sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Perfis e Autorretratos

Entre as boas preliminares de um trabalho como este (refletir sobre fotos históricas) está o exercício, no bom sentido, da inversão de sentido.
Por exemplo, centralizar a atenção em formas e estilos fotográficos menos usuais e deixar que isto oriente a pesquisa das fotos, mas sempre mantendo, nas escolhas, a ênfase no reconhecimento social (ou seja, no valor histórico) da fotografia...
É assim que se chega a este rápido passeio por perfis e autorretratos, categorias tão contraditórias que, aparentemente, só parecem ser parecidas nas atuais redes sociais digitais...

Magalhães Pinto - Orlando Brito, Brasília, s/d
Obter do perfil fotográfico (ou, para generalizar, do contorno ou silhueta) uma marca perfeitamente reconhecível é, dentre as possíveis artes da fotografia, mais uma arte... Muito especialmente, na área do fotojornalismo, em que, por limitações técnicas ou de tempo, predomina o improviso, outra arte intrínseca à fotografia...
Há, na silhueta, assinaturas. São tanto a do fotógrafo quanto a de uma excentricidade qualquer da figura do fotografado. Perceba-se ainda a necessidade de negociação (ou observação) em termos de ângulos e enquadres, de um lado, e de posturas e intenções, de outro. Acima de tudo (e entre eles), o definitivo recurso da fotografia: a luz.

Para demonstrar, busquei uma foto que tinha na cabeça, aquela em que Orlando Brito registrou, no contraluz, apenas um fio de luz envolvendo justamente a cabeça de Magalhães Pinto, banqueiro e político mineiro, um dos líderes civis do movimento que resultaria no golpe de 1964 (leia aqui).

Certamente uma escolha feliz, a do fotógrafo!... O reconhecimento por parte do leitor (ao menos, o da época...) é garantido: o formato e a "lisura" da cabeça garantem o resultado, a “assinatura’ do fotografado está explícita.
Magalhães Pinto e Vavá - Rogério Reis, Rio, c.1979

Tanto que, no caso, o contraluz, elemento fundamental na foto de Orlando Brito, é dispensável!... 
Fato que fica evidente na fotografia de Rogério Reis, do final dos anos 70, quando Magalhães Pinto, com seu poder político em queda (em paralelo ao esperado fim da ditadura), foi “recepcionado”, na praia de Botafogo, no Rio, por um típico “popular” brasileiro, o Vavá (como conta o autor).
A foto pelas costas, que seria desvalorizada em uma reportagem comum, torna-se exaltação da identidade do conhecido político, um elemento que o próprio gesto do popular ressalta... 
Ulisses Guimarães - Orlando Brito, Brasília, 1992

Eis que, à procura da primeira foto, a de Orlando Brito, ao navegar por Com a palavra, a Fotografia, excelente blog em que conta histórias de muitas das suas, uma outra imagem, do mesmo tipo, se destacou: o perfil de Ulisses Guimarães. 
É o próprio fotógrafo quem dá a esta foto peso histórico (por acaso, feita no dia de aniversário de Ulysses, 6 de outubro de 1992), associando-a a uma possível premonição: “Confesso que o resultado da imagem me impressionou. Era forte, não tinha a ver com a serenidade daquele momento. Seis dias depois, a trágica notícia do desaparecimento de Ulysses” (leia mais aqui).

E falando de improviso, cabe registrar a habilidade do fotógrafo... O contorno de Magalhães Pinto aproveita a luz de filmagem da TV, em uma entrevista; o perfil de Ulisses, a longínqua luz do por do sol, no saguão de um prédio em Brasília.

O caso dos autorretratos é bem diferente...
Um fotógrafo, ao se retratar, não dá à foto maior importância, seja qual for a pretensão... Salvo outras injunções, das não fotográficas, não haverá motivos para considerá-la histórica.
A menos que o fotógrafo tenha certa importância social. Que seja, por exemplo, um imperador: algumas das fotos em poses formais de D. Pedro II, efetivo fotógrafo, são autorretratos.
Ou, então, quando o autorretrato é tão surpreendente para a época (e, pensando bem, até hoje) que se tornou um marco na fotografia brasileira, especialmente por não ser apenas um autorretrato, mas vários em um...
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Os trinta Valérios - Valério Vieira, São Paulo, 1901


Trata-se da fotomontagem “Os trinta Valérios”, a imagem de um incrível sarau em que o autor, Valério Vieira, se reproduz em todas as presenças, até as da parede e sobre o piano... Formado na Escola de Belas Artes do Rio, Valério tornou-se fotógrafo em São Paulo em 1880, onde inovou com retratos de formatura e grandes panorâmicas da cidade.
Este múltiplo autorretrato, produzido em 1901 (muito antes do Photoshop...) e premiado na Feira Internacional de Saint Louis, EUA, de 1904, foi montado com o uso de dezenas de negativos, ampliados cuidadosamente, na escuridão do laboratório fotográfico, em posições e proporções precisas.

Em todos os casos, os fotógrafos se valem da oportunidade e da criatividade, matérias primas da fotografia.