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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Modernidade total: o fotógrafo sumiu!

Nada melhor do que uma luz (ainda mais se tratando de fotografia), um flash!...
Este veio em pleno seminário Revistas ilustradas: modos de ler e de ver o Rio de Janeiro na Primeira República, na Casa de Rui Barbosa, nos dias 16 e 17 de Nov/2010, quando uma típica teoria de comentarista de palestra virou, no caso, uma luminosa percepção...

O desenho, de época, do cartaz do Seminário inclui uma máquina fotográfica...
Imaginem a cena: início do século XX, o Brasil se torna uma República turbulenta e militarista, ainda controlada por forças regionais, que, aos poucos, se “civiliza”, um país cada vez mais “moderno”... 
Os novos governantes querem espantar do país os ares monárquicos, aliviar a capital de seu passado colonial, inscrito ainda na malha urbana. Com prefeitos eficientes, aterros e avenidas, o Rio de Janeiro aspira copiar a recem urbanizada Paris: a elite carioca poderá flanar em alto estilo...
Ora, é tempo da câmera Kodak, com o lema “você aberta o botão e nós fazemos o resto“, as pessoas fotografavam (“kodakeavam”) à exaustão! Nas ruas, a fotografia é uma febre e as revistas ilustradas também estão entupidas delas. 
O tema mais comum, como sempre, é gente, agora organizada e classificada em fotos posadas, nos mais variados grupos. Também a arquitetura eclética das fachadas da Av. Central ou da Exposição de 1922 e até as conseqüências da remoção de moradores e do inchamento da cidade: favelas também são fotografadas...

Afinal, se há tantas fotografias circulando, de onde foi que o fotógrafo sumiu?... 
Ah, sim... O fotógrafo sumiu dos créditos!...
É verdade: não há praticamente qualquer referência aos autores de milhares de fotografias publicadas pela imprensa carioca no período. Já outros produtores de imagem (desenhistas, caricaturistas, ilustradores) e de texto (escritores, cronistas, articulistas) têm seus nomes continuamente citados...
Edição de fotos por J. Carlos em O Malho - A.Ramos, 2010


Julieta Sobral (PUC-Rio), designer, ao passar J. Carlos em revista, mostrou uma face menos conhecida do espetacular desenhista, o seu papel de editor de arte no grupo editorial da revista O Malho, responsável pela publicação de uma profusão de fotografias, praticamente todas sem o crédito do fotógrafo...


É realmente um longo hiato... No Império, a fotografia no Brasil teve reconhecimento amplo, em grande parte devido ao interesse de D. Pedro II por ela. Além de outorgar títulos de fotógrafo da Casa Imperial, induziu instituições a designarem os seus (por exemplo, Marc Ferrez na Marinha). Na segunda parte do século XIX, as revistas eram território de ótimos ilustradores, que, muitas vezes, pelo dever de informar, reproduziam fotografias de forma quase exata (como Angelo Agostini, em sua Revista Illustrada) e costumavam dar crédito ao fotógrafo, um meio de garantir ao leitor a veracidade da imagem.


Pois, nesta época, início do século XX, é impressionante a “clandestinidade” do fotojornalista... Cláudia de Oliveira (EBA/UFRJ), umas das autoras do livro O Moderno em revistas, falando neste Seminário sobre o tema Fotografia, cidade moderna e revistas ilustradas, diz ter identificado nas revistas do período de 1900 a 1920 apenas um fotógrafo (um!...). Assinando-se Brum (?), publicou fotos na Fon-Fon, em O Malho e em A Careta, mas não connseguiu maiores informações.

O “flash” do momento foi vislumbrar que, no período, a tal ponto predomina a visão da fotografia como mera reprodutora do mundo natural e do fotógrafo como um simples apertador dos botões de uma caixa preta (vide Vilém Flüsser), que esta percepção, advinda ainda da possibilidade de reprodução técnica de fotografias por novos equipamentos gráficos (vide Walter Benjamin) e acrescida da adiantada profissionalização das empresas editoras de revistas (e jornais), tudo isto simplesmente faz com que o fotógrafo desapareça...

Do ponto de vista deste fotógrafo, a raiz da desvalorização está nas limitações técnicas (câmeras grandes, pesadas), na tendência para fotos únicas pela dificuldade de obter sequências (sistema de chapas), na necessária predominância da foto posada (baixa sensibilidade dos filmes). 
Realmente, da época, ficaram nomes de fotógrafos de registro formal, por conta de suas inserções em instituições públicas, cujo melhor exemplo é Augusto Malta, fotógrafo da Prefeitura, de 1900 (com Pereira Passos) até 1936.
É assunto a ser desenvolvido, mas foi animador receber da professora Tania de Lucca (Unesp), que falara sobre O gênero revista ilustrada em questão: desafios e possibilidades, concordância e apoio à tese, ao final do primeiro dia, entre goles de cafezinho...

Afinal, os fotógrafos de imprensa do início do século XX, eram eles apenas “paus-mandados”?...
Bom tema para pesquisadores que não se limitem às belas imagens dos fotógrafos já emoldurados pela História...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Na "Pré-Imagem" do fotojornalismo brasileiro


Se a História depende da escrita e se a História antes da escrita é chamada de "Pré-História", então o que tivemos na Casa de Rui Barbosa (Rua São Clemente, 134 – Botafogo – Rio de Janeiro) bem poderia ser chamado (com certa liberdade e algum humor) de a “Pré-Imagem” do fotojornalismo brasileiro...

Angelo Agostini, por Pires, (?)
De 15/09 a 17/09/2010, aconteceu lá o seminário “Angelo Agostini – 100 anos depois”, organizado pela historiadora Isabel Lustosa, apresentando uma série de palestras e reflexões sobre este prolífico caricaturista, impressor e, digamos, “cronista visual” ítalo-brasileiro.
Angelo Agostini chegou ao Brasil em 1859, aos 17 anos, aqui vivendo (e até se naturalizou) até a morte, com exceção de curto autoexílio em Paris, por conta de interdita e trágica paixão...


A exemplo de Raphael Bordalo, por uns tempos concorrente e desafeto, Agostini muitas vezes usou a fotografia como base para desenhos, em um tempo em que limitações técnicas (da fotografia e da imprensa) impossibilitavam a publicação mecânica das fotografias, exigindo a intermediação da xilografia (madeira) ou da litografia (pedra).

Um exemplo, ainda dos seus primeiros anos no Brasil, foi apresentado por Ricardo Salles (História/UniRio). Trata-se da imagem do oficial de um Exército brasileiro condecorado pela atuação na Guerra do Paraguai, na qual Agostini acrescenta ao realista portrait fotográfico o simbolismo heróico de coroas de louro...


Em outros momentos, como destacou Gilberto Maringoni (Comunicação/Cásper Líbero), Agostini transformava sua Revista Illustrada no que seria praticamente um jornal popular de hoje em dia, reproduzindo fielmente as fotografias, e ainda dando crédito ao fotógrafo... É o caso do drama das duas meninas escravas de 12 e 14 anos, que, mesmo resgatadas por populares, vieram a falecer, em 1886, em razão de maus tratos por parte de sua senhora, aliás, moradora do mesmo e nobre bairro de Botafogo, Rio de Janeiro...



Mas, na maior parte de sua obra as fotografias serviram a Agostini como referência genérica para  ilustrações alegóricas, como se evidencia na extensa e insistente série, comentada por Lilia Moritz Schwarcz (Antropologia/USP), de caricaturas do imperador Pedro II, de quem costumava debochar através da inversão de sentido dos seus próprios (e variados) retratos formais...  

Fotos do seminário: Aguinaldo Ramos, 2010.
 
Não é ainda, propriamente, fotojornalismo (até, porque a impressão mecânica das fotos pela imprensa só se tornaria realidade na virada do século XX), mas lá já estavam as fotografias, através do traço preciso de Agostini, de Bordalo e de outros, aflorando às periódicas páginas da imprensa brasileira...

Postagem atualizada em 30/10/2012.