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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Aos Mestres, com carência...

Uma homenagem (jamais tardia, nunca bastante) ao Dia do Mestre.

Não há candidato a qualquer coisa que não faça o diagnóstico exato: o problema do Brasil é a educação. Ok, está certo, não é bem assim... Eles sabem (e talvez até queiram dizer) que o problema do Brasil é a falta de educação!
A história da educação no Brasil é, em grande parte, a história das tentativas frustradas (pelos outros...) de melhorar (ou até revolucionar) suas estranguladas estruturas.
Pode-se até pensar que, historicamente, nós, brasileiros, temos simplesmente desprezado nossos melhores educadores. Talvez, por mera falta de educação...

No Império, D. Pedro II acumulou, neste campo, extensa “folha corrida” de benemerências. Foi inclusive o primeiro fotógrafo brasileiro, a partir de março de 1840. Mas, apesar da seriedade de sua figura, não conseguiu, em geral, muito mais do que ser caricaturado como um governante alienado dos problemas do país [veja neste blog  http://afotohistoricanobrasil.blogspot.com/2010/09/na-pre-imagem-do-fotojornalismo.html]
Pedro II aos 61 anos, 1887 - Lucien Waler
"Interessado na educação, o imperador freqüentava concursos nas escolas de Medicina, Politécnica, Militar e Naval. Isso sem falar do Colégio Pedro II, a grande predileção do monarca” [SCHWARCZ, Lilia Moritz, As Barbas do Imperador, Companhia das Letras, 2002]. “Foi o fundador, mantenedor e incentivador de inúmeras instituições científicas no Brasil, entre as quais se destacam, além do já citado observatório astronômico, o Instituto Baiano de Agricultura, o Instituto Agronômico de Campinas, o Museu Paraense, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e a Escola de Minas de Ouro Preto.” [http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_II_do_Brasil]
Rui Barbosa - Chapelin, Paris, 1907

Rui Barbosa voltou consagrado da Segunda Conferência da Paz, Holanda, 1907, aclamado como a Águia de Haia! Pois, em 1910, apesar do vulto da Campanha Civilista, foi derrotado na disputa para Presidência da República, certamente muito mais pela ignorância dos adversários que a dos eleitores...
A participação de Rui na Conferência da Paz, encerrada em 18 de outubro de 1907, repercutiu na imprensa internacional, colocando em evidência uma brilhante atuação. Diplomatas que regressavam da Holanda espalhavam notícias sobre o triunfo do delegado brasileiro. Quando desembarcou no solo natal, em dezembro daquele ano, um povo envaidecido e orgulhoso consagrava-o como a Águia de Haia. Rui Barbosa atingia o ápice da glória. [http://www.projetomemoria.art.br/RuiBarbosa/periodo1/index.htm]

Villa-Lobos - s/d, 1942
Villa-Lobos, um gênio tão inspirado quão transpirador, investiu no potencial transformador da música. Aproveitando interstícios do poder (inclusive um convite de outro grande educador, Anísio Teixeira), criou, em 1942, o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, que formaria o Magistério Orfeônico nas escolas, e elaborou diretrizes para o ensino do Canto Orfeônico etc etc, iniciativas que... desapareceram com o tempo.
Escreveu Carlos Drummond de Andrade: "Quem o viu um dia comandando o coro de 40.000 mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber". [http://www.boamusicaricardinho.com/villalobos_83.html]

Paulo Freire - s/d, anos 80
Em 1963, Paulo Freire testou, no Rio Grande do Norte, seu método de alfabetização pela conscientização: ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias. Com o golpe de 64, preso e depois exilado, produziu no exterior extensa obra prática (implantando o método em vários países) e teórica (publicando vários livros). Após a Anistia de 1979, retornou à luta pela educação no Brasil.
“Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” (Paulo Freire) [http://www.paulofreire.ce.ufpb.br/paulofreire/]

Niemeyer e Darcy apresentam projeto da UENF a Brizola -
Foto: Aguinaldo Ramos, Rio, 1991


Darcy Ribeiro, antropólogo, um dos fundadores e primeiro reitor, 1962, da UNB - Universidade Federal de Brasília, também se exilou da ditadura do golpe de 64, trabalhou com Allende no Chile. Após a anistia, foi um dos idealizadores (no primeiro governo Leonel Brizola, 1982-86) dos CIEPs, Centros Integrados de Ensino Público, projeto pedagógico com assistência em tempo integral ao aluno, abandonado pelos governos posteriores...
“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu” [Darcy Ribeiro, http://fundar.tempsite.ws/]

Uma opção que todos estes Mestres possivelmente assumiriam.
O problema é que os tais que lhes foram vencedores continuam nos mesmos lugares...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Quando o povo perde a eleição

Talvez se encerre neste domingo, 03/10/10 (se não houver 2º. turno) uma das campanhas eleitorais para Presidência da República das mais insossas de todos os tempos...
Entre outros motivos, pela pouca presença do eleitor, o povo, nas ruas, nos comícios, nas campanhas. Seguindo a tendência tecnológica das últimas décadas, até a própria campanha eleitoral foi se tornando virtual, frequentando basicamente o rádio, a televisão e a internet.
Mas, nem sempre foi assim...
No início da República as eleições mantiveram o padrão "coronelista", o "voto de cabresto", a lista de eleitores do chefe local, heranças das divisões de poder do Império. Práticas que evoluíram para a predominância dos governadores como chefes políticos regionais, com destaque para os estados economicamente mais fortes, São Paulo e Minas Gerais, a alternância "café com leite" no poder.
Acrescenta-se a este quadro a intempestividade das intervenções militaristas e ainda mais confusa se tornou a política brasileira, sempre garantida a divisão do poder por grupos restritos. A partir de várias formas de mobilizações democratizantes, de anarquistas a grupos legalistas, o povo aumenta sua participação nas campanhas presidenciais, mas não chega a  influir muito no resultado...
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Em 1909, Rui Barbosa percorreu de trem, em campanha, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo - Arq. FCRB.
O exemplo mais significativo é o das eleições de 1910. A Campanha Civilista, encabeçada por Rui Barbosa (ao centro da foto), recebe amplo apoio popular, mas, por conta do esquema de manipulação de votos dominado pelo deputado Pinheiro Machado, foi oficialmente eleito o Marechal Hermes da Fonseca.

Há outras formas do povo perder as eleições... Escolhas excessivamente emocionais, por exemplo. Na última eleição antes da ditadura e também na primeira após seu fim, as candidaturas mobilizadoras das massas acabaram dando chabu!...
Jânio Quadros, em 1960, é eleito com mais de 2/3 dos votos, mas, após pouco mais de um ano de mandato, vítima, segundo ele, de "forças terríveis", renuncia.
João Roberto Ripper. - Diretas Já - Rio de Janeiro, 1985
Collor de Mello, eleito em 1990 sob a fama de "caçador de marajás", é acusado, pouco mais de um ano depois, de corrupção e, correndo risco de impeachment, renuncia.
















A ironia das ironias, em termos de participação do povo no processo de escolha do presidente da República, é certamente a campanha das Diretas Já, 1985.






Custódio Coimbra - 1985





Provavelmente a maior mobilização popular da História do Brasil, visava a aprovação pelo Congresso de eleições diretas em 1985, o que encerraria o ciclo ditatorial que vinha de 1964. Apesar do fracasso, a campanha serviu de base para o consenso na escolha, por eleição indireta, do presidente Tancredo Neves.  Que, eleito, não chegou, afinal, como se sabe, a tomar posse...