terça-feira, 11 de janeiro de 2011

“Bonecos” da História: o retrato das negociações

O fotojornalismo também tem seus bonecos, mas não é brincadeira não...
”Fazer um boneco”, no jargão fotojornalístico, é tarefa relativamente pouco valorizada pelos repórteres-fotográficos empregados na imprensa, funcionários de um jornal diário. Disputando espaço nas páginas, não é de estranhar que desenvolvam alguma resistência à tarefa, para eles prosaica, de tirar retratos, de “fazer bonecos”...
Para fotógrafos de revistas, o retrato é tarefa mais habitual e mais valorizada. A principal fotografia de uma edição pode ser um retrato, muito frequentemente a própria capa, e poderá ter vida longa, em muitas reproduções.
Para o fotógrafo, como parte das negociações para um bom retrato, surge a questão do aproveitamento das condições reinantes ou a invenção das próprias...
Pixinguinha - Walter Firmo, 1968

 Um ótimo exemplo da observação do ambiente e da sua apropriação no retrato é a foto do músico e compositor Pixinguinha em sua casa de Ramos, feita por Walter Firmo, em 1968, para a revista Manchete.
O próprio Firmo, em tintas românticas, no depoimento Um santo enternecido, publicado no blog A História bem na Foto, conta porque escolheu o local da foto:
Era início de setembro e a propalada primavera já se anunciava, com seus dias de sol agradável pregado no azul de um céu sem nuvens. Havia, plantadas aos pés da mangueira, dálias e rosas, salpicando dessa forma, um lirismo impressionista, cujos matizes frios e quentes, pincelavam certa quietude anunciando que a felicidade estava ali e, que Pixinguinha se emolduraria muito bem plantado naquele recanto de ordem e paz.


Nem sempre é assim tão lírico... Às vezes, o fotógrafo, por qualquer razão, precisa criar, para a foto, um ambiente diferente do que o fotografado habitualmente frequenta, no que, aliás, pode correr sérios riscos...
Rogério Reis fala da foto (leia depoimento), modelo da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade (do escultor Leo Santana), atração no calçadão do Posto 6 de Copacabana, e não deixa dúvida: “foi uma foto construída”.
Drummond em Copa - Rogério Reis, 1983
Vizinho dele, Rogério sabia que Drummond não costumava caminhar na direção de Copacabana, e sim do Leblon, mas precisava de uma foto especial para Veja. Se Drummond aceitou, devia fazer algum sentido: afinal, com esta mudança de rumo, os dois criaram uma nova “realidade”...
Luelane Corrêa, no documentário A Cidade e o Poeta, fixou a câmara diante da estátua, entrevistou usuários do calçadão e registrou “testemunhas” que garantiam que ele sempre sentava ali, onde até escrevia poemas....



Pelo menos, foi uma decisão consensual, como manda o bom figurino do retrato fotojornalístico... Seja como for, a história dos retratos mostra que alguma negociação é sempre necessária. E, às vezes, é justamente o excesso de negociações que dá valor histórico à foto. 
É o caso da foto do deputado posando de cuecas...
Barreto Pinto posa para a posteridade - Jean Manzon, 1946
Em 1946, Barreto Pinto, um novo rico recém eleito deputado (pouco mais de 200 votos, assumiu o mandato por ser um dos suplentes de Getúlio Vargas), teria acertado com o repórter David Nasser e o fotojornalista Jean Manzon, da revista “O Cruzeiro”, uma reportagem sobre sua importante presença na alta sociedade carioca. Na sessão de fotos, na casa da nova esposa, um palacete em Botafogo, os jornalistas teriam sugerido que, devido ao calor, dispensasse as calças, que as fotos só o mostrariam da cintura para cima, e ele, ingenuamente, teria concordado.
Revista O Cruzeiro, 1946

A publicação da matéria "Barreto Pinto sem Máscara" (replicada até pela revista Time nos EUA), em que o deputado aparece nestes trajes em várias fotos (posando e nos preparativos), provocou grande celeuma, incluindo a questão do suposto acordo entre os repórteres e o fotografado. Correu, no entanto, a versão de que ele teria pago a reportagem, já incluindo a combinação de processar posteriormente os jornalistas, já que todos ganhariam notoriedade com isso...
A conseqüência maior do imbróglio foi a cassação do deputado por "falta de decoro", a primeira do Congresso brasileiro. Quanto à publicação da matéria, não houve maiores conseqüências jurídicas ou legais.
       
    Em suma, as negociações do retrato, em seus limites, vão da situação em que o fotografado não tem a menor chance de participar até o caso do fotografado comandar de tal modo as ações que a foto sai exatamente como quer. Mas já é assunto para outra postagem...

8 comentários:

valeria disse...

Boneco bom de ler este. E com infs super interessantes: dos bastidores dos retratos de Pixinguinha e Drumond à história 9e com fotos, ótimas)do deputado de cuecas - cassado por falta de decoro. Boas histórias... conta mais, Aguinaldo.

valéria

Clarissa Monteagudo disse...

Nossa, que máximo o blog. A foto de "São Pixinguinha" chega a ser calmante.
Clarissa Monteagudo (via Facebook)

Gisela Alvares disse...

Que fantástico.... e eu morava perto dele [Drummond].... minha colega do Andrews era vizinha dele (mesmo prédio). Lembro como era incrível pegar o mesmo elevador ou cruzar com ele na portaria e na rua. Expressão sempre séria e andar suave.
Gisela Alvares (via Facebook)

José Fernando disse...

HOJE A FOTO DO DEPUTADO NÃO MERECERIA A MENOR ATENÇÃO DO CONGRESSO.
A LUTA ATUALMENTE É EM PROL DO NUDISMO (aí sim, ele teria um pequeno problema...).
O MUNDO GIRA... e a Lusitana roda, como diria o observador atento

Fábio Lau disse...

O Blog do Guina tem que virar livro. É sensacional. As fotos históricas e as histórias por detrás das fotos.
(via Facebook)

Ed Sartori disse...

Que MARAVILHA, não sabia da existência desta foto do Rogério Reis, que serviu de inspiração ao artista plástico mineiro Leo Santana. O click, foi ali bem pertinho da colônia dos pescadores, onde colocaram a estátua do Caymmi, também inspirada em foto só que desta vez do Evandro Teixeira.
(via Facebook)

Rogério Reis disse...

Aguinaldo, bonecos da história é ótimo. Parabéns !! Destaque para o deputado de cuecas. Abs, rogério.

Ramosforest.Environment disse...

As suas fotos históricas são o registro da insensatez humana, sem dúvida ou da grandeza de alguns homens (e mulheres).
Muito bom esse seu modo de ver e comentar a Fotografia.
Sobre as enchentes, eu gostaria que essas fotos de 2011 fossem as últimas sobre o tema. Mas, certamente, no próximo ano, outras fotografias se juntarão e documentarão essa falta de responsabilidade do poder público com o meio ambiente e com o cidadão.
Considero o reporter fotográfico um herói, um artista e uma testemunha fidedigna da História.
Abraços
Luiz Ramos