aconteceram. Mas nem por isto o Brasil se tornou um país especialmente pacífico... 

É “no varejo” que as mortes políticas continuam sendo praticadas e –  em vez dos grandes personagens da política – cotidianamente atingem vereadores, prefeitos, religiosos, ecologistas, lavradores, favelados etc... 

De certo modo, é só morrendo desta forma que há espaço para todos eles na nossa História... 

domingo, 21 de agosto de 2011

Encontros inusitados

Circula pela internet, como anexo, uma projeção de fotos que mostra encontros importantes (e muitas vezes inusitados) de artistas e políticos americanos e europeus, um PowerPoint editado (diz o crédito) por Terezinha Casalecchi (tcasalecchi@gmail.com), de Bauru.
Eis aí um mote interessante... Certamente há no Brasil, registrados pelos nossos fotógrafos, um rol de encontros inusitados ou inesperados, e pode-se lembrar aqui de alguns deles, dando preferência às áreas da política e da diplomacia, até porque, sendo nossa referência a fotografia, precisamos mesmo de algum foco...

No campo da diplomacia, encontros de primeiros mandatários são comuns, e no Brasil sempre tiveram alta prioridade as visitas dos presidentes americanos, que foram importantes, é claro, mas, sendo sempre esperadas, são assunto para outro momento...
Jânio Quadros e “Che” Guevara - Brasília, 1961

Em outros níveis, os encontros talvez surpreendam mais... Um dos mais polêmicos aconteceu em 1961, quando o presidente Jânio Quadros, conservador de direita, outorgou a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, mais alta condecoração brasileira para estrangeiros, ao esquerdista líder revolucionário (e, à época, ministro) cubano, o argentino Ernesto “Che” Guevara. Para os motivos do gesto de Jânio, que provocou um conflito com Carlos Lacerda, há várias versões: um mero gesto de amizade (Jânio, ainda candidato, esteve em Cuba em 1960), um pedido do Vaticano para intermediar a crise governo/igreja em Cuba e até um apoio secreto a John Kennedy, presidente americano...
Cabe lembrar que a renúncia de Jânio à presidência ocorreu apenas seis dias depois, em 25 de Agosto de 1961, há exatamente 50 anos.

Pelé e Robert Kennedy - foto Life, Rio, 1965
Outro encontro dos mais inusitados foi o de Robert Kennedy e Pelé, em 1965. Após assistir ao jogo entre os selecionados de Brasil e União Soviética (justamente o grande inimigo americano da Guerra Fria de então...), Robert Kennedy, virtual candidato à presidência dos EUA, acompanhado por fotógrafos (inclusive um da revista Life), desceu ao vestiário do Maracanã para se encontrar com Pelé, que, entre surpreso e divertido, o recebeu ainda ensaboado, enrolado em uma toalha!
Uma jogada de marketing?... Um trunfo diante dos eleitorados negro e latino, tentando ocupar o lugar do irmão John, assassinado em Dallas, em 1963?... Embora tenha negado a interlocutores a candidatura, Robert Kennedy, no encontro com Pelé, parece estar o tempo todo posando para um previsível futuro cartaz de propaganda. Como não há garantias, seu encontro com a morte, também por assassinato, aconteceu antes...
JK e Lacerda almoçam em Lisboa, 1966

Os encontros entre antigos inimigos políticos são, para o bem ou mal, dos mais espantosos eventos da política brasileira.
Convertido de comunista a direitista no final dos anos 30, Carlos Lacerda foi, por mais de uma década, inimigo ferrenho de Getúlio Vargas (é considerado o pivô de seu suicídio) e do seu pupilo, o futuro presidente João Goulart.

Assumidamente golpista, Lacerda, liderando a UDN e buscando apoio nos militares, tentou derrubar Juscelino Kubitschek antes mesmo de sua posse e fez novas tentativas durante o mandato.
Jango e Lacerda na Frente Ampla - Montevideu, 1967

Candidato declarado à presidência, foi surpreendido pelo sucesso e eleição de Jânio Quadros, com quem logo se indispôs, em 1961. Pouco depois, ajudou a derrubar Jango, apoiando o golpe civil-militar de 1964, o que lhe abriria caminho para a presidência...

Com a consolidação da ditadura, aceita a sugestão indireta de JK, exilado em Portugal, de formarem uma Frente Ampla, tentativa de reunir a oposição, e se encontra com ele em Lisboa, em novembro de 1966. Diante da desconfiança de que seria o maior beneficiado, resolve se encontrar com João Goulart, exilado em Montevidéu, em setembro de 1967, atitude que também provocou reações negativas, tanto da direita quanto da esquerda.
Carlos Lacerda entrevist Roberto Carlos - Gil Pinheiro, 1970
Após algum esforço de mobilização, a Frente Ampla é proscrita, em abril de 1968, pelo governo ditatorial, que também decreta a cassação dos direitos políticos de Carlos Lacerda. Em 1970, Lacerda, à falta de projetos políticos viáveis, volta aos tempos de jornalista e, entre outros, entrevista Roberto Carlos na Manchete, revista de Adolpho Bloch, outro de seus antigos desafetos...

Às vezes, os inimigos se encontram, mas nem por isto se associam... Na série de depoimentos A História bem na Foto, Alcyr Cavalcanti relembra o inesperado encontro, no natal de 1982, entre Leonel Brizola, governador do Rio de Janeiro, e Roberto Marinho, proprietário das Organizações Globo.
Brizola e Roberto Marinho - Alcyr Cavalcanti, Rio, 1982
Um encontro até então inimaginável, considerando-se o papel do conglomerado Globo na tentativa de fraudar a eleição de Brizola como governador, o chamado caso Proconsult. Pelo que consta, Brizola e Roberto Marinho continuaram irremediavelmente inimigos.

Mas também é certo que as necessidades da política podem fazer milagres... O próprio Brizola, na eleição de 1989, teve que "engolir" Lula, o “sapo barbudo”, e apoiá-lo na disputa contra Fernando Collor. Um momento, aliás, em que, mais uma vez, as Organizações Globo interferiram na eleição, favorecendo Collor na edição do debate entre os candidatos. O tempo passa e Collor, depois de deposto por um impeachment (que a própria Globo apoiou), retorna à vida política, elegendo-se senador por Alagoas, e se une à base que apoia Lula, presidente desde 2002.
FHC, Lula, Collor e Sarney - André Dusek, Brasília, 2008
Em certo momento, na posse do presidente do Supremo Tribunal Federal, em 2008, o cordial encontro entre os presidentes Fernando Henrique Cardoso, Collor de Mello, Luiz Inácio Lula da Silva e José Sarney.

A política pode transcender partidos e governos e  produzirem encontros ainda mais memoráveis...
Altamente interessante é série de encontros entre o cantor popstar Sting e o lider indígena Raoni, que se estendeu da Amazônia até os principais centros urbanos do mundo, um encontro entre uma cultura intrinsecamente brasileira em ascenção e o amplo movimento de internacionalização das lutas ambientais.
Raoni no palco com Sting - Roberto Larroude, S. Paulo, 2009
Talvez, pelo que representam de preocupação com o bem comum a todos, um encontro do mais alto nível político, do maior valor simbólico.

Demonstração de uma enorme mudança de mentalidade, se o compararmos, por exemplo, a outro encontro histórico, já citado aqui, a viagem de Rondon e Roosevelt, em 1910, pelos sertões do Brasil, à procura do rio da Dúvida.
Sem dúvida, até mesmo os encontros mudam com o tempo...


Dedicado ao generoso amigo 
Marcos Vinício Ildefonso da Cunha, 
fotógrafo e livreiro, que há longo tempo sugere o tema...

sábado, 30 de julho de 2011

As cidades e seus fotógrafos históricos

A cidade, campo de batalha entre a estruturação geométrica de suas construções e a insinuância irrequieta de habitantes e transeuntes, é matéria prima inescapável para os fotógrafos...
Mas, nem todos fazem dela o seu motivo central, conseguem fotografá-las de forma disciplinada, dedicam-lhe toda uma obra... Na prática, apenas alguns poucos tornaram-se fotógrafos históricos das cidades em que nasceram, viveram ou investiram, por um tempo, o seu talento. Se o fizeram, não terá sido só por paixão pessoal ou exigência da profissão, mas, talvez mais certamente, por uma criativa harmonia entre estes tão poderosos impulsos.

Entre as muitas exposições do FotoRio 2011, algumas recuperam as fotos históricas (e as próprias histórias) de fotógrafos que, identificados com as suas (ou mesmo outras) cidades, transformaram-se em guardiões (e também mensageiros) das imagens de seu passado.

Um exemplo clássico, é a obra do fotógrafo “ítalo-gaúcho” Virgilio Calegari, apresentado na exposição “Um Cavaliere entre dois mundos”, um destaque no FotoRio. Chegando ao Brasil com 13 anos de idade, ainda no século XIX, Calegari fotografou Porto Alegre de tal forma que “ajudou a criar e popularizar a imagem da pequena capital que se pretendia grande”, no dizer da curadora da exposição, Sinara Sandri. Em 1910, no auge da carreira, com vários prêmios internacionaisl, recebeu de seu país a comenda de Cavaliere, pela contribuição à cultura italiana e pelo seu sucesso no exterior. 
Pça XV, esq Mar.Floriano, Porto Alegre -Virgilio Calegari, 1910
Estes fotógrafos, que produzem a memória visual das cidades, são típicos das grandes metrópoles, cujo crescimento e modificações acompanham por décadas. Mas, ainda no FotoRio, temos um belo exemplo em um âmbito regional, a exposição “O Sal da Terra” (prorrogada até 14/08/11), com fotos de Wolney Teixeira, que documentou a Região dos Lagos, RJ, entre os anos 30 e 70 do século XX.

Largo de Santo Antonio, canal de Itajuru e rua da Praia - Cabo Frio - Wolney Teixeira, 1948
Além das salinas, praias, restingas, as pescarias, as festas e os políticos, suas fotos mostram “a vila colonial que permaneceu intocada até os anos 50, quando a cidade passa a adquirir feições de balneário turístico”, como destaca Mauro Trindade, que editou, para a exposição e futuro livro, os mais de 10.000 negativos guardados pelo filho do fotógrafo.
Centro de São Paulo - Cristiano Mascaro, c. 1985



Outras visões das cidades dependem de um olhar especial. No correr do século XX, vários fotógrafos fizeram leituras particulares de certas cidades utilizando técnicas específicas, conseguindo dar às fotos um tom autoral, que se descola do registro “realista” do período inicial da fotografia.

Um exemplo é o tratamento altamente formal, aparentemente distanciado, do fotógrafo, professor e arquiteto Cristiano Mascaro em suas fotos de São Paulo: com um denso preto e branco e em formato quadrado, como se retratasse a personalidade da cidade. Um trabalho que se tornou, através de livros e exposiçoes, pelo apuro das imagens, um marco visual da cidade de São Paulo: “ele é um mestre no que se refere à percepção da arquitetura como protagonista”, declara o crítico Agnaldo Farias.

Elev. Lacerda e Merc. Modelo, Salvador - Cesar Duarte, 2008
Cesar Duarte, mais jovem e menos conhecido fotógrafo carioca, além de registros para a Prefeitura do Rio, também fez, como expressão pessoal, uma escolha técnica: usando o mote “cidade iluminada” para seus livros , fotografou Rio de Janeiro e Salvador em um horário especial, a chamada “twilight zone”, a passagem do dia para a noite, o momento em que a luz natural do fim da tarde se equilibra com a luz artificial dos interiores e da iluminação pública, o que possibilita criar fotos surpreendentes de locais conhecidos.



Um dos nossos grandes fotógrafos-historiadores, Augusto Malta, também trabalhou, no início do século XX, para a Prefeitura carioca (que conserva seu acervo), fazendo desta posição profissional a base de sua obra. Em mais de 30 anos, Malta registrou do cotidiano aos mais dramáticos acontecimentos da cidade: a construção da Av. Rio Branco, a destruição do Morro do Castelo, a vida nas cabeças-de-porco, o surgimento das favelas, as revoltas, os carnavais, tudo...

Av. Rio Branco, Rio de Janeiro - Augusto Malta, 1923


Outras grandes cidades brasileiras têm seus fotógrafos-historiadores e, no correr do século XIX, um dos mais importantes foi Militão Augusto de Azevedo, um ator carioca que, ao se mudar para São Paulo,  torna-se fotógrafo de retratos. Anos mais tarde, faz uma grande obra como paisagista, deixando como principal legado, o "Álbum Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo (1862-1867)", publicado em 1887.

Igreja N. S. dos Remédios e Pátio da Cadeia, S. Paulo - Militão, 1862
Certamente, o maior deles (entre muitos!..) foi Marc Ferrez, que tem a sua extensa obra bem preservada. Xará de seu tio, um escultor que veio para o Brasil com a Missão Francesa em 1815, nasceu no Brasil e foi criado na França, mas trabalhou como fotógrafo no Brasil por mais de meio século (de 1865 a 1918), dedicando-se especialmente aos temas e paisagens de sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

Cais dos Mineiros, Candelária e centro do Rio, fotografados da ilha das Cobras - Marc Ferrez, 1885



No correr do século XIX, diga-se de passagem, o Rio de Janeiro foi das cidades mais  fotografadas em todo mundo. Afinal, até mesmo Pedro II, o Imperador, era fotógrafo...

Toda cidade tem a fotografia em sua história e eis aí uma bela tarefa, fazer este levantamento, Brasil a fora: quem são os "fotógrafos históricos" de sua cidade?...
Cartas para a redação deste blog.



Neste 1º de Agosto, o blog A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil 
completa um ano de circulação, passando de 3000 acessos mensais.











O autor agradece a todos, e em especial aos que colaboram com comentários.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A foto de imprensa e as questões do momento

Várias questões, já recorrentes, sobre fotografia jornalística apareceram nos últimos dias em diálogos na Internet ou conversas pessoais. Complicadas como são, não permitem certezas, mas pedem, ao menos, reflexão:
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1. A vulgarização da imagem
         Ronaldo Theobald, importante fotojornalista da segunda metade do século XX, em e-mail pessoal, diz-se entristecido com o fato de que “todo mundo está capturando” a sua (o adjetivo é meu) famosa fotografia e suas fotos são quase como filhas, merecem respeito –  que ele intitula "Deus de calção e chuteiras" (leia seu depoimento em A História bem na Foto) e mostra o ex-jogador (e hoje presidente) do Vasco da Gama, Roberto “Dinamite”, assediado pela torcida ao entrar no campo da Portuguesa, no Rio de Janeiro, foto ganhadora do Prêmio Esso de Fotojornalismo de 1977.
Roberto Dinamite - Ronaldo Theobald, 1977

         Está aí uma questão típica da Internet e suas facilidades... O que nos leva à consideração (mas isto não o satisfaz...) de que a imagem não mais lhe pertence (embora a autoria continue eternamente sua), que ela tornou-se produto (e retrato) da cultura brasileira, daquilo que somos como povo. E, mais: que a constante cópia da foto lhe traz o reconhecimento geral da qualidade do seu trabalho, e ainda o apresenta às novas gerações, que não podem mais ver suas fotos todos dias nas páginas dos jornais. 
         A questão dos direitos autorais se complica com os possíveis usos comerciais da imagem, e o próprio Theobald cita a Lei  nº  9.610 de 19/02/1998, que lhe garantiria direitos patrimoniais e morais. Certo, mas sabe-se que, além da lei, há as interpretações...  O padrão predominante no “mercado” é o reconhecimento de direitos patrimoniais para a empresa produtora (no caso, o Jornal do Brasil) ou compradora, e de direitos autorais para o fotógrafo. O que também leva a outra questão: como controlar estes ganhos?... E ainda há que considerar o direito de imagem, sempre problemático... Nesta foto, por exemplo, é centralizado no jogador, mas inclui qualquer uma das pessoas enquadradas.    
         Uma discussão que é muito ampla, a ser (re)feita urgentemente, e que não tem cabimento aqui.... A arte da vida  consiste em fazer da vida uma obra de arte”, nas “palavras sábias de Mahatma Gandhi”, lembra o próprio Ronaldo Theobald, e talvez seja este o caminho... Mas esta lembrança também sugere (se é consenso o direito de citar uma frase ou trecho de texto) que o ato de copiar a foto conhecida e republicá-la na Internet (com crédito, é claro!, e sem retorno comercial), não é mais do que fazer uma citação da obra do fotógrafo...
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2. A correção da História
Não matem meu cachorro - Sergio Jorge, 1961
         De repente, uma situação inusitada: o veterano fotógrafo Sergio Jorge, Prêmio Esso de Fotojornalismo de 1961, reivindica, por e-mail, a autoria da foto alusiva aos mil gols de Pelé, que havia sido publicada neste blog com destaque, justamente, para a correção do crédito! 
O jornal O Globo publicara a foto, em caderno especial sobre os 70 anos de Pelé, com um sucinto crédito à agência Keystone e, dois dias depois se retratou, atribuindo-a à revista Manchete: “a foto foi feita pelo fotógrafo Mituo Shiguihara, na Vila Belmiro, por iniciativa do diretor de redação da época, Zevi Ghivelder” (leia no blog Panis cum Ovum, de ex-jornalistas da Manchete, a retificação). 
Pois, “está tudo errado!”, diz Sergio Jorge: “a ‘bolação’ da foto foi feita por mim, fotógrafo Sergio Jorge, e o repórter Durval Ferreira”, da sucursal de São Paulo, e “ninguém da redação do Rio, como diz em seu texto, Zevi e outros, participaram dessa história, e também o ex-colega, já falecido, Mituo Shiguihara, que nada tem a ver com a foto”. Ele detalha que levaram “uma Kombi/works cheia com as bolas, eram 347”, registrando com “variadas fotos feitas com minha Hasselblad e objetiva 250mm do alto da marquise”. Porém, quando os jogadores entraram em campo para o treino, inclusive Pelé, “desmancharam o arranjo e todos chutaram as 347 bolas para o público que estavam nas arquibancadas”. O jeito foi fazer “um arranjo com a fábrica de bolas Drible, pagando o valor das bolas em permuta com uma página de Manchete [espaço publicitário] e “aí sim o Zevy e o [Arnaldo] Niskier participaram no acerto da permuta”.
Pelé 1000 gols - Sergio Jorge, 1969
Sergio Jorge, que comercializa sua produção pela agência Fotodisk, diz que “todo bom material fotográfico produzido pelos fotógrafos era vendido ou trocado com agências fotográficas mundiais, e os fotógrafos ficavam a ver navios, pelos seus direitos autorais” e ele “sempre questionava o Jakito [Pedro Jacques Kapeller, diretor e sobrinho de Adolpho Bloch]. Agora, pretende também “questionar com relação à agência Keystone”: “vou brigar por meus direitos!”.
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         As questões em torno destes direitos (o autoral, o patrimonial e os de imagem) são mesmo um emaranhado... Mas esta correção é um bom mote para lembrar o "sumiço" do arquivo fotográfico da própria Editora Bloch, vendido por uma ninharia, em leilão judicial, a um “grupo familiar” de Teresópolis-RJ, em maio de 2010, a qual, desde então, não se tem mais acesso
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3. As novas formas de fotojornalismo    
         E chega a divulgação do fotógrafo Ayrton Camargo (recentemente citado neste blog, pela sua foto aérea em 360º do Rio), que fala de uma fotografia realmente impressionante. Publicada por um órgão de imprensa, é “a primeira, única e maior gigafoto feita em uma favela no Brasil (com certeza), e pelo que conferi com profissionais gringos, do Mundo também :-)”...  Diga-se de passagem, a maior foto do mundo (até Outubro de 2010) também foi feita no Rio de Janeiro, por pesquisadores do Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), que utilizaram um robô para bater as fotos, depois montadas por um software de sincronização (esta é apenas uma reprodução fixa, a foto original permite observar os mínimos detalhes).
Rio de Janeiro visto do Pão de Açúcar (foto fixa de gigafoto) - Luiz Velho e equipe do Impa, 2010
         A foto de Ayrton é algo mais artesanal e ele explica como foi feita: “a imagem tem 138.286 x 36.532 pixels ou seja = + de 5 gigapixels reais. Esta gigafoto foi composta com 685 clicks e cobre 190 graus de visão”. Junto com ele, mais dois fotógrafos (Stefano Aguiar e Andréa Simões) fotografaram “sem parar, de 13:36h até as 15:22h, gerando 84 gb de arquivos, debaixo de um sol estúpido, isso depois de nos perdermos dentro das vielas do Morro do Alemão (já pacificado)”.
Este blog nem tem condições técnicas de apresentar o resultado, o que se vê aqui é apenas uma captura, fixa, da imagem. Para ver com todos os recursos é preciso acessar, no site do jornal O Dia, pelo link da foto. Fundamental é observar os detalhes e a sugestão é escolher o ponto que quer ver, girar a rodinha do mouse para ampliar e aguardar até que surja o foco. A foto abrange um arco que vai do Piscinão de Ramos e da ponte de acesso à Ilha do Governador até o estádio do Engenhão e além, Inhaúma e Engenho da Rainha. E vale a pena prestar atenção na paisagem do fundo: a baía da Guanabara, a ponte Rio-Niteroi, o Centro, as montanhas... Em suma, um show de Rio de Janeiro!
Rio de Janeiro visto do Morro do Alemão (foto fixa de gigafoto) - Ayrton Camargo, 2011
 
         Mas, a foto, nestes termos, levanta ao menos duas questões...
A primeira, a da autoria: quando são necessários três fotógrafos para fazer uma fotografia, estamos diante de um novo “status” autoral?... É algo diferente de um fotógrafo de estúdio e seus assistentes?... Certamente, lembra as histórias dos pintores clássicos e seus colaboradores/copiadores...
A segunda, é relativa ao veículo: uma foto como esta, publicada por um jornal na Internet, impossível de ser publicada em papel e que não é mais uma imagem estática, cabe ainda no conceito de fotojornalismo?... Ou é o fotojornalismo que não cabe mais no papel?...
Entre questões antigas, que aguardam mudanças, e questões novas, que mudam rápido demais, onde fica (ou para onde vai) o fotojornalismo? E, aliás, a própria fotografia?...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O desenrolar da paisagem

A paisagem está em todo lugar, ela é necessariamente onipresente...
E também está, desde o início, na fotografia!... A primeira de todas as fotografias é a paisagem que o autor, Nièpce, via da janela de seu laboratório. Afinal, era mesmo necessário um modelo relativamente fixo: precisou de oito horas de exposição para registrar a foto!
Cais da Praia do Peixe - Louis Compte - Rio de Janeiro, 1840

Não por acaso, as mais antigas fotografias brasileiras também registram paisagens... São daguerreótipos (imagens únicas, em placa de metal), feitos pelo abade Compte, divulgador da técnica em viagem do navio-escola franco-belga L’Orientale, em Salvador, Bahia, dezembro de 1839 (desaparecidas), e no Rio de Janeiro, janeiro de 1840. Além do Paço Imperial e do Chafariz de Mestre Valentim, temos a paisagem do cais da extinta Praia do Peixe, com o prédio da Alfândega (atual Casa França-Brasil) e o mosteiro de São Bento.



São muitos os paisagistas do Império, é uma lista longa, a maioria estrangeiros, e há uma profusão de livros a respeito. O maior deles, sem dúvida, é o brasileiro Marc Ferrez, filho do franceses, cuja especialidade sempre foi a fotografia de paisagem, a ponto de (aproveitando os longos tempos de exposição das fotos e se posicionando várias vezes) se colocar dentro dela!  

Autorretrato com panorama do Rio de Janeiro - Marc Ferrez, 1885
Já no século XX, dos anos 30 aos 50, outra grande leva de fotógrafos estrangeiros, em parte escapulindo das guerras europeias, mas também atraídos pelas paisagens brasileiras, trouxe contribuições importantes, não só à fotografia como a toda nossa imprensa, dando novos padrões visuais às revistas ilustradas. 
Bagé, RS - Fulvio Roiter, 1957
Um bom exemplo pode ser visto na exposição de fotos de Fulvio Roiter, um dos maiores fotógrafos italianos vivos, que, em 1957, viajou todo o Brasil fotografando para a revista Manchete. Uma verdadeira síntese do país, que, com curadoria de Cristianne Rodrigues e Milton Guran, do FotoRio 2011, pode ser vista até 17 de julho no Centro Cultural dos Correios.

De meados do século XX para cá, o suporte da imagem torna-se cada vez mais sensível e as câmeras podiam ficar cada vez menores (e mais leves), ia dando a impressão, chegando nos anos 90, de que a fotografia de paisagem estava resolvida, seria questão apenas de escolha do ângulo e do momento. Mas, eis que chega a revolução digital... 

A fotografia – a princípio, um objeto bidimensional (com altura e largura, que apenas simula profundidade) – já tivera uma “expansão” no início do século XX, pela inserção do tempo (o hábil truque da sucessão de quadros ligeiramente diferentes), resultando no cinema. Com a informática, vem uma nova ampliação dos seus limites, agora no espaço: através de softwares que as encaixam, são criadas as chamadas fotografias “esféricas” ou “imersivas”, aquelas em que a imagem pode ser vista em virtuais 360º.
Rio em 360º - Ayrton, 2006
Cabe até a pergunta: isto ainda é fotografia ou já estamos em outro suporte?...

Como exemplo [imagem fixada, clique no título para ver], o Rio de Janeiro em 360º, uma foto (ou o quê?...) do fotógrafo Ayrton, um dos mais produtivos nesta linha de trabalho. E a esta altura não estamos falando apenas de paisagens: já são feitos assim, por exemplo, casamentos e reportagens... 
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3D na cidade - Mario Amaya, 2010



E os novos recursos não param por aí... Fotógrafos comerciais já oferecem fotos em 3D, embora a gente não saiba ainda muito bem aonde conseguir os tais óculos especiais com lentes bicolores...

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E, de repente, inventam a foto “animada”, batizada de “cinemagraph”, um bom aproveitamento de um recurso comum na internet, os “gifs”... 
Sinal.- Daniel Farjoun, 2010

[Se o sinal não mudar de cor, veja aqui


Ainda é fotografia?...
Pode ser, mas, reconheçamos, há, enquanto ainda usamos a base em papel, ao menos uma limitação: quando a foto é impressa, o movimento some...


De qualquer modo, a fotografia tem muita história pela frente.
Ou será que aquela coisa que conhecemos como “fotografia” já está na hora de entrar para a História?...





Grato ao fotojornalista Masao Goto Filho
pelas informações de ordem técnica.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Corpos críticos: a fotografia do morto

            O feriado de Corpus Christi (um dos vários eventos religiosos que são contraditoriamente oficializados como tal em um país formalmente laico), além de se encaixar bem em um período de poucas folgas, sugere reflexões um tanto fúnebres...
É momento em que, através de uma das suas pretensas manifestações divinas, como em outras religiões, o corpo humano, hoje desbragadamente presente em enxurradas de imagens contemporâneas, é realçado de maneira simbólica, dado como transubstanciado através de símbolos religiosos católicos, a hóstia e o vinho.
            Esta invenção medieval, tornada obrigação canônica no âmbito da igreja católica, produz, no Brasil, o visual mais popular do feriadão, em jornais e noticiários de TV, a dos tapetes artesanais, de variadas substâncias, passarelas para as procissões. E lembra também a verdadeira procissão de fotografias de defuntos da Fotografia brasileira.
            Se na religião a hóstia e o vinho são meios de sublimação do corpo, a fotografia, na História, é capaz de torná-lo (visualmente) concreto, manter viva a sua presença para quem se distancia no espaço ou no tempo. A lamentar, aqui, o possível impacto das imagens...
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Criança morta - Militão Augusto de Azevedo - São Paulo, 1877
Logo de início, no século XIX, surge um hoje impressionante costume, a foto daquele que morreu antes de ser fotografado... Com poses “naturais” (isolado ou em companhia de parentes), estas fotografias são uma pungente “solução” para a perda e futuro esquecimento do ente querido, e mais doem quando retratam crianças (saiba mais no artigo de Luiz Lima Vailati).          
 
Pedro II morto - Félix Nadar - Paris, 1891
Pedro II - Nadar - Paris, 1891 (foto original)
            As questões do poder, e não só da memória familiar, também podem exigir, com o devido cuidado, que seja feita a foto do morto. Um bom exemplo é a do corpo de D. Pedro II em seu leito de morte, vestido com o uniforme de Marechal do Exército. O detalhe é o livro sob a cabeça, que, de simples recurso do fotógrafo Nadar para elevar o tronco do Imperador defunto (cf. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, de Lilia Moritz Schwarcz, pg. 489), passa a ter um alto simbolismo, o de que “sua mente repousa sobre o conhecimento mesmo na morte” (conforme legenda da foto na Wikipédia).

Pode ser que justamente os inimigos, e não os admiradores, precisem da foto do morto... Perseguido tanto pelo governo republicano quanto pela igreja católica, Antonio Conselheiro, que era o guia místico de milhares de seguidores no arraial de Canudos, Bahia, na última década do século XIX, só tem uma foto conhecida, de 1897: foi desenterrado duas semanas depois de sua morte, após uma guerra que durou dois anos, para ser identificado e só então foi fotografado... 
Antonio Conselheiro - Flávio Barros - Canudos-BA, 1897

Wladimir Herzog morto na cela, 1975
            O fato é que a fotografia impactante do cadáver sempre que pode ser útil é apresentada à sociedade, muitas vezes como suposta “prova” de discutíveis certezas...  A ditadura civil-militar do golpe de 1964 foi useira e vezeira nesta prática, caso os corpos não desaparecessem “acidentalmente”... Entre estas fotografias estão a do corpo baleado de Marighella dentro de um fusca, em São Paulo, em 1969, e a de Lamarca e Zequinha, guerrilheiros mortos no interior da Bahia, em 1971. Mas talvez a foto mais significativa a série, quanto aos efeitos posteriores, seja aquela em que Vladimir Herzog aparece enforcado com a própria gravata em uma cela do DOI-CODI paulista, em 1975. Um suicídio tão evidentemente falso, que foi imediatamente desconsiderado pela comunidade judaica, que não lhe negou sepultura, e logo depois pela Justiça, que condenou o regime militar por seu assassinato ainda durante a vigência do AI-5. 

No geral, a imagem explícita do morto, no correr do século XX, passou a frequentar quase que exclusivamente as páginas policiais (com raras exceções, como rostos de celebridades, com expressão suave, envoltas em flores, em seus caixões). Só os jornais do tipo “espreme que sai sangue” continuaram fazendo questão de mostrar a violência nua e crua dos conflitos sociais. 
Vila do João, Rio de Janeiro - Evandro Teixeira, 1998
Conseguir uma imagem sensível de uma chocante cena de morte é um dos grandes desafios para os fotojornalistas, e nisto os brasileiros, sem dúvida, são dos melhores. Certamente, não é uma questão meramente profissional: o povo brasileiro parece afirmar (como diz a música De frente pro crime, de João Bosco, e demostra a foto de Evandro Teixeira) que a morte (que faz parte...) não consegue impedir (por mais incrível que pareça...) a alegria de viver.

Agradeço à fotógrafa e historiadora Vera Sayão 
pelas sugestões em torno do tema.