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domingo, 11 de setembro de 2011

Atentados, no atacado e no varejo

Esta data, que desde 2001 é, de certa maneira, o Dia Internacional dos Atentados, sugere uma mínima olhada sobre os nossos...
Para os mais jovens (e os menos ligados) talvez valha a pena lembrar que quando se fala "no varejo" trata-se do indivíduo, o nominado; e quando se fala “no atacado” é o coletivo, o indiscriminado. Uma regra que tem valor geral, desde o mercado de secos & molhados de antigas esquinas até as lutas mais insanas das políticas mais globalizadas.
Pois, afinal, em matéria de atentado, também no Brasil temos nosso legado...

Atentado contra Ronald Reagan - Sebastião Salgado, 1981
Os tempos do Império podem ser às vezes idealizados como a calmaria que precede uma republicana tempestade... Nem por isto D. Pedro II escapou de um atentado, do qual, contam os jornais, saiu-se com elegância e generosidade. Na saída do Teatro Santana (atual Carlos Gomes), no largo do Rocio (atual Praça Tiradentes), em 15 de julho de 1889, o Imperador e a Imperatriz, além dos gritos de "Viva a República", ouvem, já em sua carruagem, três tiros que são contra eles disparados. O autor, Adriano do Vale, português de 20 anos, é preso e, não tendo qualquer ligação com republicanos ou militares que combatiam o governo, é simplesmente perdoado por Dom Pedro II.
Não tínhamos então um Sebastião Salgado, que, em 1981, em Washington, fotografou, em condições semelhantes, o atentado contra Ronald Reagan, presidente dos EUA, e ainda conseguiu, com a venda das fotos, a sua independência financeira...  

Mais dramático foi o atentado contra o primeiro presidente civil (e eleito pelo voto direto, em 1894), Prudente de Morais, representante da oligarquia cafeeira paulista. Além da Guerra de Canudos (finda em outubro de 1897), Prudente de Morais enfrentou a oposição de setores militares que atuavam como milícias independentes.
Prudente de Morais presidente, 1894
Mal. Machado Bittencourt
Na chegada das tropas ao Rio (05/11/1897), o anspeçada Marcelino Bispo de Melo o atacou, com revólver e faca. Resultou uma vítima fatal, seu Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt, morto a facadas. Bittencourt era justamente o militar responsável pelo ataque final a Canudos e também pela aplicação da “gravata vermelha”, ou seja, a degola, "no atacado", de milhares de homens, mulheres e crianças, que tinham se rendido no arraial.
Em resposta ao atentado, Prudente de Morais decreta estado de sítio na capital, desarticula a oposição e dois Capitães são condenados, como mentores intelectuais do crime. O anspeçada Marcelino, preso no ato, acaba sendo encontrado enforcado na cadeia...
Prisioneiros da Guerra de Canudos - Flávio de Barros, 1897

 
Lacerda ferido - Mundo Ilustrado, 11/08/54
Não temos, como alguns dos mais belicosos países, presidentes mortos por atentado em pleno exercício do mandato. Temos, porém, o caso do presidente que, abalado pelas repercussões de um atentado, logo atribuído a seu governo, toma a decisão de, com êxito, atentar contra a própria vida... 
O atentado da rua Tonelero, contra o agressivo jornalista Carlos Lacerda, em 5/8/1954, de tal forma reverberou que chega a ser considerado um fato determinante para o suicídio de Getúlio Vargas. Dada a evidente participação de membros da guarda pessoal do presidente, a situação em poucos dias evoluiu de uma forte pressão pela renúncia para a ameaça explícita de golpe militar. Na madrugada de 24/08, Getúlio Vargas, deixando uma carta testamento à Nação, se suicida e é a emocionada reação popular que provoca o adiamento dos planos golpistas.

Alte. Nelson Gomes Fernandes
Com a ditadura, que se segue ao golpe de 1964, recrudescem no Brasil os atentados “no atacado”... 
Na manhã de 25/07/1966, ainda que o alvo principal fosse o candidato oficial à sucessão de Castelo Branco, marechal Arthur da Costa e Silva (que viria de João Pessoa), uma bomba é colocada, por grupos de esquerda, no saguão do aeroporto de Recife. Tendo a viagem aérea sido cancelada por pane no avião, o futuro presidente não correu qualquer risco, mas o atentado do aeroporto Guararapes provoca duas vítimas fatais, o jornalista Edson Régis de Carvalho e o almirante reformado Nelson Gomes Fernandes, causando ainda14 feridos.

A maior contrapartida, efetuada por grupos de direita a este tipo de ação é, realmente, um exemplo de atentado que, visando efeitos políticos pela escolha de um alvo simbólico, deveria ser potencializado ao atingir vidas humanas indiscriminadamente. 
Sgt. Guilherme Pereira do Rosário – Vidal da Trindade, 1981
No atentado do Riocentro, na noite de 30/04/1981, os autores tinham a intenção de explodir bombas no pavilhão onde milhares de pessoas assistiam ao show comemorativo do Dia do Trabalhador.  
Numa espécie de acidente de trabalho, as vítimas foram justamente alguns dos seus executores, morrendo na precipitada explosão (ainda no Puma em que preparava uma das bombas) o sargento Guilherme Pereira do Rosário, especialista em explosivos, e
ficando ferido o então capitão, hoje coronel, Wilson Dias Machado.

Desde então, talvez por conta da redemocratização, os atentados deste porte, “no atacado”, ou contra alvos "notáveis" não mais aconteceram. Mas nem por isto o Brasil se tornou um país especialmente pacífico... 

É “no varejo” que as mortes políticas continuam sendo praticadas e –  em vez dos grandes personagens da política – cotidianamente atingem vereadores, prefeitos, religiosos, ecologistas, lavradores, favelados etc... 

De certo modo, é só morrendo desta forma que há espaço para todos eles na nossa História... 

sábado, 30 de julho de 2011

As cidades e seus fotógrafos históricos

A cidade, campo de batalha entre a estruturação geométrica de suas construções e a insinuância irrequieta de habitantes e transeuntes, é matéria prima inescapável para os fotógrafos...
Mas, nem todos fazem dela o seu motivo central, conseguem fotografá-las de forma disciplinada, dedicam-lhe toda uma obra... Na prática, apenas alguns poucos tornaram-se fotógrafos históricos das cidades em que nasceram, viveram ou investiram, por um tempo, o seu talento. Se o fizeram, não terá sido só por paixão pessoal ou exigência da profissão, mas, talvez mais certamente, por uma criativa harmonia entre estes tão poderosos impulsos.

Entre as muitas exposições do FotoRio 2011, algumas recuperam as fotos históricas (e as próprias histórias) de fotógrafos que, identificados com as suas (ou mesmo outras) cidades, transformaram-se em guardiões (e também mensageiros) das imagens de seu passado.

Um exemplo clássico, é a obra do fotógrafo “ítalo-gaúcho” Virgilio Calegari, apresentado na exposição “Um Cavaliere entre dois mundos”, um destaque no FotoRio. Chegando ao Brasil com 13 anos de idade, ainda no século XIX, Calegari fotografou Porto Alegre de tal forma que “ajudou a criar e popularizar a imagem da pequena capital que se pretendia grande”, no dizer da curadora da exposição, Sinara Sandri. Em 1910, no auge da carreira, com vários prêmios internacionaisl, recebeu de seu país a comenda de Cavaliere, pela contribuição à cultura italiana e pelo seu sucesso no exterior. 
Pça XV, esq Mar.Floriano, Porto Alegre -Virgilio Calegari, 1910
Estes fotógrafos, que produzem a memória visual das cidades, são típicos das grandes metrópoles, cujo crescimento e modificações acompanham por décadas. Mas, ainda no FotoRio, temos um belo exemplo em um âmbito regional, a exposição “O Sal da Terra” (prorrogada até 14/08/11), com fotos de Wolney Teixeira, que documentou a Região dos Lagos, RJ, entre os anos 30 e 70 do século XX.

Largo de Santo Antonio, canal de Itajuru e rua da Praia - Cabo Frio - Wolney Teixeira, 1948
Além das salinas, praias, restingas, as pescarias, as festas e os políticos, suas fotos mostram “a vila colonial que permaneceu intocada até os anos 50, quando a cidade passa a adquirir feições de balneário turístico”, como destaca Mauro Trindade, que editou, para a exposição e futuro livro, os mais de 10.000 negativos guardados pelo filho do fotógrafo.
Centro de São Paulo - Cristiano Mascaro, c. 1985



Outras visões das cidades dependem de um olhar especial. No correr do século XX, vários fotógrafos fizeram leituras particulares de certas cidades utilizando técnicas específicas, conseguindo dar às fotos um tom autoral, que se descola do registro “realista” do período inicial da fotografia.

Um exemplo é o tratamento altamente formal, aparentemente distanciado, do fotógrafo, professor e arquiteto Cristiano Mascaro em suas fotos de São Paulo: com um denso preto e branco e em formato quadrado, como se retratasse a personalidade da cidade. Um trabalho que se tornou, através de livros e exposiçoes, pelo apuro das imagens, um marco visual da cidade de São Paulo: “ele é um mestre no que se refere à percepção da arquitetura como protagonista”, declara o crítico Agnaldo Farias.

Elev. Lacerda e Merc. Modelo, Salvador - Cesar Duarte, 2008
Cesar Duarte, mais jovem e menos conhecido fotógrafo carioca, além de registros para a Prefeitura do Rio, também fez, como expressão pessoal, uma escolha técnica: usando o mote “cidade iluminada” para seus livros , fotografou Rio de Janeiro e Salvador em um horário especial, a chamada “twilight zone”, a passagem do dia para a noite, o momento em que a luz natural do fim da tarde se equilibra com a luz artificial dos interiores e da iluminação pública, o que possibilita criar fotos surpreendentes de locais conhecidos.



Um dos nossos grandes fotógrafos-historiadores, Augusto Malta, também trabalhou, no início do século XX, para a Prefeitura carioca (que conserva seu acervo), fazendo desta posição profissional a base de sua obra. Em mais de 30 anos, Malta registrou do cotidiano aos mais dramáticos acontecimentos da cidade: a construção da Av. Rio Branco, a destruição do Morro do Castelo, a vida nas cabeças-de-porco, o surgimento das favelas, as revoltas, os carnavais, tudo...

Av. Rio Branco, Rio de Janeiro - Augusto Malta, 1923


Outras grandes cidades brasileiras têm seus fotógrafos-historiadores e, no correr do século XIX, um dos mais importantes foi Militão Augusto de Azevedo, um ator carioca que, ao se mudar para São Paulo,  torna-se fotógrafo de retratos. Anos mais tarde, faz uma grande obra como paisagista, deixando como principal legado, o "Álbum Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo (1862-1867)", publicado em 1887.

Igreja N. S. dos Remédios e Pátio da Cadeia, S. Paulo - Militão, 1862
Certamente, o maior deles (entre muitos!..) foi Marc Ferrez, que tem a sua extensa obra bem preservada. Xará de seu tio, um escultor que veio para o Brasil com a Missão Francesa em 1815, nasceu no Brasil e foi criado na França, mas trabalhou como fotógrafo no Brasil por mais de meio século (de 1865 a 1918), dedicando-se especialmente aos temas e paisagens de sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

Cais dos Mineiros, Candelária e centro do Rio, fotografados da ilha das Cobras - Marc Ferrez, 1885



No correr do século XIX, diga-se de passagem, o Rio de Janeiro foi das cidades mais  fotografadas em todo mundo. Afinal, até mesmo Pedro II, o Imperador, era fotógrafo...

Toda cidade tem a fotografia em sua história e eis aí uma bela tarefa, fazer este levantamento, Brasil a fora: quem são os "fotógrafos históricos" de sua cidade?...
Cartas para a redação deste blog.



Neste 1º de Agosto, o blog A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil 
completa um ano de circulação, passando de 3000 acessos mensais.











O autor agradece a todos, e em especial aos que colaboram com comentários.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Corpos críticos: a fotografia do morto

            O feriado de Corpus Christi (um dos vários eventos religiosos que são contraditoriamente oficializados como tal em um país formalmente laico), além de se encaixar bem em um período de poucas folgas, sugere reflexões um tanto fúnebres...
É momento em que, através de uma das suas pretensas manifestações divinas, como em outras religiões, o corpo humano, hoje desbragadamente presente em enxurradas de imagens contemporâneas, é realçado de maneira simbólica, dado como transubstanciado através de símbolos religiosos católicos, a hóstia e o vinho.
            Esta invenção medieval, tornada obrigação canônica no âmbito da igreja católica, produz, no Brasil, o visual mais popular do feriadão, em jornais e noticiários de TV, a dos tapetes artesanais, de variadas substâncias, passarelas para as procissões. E lembra também a verdadeira procissão de fotografias de defuntos da Fotografia brasileira.
            Se na religião a hóstia e o vinho são meios de sublimação do corpo, a fotografia, na História, é capaz de torná-lo (visualmente) concreto, manter viva a sua presença para quem se distancia no espaço ou no tempo. A lamentar, aqui, o possível impacto das imagens...
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Criança morta - Militão Augusto de Azevedo - São Paulo, 1877
Logo de início, no século XIX, surge um hoje impressionante costume, a foto daquele que morreu antes de ser fotografado... Com poses “naturais” (isolado ou em companhia de parentes), estas fotografias são uma pungente “solução” para a perda e futuro esquecimento do ente querido, e mais doem quando retratam crianças (saiba mais no artigo de Luiz Lima Vailati).          
 
Pedro II morto - Félix Nadar - Paris, 1891
Pedro II - Nadar - Paris, 1891 (foto original)
            As questões do poder, e não só da memória familiar, também podem exigir, com o devido cuidado, que seja feita a foto do morto. Um bom exemplo é a do corpo de D. Pedro II em seu leito de morte, vestido com o uniforme de Marechal do Exército. O detalhe é o livro sob a cabeça, que, de simples recurso do fotógrafo Nadar para elevar o tronco do Imperador defunto (cf. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, de Lilia Moritz Schwarcz, pg. 489), passa a ter um alto simbolismo, o de que “sua mente repousa sobre o conhecimento mesmo na morte” (conforme legenda da foto na Wikipédia).

Pode ser que justamente os inimigos, e não os admiradores, precisem da foto do morto... Perseguido tanto pelo governo republicano quanto pela igreja católica, Antonio Conselheiro, que era o guia místico de milhares de seguidores no arraial de Canudos, Bahia, na última década do século XIX, só tem uma foto conhecida, de 1897: foi desenterrado duas semanas depois de sua morte, após uma guerra que durou dois anos, para ser identificado e só então foi fotografado... 
Antonio Conselheiro - Flávio Barros - Canudos-BA, 1897

Wladimir Herzog morto na cela, 1975
            O fato é que a fotografia impactante do cadáver sempre que pode ser útil é apresentada à sociedade, muitas vezes como suposta “prova” de discutíveis certezas...  A ditadura civil-militar do golpe de 1964 foi useira e vezeira nesta prática, caso os corpos não desaparecessem “acidentalmente”... Entre estas fotografias estão a do corpo baleado de Marighella dentro de um fusca, em São Paulo, em 1969, e a de Lamarca e Zequinha, guerrilheiros mortos no interior da Bahia, em 1971. Mas talvez a foto mais significativa a série, quanto aos efeitos posteriores, seja aquela em que Vladimir Herzog aparece enforcado com a própria gravata em uma cela do DOI-CODI paulista, em 1975. Um suicídio tão evidentemente falso, que foi imediatamente desconsiderado pela comunidade judaica, que não lhe negou sepultura, e logo depois pela Justiça, que condenou o regime militar por seu assassinato ainda durante a vigência do AI-5. 

No geral, a imagem explícita do morto, no correr do século XX, passou a frequentar quase que exclusivamente as páginas policiais (com raras exceções, como rostos de celebridades, com expressão suave, envoltas em flores, em seus caixões). Só os jornais do tipo “espreme que sai sangue” continuaram fazendo questão de mostrar a violência nua e crua dos conflitos sociais. 
 
Vila do João, Rio de Janeiro - Evandro Teixeira, 1998
Conseguir uma imagem sensível de uma chocante cena de morte é um dos grandes desafios para os fotojornalistas, e nisto os brasileiros, sem dúvida, são dos melhores. Certamente, não é uma questão meramente profissional: o povo brasileiro parece afirmar (como diz a música De frente pro crime, de João Bosco, e demonstra a foto de Evandro Teixeira) que a morte (que faz parte...) não consegue impedir (por mais incrível que pareça...) a alegria de viver.

Agradeço à fotógrafa e historiadora Vera Sayão 
pelas sugestões em torno do tema.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Perfis e Autorretratos

Entre as boas preliminares de um trabalho como este (refletir sobre fotos históricas) está o exercício, no bom sentido, da inversão de sentido.
Por exemplo, centralizar a atenção em formas e estilos fotográficos menos usuais e deixar que isto oriente a pesquisa das fotos, mas sempre mantendo, nas escolhas, a ênfase no reconhecimento social (ou seja, no valor histórico) da fotografia...
É assim que se chega a este rápido passeio por perfis e autorretratos, categorias tão contraditórias que, aparentemente, só parecem ser parecidas nas atuais redes sociais digitais...

Magalhães Pinto - Orlando Brito, Brasília, s/d
Obter do perfil fotográfico (ou, para generalizar, do contorno ou silhueta) uma marca perfeitamente reconhecível é, dentre as possíveis artes da fotografia, mais uma arte... Muito especialmente, na área do fotojornalismo, em que, por limitações técnicas ou de tempo, predomina o improviso, outra arte intrínseca à fotografia...
Há, na silhueta, assinaturas. São tanto a do fotógrafo quanto a de uma excentricidade qualquer da figura do fotografado. Perceba-se ainda a necessidade de negociação (ou observação) em termos de ângulos e enquadres, de um lado, e de posturas e intenções, de outro. Acima de tudo (e entre eles), o definitivo recurso da fotografia: a luz.

Para demonstrar, busquei uma foto que tinha na cabeça, aquela em que Orlando Brito registrou, no contraluz, apenas um fio de luz envolvendo justamente a cabeça de Magalhães Pinto, banqueiro e político mineiro, um dos líderes civis do movimento que resultaria no golpe de 1964 (leia aqui).

Certamente uma escolha feliz, a do fotógrafo!... O reconhecimento por parte do leitor (ao menos, o da época...) é garantido: o formato e a "lisura" da cabeça garantem o resultado, a “assinatura’ do fotografado está explícita. 
 
Magalhães Pinto e Vavá - Rogério Reis, Rio, c.1979
Tanto que, no caso, o contraluz, elemento fundamental na foto de Orlando Brito, é dispensável!... 
Fato que fica evidente na fotografia de Rogério Reis, do final dos anos 70, quando Magalhães Pinto, com seu poder político em queda (em paralelo ao esperado fim da ditadura), foi “recepcionado”, na praia de Botafogo, no Rio, por um típico “popular” brasileiro, o Vavá (como conta o autor).
A foto pelas costas, que seria desvalorizada em uma reportagem comum, torna-se exaltação da identidade do conhecido político, um elemento que o próprio gesto do popular ressalta... 
Ulisses Guimarães - Orlando Brito, Brasília, 1992

Eis que, à procura da primeira foto, a de Orlando Brito, ao navegar por Com a palavra, a Fotografia, excelente blog em que conta histórias de muitas das suas, uma outra imagem, do mesmo tipo, se destacou: o perfil de Ulisses Guimarães. 
É o próprio fotógrafo quem dá a esta foto peso histórico (por acaso, feita no dia de aniversário de Ulysses, 6 de outubro de 1992), associando-a a uma possível premonição: “Confesso que o resultado da imagem me impressionou. Era forte, não tinha a ver com a serenidade daquele momento. Seis dias depois, a trágica notícia do desaparecimento de Ulysses” (leia mais aqui).

E falando de improviso, cabe registrar a habilidade do fotógrafo... O contorno de Magalhães Pinto aproveita a luz de filmagem da TV, em uma entrevista; o perfil de Ulisses, a longínqua luz do por do sol, no saguão de um prédio em Brasília.

O caso dos autorretratos é bem diferente...
Um fotógrafo, ao se retratar, não dá à foto maior importância, seja qual for a pretensão... Salvo outras injunções, das não fotográficas, não haverá motivos para considerá-la histórica.
A menos que o fotógrafo tenha certa importância social. Que seja, por exemplo, um imperador: algumas das fotos em poses formais de D. Pedro II, efetivo fotógrafo, são autorretratos.
Ou, então, quando o autorretrato é tão surpreendente para a época (e, pensando bem, até hoje) que se tornou um marco na fotografia brasileira, especialmente por não ser apenas um autorretrato, mas vários em um...
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Os trinta Valérios - Valério Vieira, São Paulo, 1901


Trata-se da fotomontagem “Os trinta Valérios”, a imagem de um incrível sarau em que o autor, Valério Vieira, se reproduz em todas as presenças, até as da parede e sobre o piano... Formado na Escola de Belas Artes do Rio, Valério tornou-se fotógrafo em São Paulo em 1880, onde inovou com retratos de formatura e grandes panorâmicas da cidade.
Este múltiplo autorretrato, produzido em 1901 (muito antes do Photoshop...) e premiado na Feira Internacional de Saint Louis, EUA, de 1904, foi montado com o uso de dezenas de negativos, ampliados cuidadosamente, na escuridão do laboratório fotográfico, em posições e proporções precisas.

Em todos os casos, os fotógrafos se valem da oportunidade e da criatividade, matérias primas da fotografia.
 
[Orlando Brito faleceu em 11/03/2022.]

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Modernidade total: o fotógrafo sumiu!

Nada melhor do que uma luz (ainda mais se tratando de fotografia), um flash!...
Este veio em pleno seminário Revistas ilustradas: modos de ler e de ver o Rio de Janeiro na Primeira República, na Casa de Rui Barbosa, nos dias 16 e 17 de Nov/2010, quando uma típica teoria de comentarista de palestra virou, no caso, uma luminosa percepção...

O desenho, de época, do cartaz do Seminário inclui uma máquina fotográfica...
Imaginem a cena: início do século XX, o Brasil se torna uma República turbulenta e militarista, ainda controlada por forças regionais, que, aos poucos, se “civiliza”, um país cada vez mais “moderno”... 
Os novos governantes querem espantar do país os ares monárquicos, aliviar a capital de seu passado colonial, inscrito ainda na malha urbana. Com prefeitos eficientes, aterros e avenidas, o Rio de Janeiro aspira copiar a recem urbanizada Paris: a elite carioca poderá flanar em alto estilo...
Ora, é tempo da câmera Kodak, com o lema “você aberta o botão e nós fazemos o resto“, as pessoas fotografavam (“kodakeavam”) à exaustão! Nas ruas, a fotografia é uma febre e as revistas ilustradas também estão entupidas delas. 
O tema mais comum, como sempre, é gente, agora organizada e classificada em fotos posadas, nos mais variados grupos. Também a arquitetura eclética das fachadas da Av. Central ou da Exposição de 1922 e até as conseqüências da remoção de moradores e do inchamento da cidade: favelas também são fotografadas...

Afinal, se há tantas fotografias circulando, de onde foi que o fotógrafo sumiu?... 
Ah, sim... O fotógrafo sumiu dos créditos!...
É verdade: não há praticamente qualquer referência aos autores de milhares de fotografias publicadas pela imprensa carioca no período. Já outros produtores de imagem (desenhistas, caricaturistas, ilustradores) e de texto (escritores, cronistas, articulistas) têm seus nomes continuamente citados...
Edição de fotos por J. Carlos em O Malho - A.Ramos, 2010


Julieta Sobral (PUC-Rio), designer, ao passar J. Carlos em revista, mostrou uma face menos conhecida do espetacular desenhista, o seu papel de editor de arte no grupo editorial da revista O Malho, responsável pela publicação de uma profusão de fotografias, praticamente todas sem o crédito do fotógrafo...


É realmente um longo hiato... No Império, a fotografia no Brasil teve reconhecimento amplo, em grande parte devido ao interesse de D. Pedro II por ela. Além de outorgar títulos de fotógrafo da Casa Imperial, induziu instituições a designarem os seus (por exemplo, Marc Ferrez na Marinha). Na segunda parte do século XIX, as revistas eram território de ótimos ilustradores, que, muitas vezes, pelo dever de informar, reproduziam fotografias de forma quase exata (como Angelo Agostini, em sua Revista Illustrada) e costumavam dar crédito ao fotógrafo, um meio de garantir ao leitor a veracidade da imagem.


Pois, nesta época, início do século XX, é impressionante a “clandestinidade” do fotojornalista... Cláudia de Oliveira (EBA/UFRJ), umas das autoras do livro O Moderno em revistas, falando neste Seminário sobre o tema Fotografia, cidade moderna e revistas ilustradas, diz ter identificado nas revistas do período de 1900 a 1920 apenas um fotógrafo (um!...). Assinando-se Brum (?), publicou fotos na Fon-Fon, em O Malho e em A Careta, mas não connseguiu maiores informações.

O “flash” do momento foi vislumbrar que, no período, a tal ponto predomina a visão da fotografia como mera reprodutora do mundo natural e do fotógrafo como um simples apertador dos botões de uma caixa preta (vide Vilém Flüsser), que esta percepção, advinda ainda da possibilidade de reprodução técnica de fotografias por novos equipamentos gráficos (vide Walter Benjamin) e acrescida da adiantada profissionalização das empresas editoras de revistas (e jornais), tudo isto simplesmente faz com que o fotógrafo desapareça...

Do ponto de vista deste fotógrafo, a raiz da desvalorização está nas limitações técnicas (câmeras grandes, pesadas), na tendência para fotos únicas pela dificuldade de obter sequências (sistema de chapas), na necessária predominância da foto posada (baixa sensibilidade dos filmes). 
Realmente, da época, ficaram nomes de fotógrafos de registro formal, por conta de suas inserções em instituições públicas, cujo melhor exemplo é Augusto Malta, fotógrafo da Prefeitura, de 1900 (com Pereira Passos) até 1936.
É assunto a ser desenvolvido, mas foi animador receber da professora Tania de Lucca (Unesp), que falara sobre O gênero revista ilustrada em questão: desafios e possibilidades, concordância e apoio à tese, ao final do primeiro dia, entre goles de cafezinho...

Afinal, os fotógrafos de imprensa do início do século XX, eram eles apenas “paus-mandados”?...
Bom tema para pesquisadores que não se limitem às belas imagens dos fotógrafos já emoldurados pela História...

sábado, 6 de novembro de 2010

Arquivos online, uma história bem enrolada!

Projetadas na mesa-redonda Coleções fotográficas online, da Casa de Rui Barbosa, as duas fotografias – muito parecidas, do mesmo assunto (estátuas de faraós do Egito), do mesmo ano (1872) – escancaram uma questão advinda de navegações virtuais: o efeito (e possíveis atenuantes) do tempo sobre as fotografias.

Perceba-se as diferenças de estado, do material e da imagem. Ambas são da Collecção D. Thereza Christina Maria. A da esquerda, de um dos álbuns preservado à maneira tradicional; a outra, uma das 590 fotos “enroladinhas” da coleção, um sucesso do acaso... 
Projeção BN Digital na FCRB - A. Ramos, 2010
Em 1891, após a morte da esposa, no exílio de Paris, D. Pedro II, em nome dela, doou os objetos da Quinta da Boa Vista (incluindo 23.000 fotografias) à Biblioteca Nacional, à época ocupando um prédio da rua do Passeio. Transferidas para o prédio atual, a maioria das fotos continuou em molduras ou álbuns, e as avulsas foram fechadas em caixas de folha-de-flandes. Abertas mais de um século depois, estas fotos, enroladas por efeito da umidade e jamais expostas à luz, apresentavam imagens bem melhores que as outras!...

Nem todas as fotos antigas tiveram tal sorte, e surgem perguntas... Devem ser apresentadas com as marcas do tempo? No tom sépia (vide postagem anterior) do envelhecimento “natural”?... Ou, desde que preservado o conteúdo, da forma mais nítida possível, com cada detalhe realçado por um “banho” de Photoshop?...
A questão, agora, brotou no Blog da Josefina, do incansável fotógrafo e comentarista, Cláudio Versiani, que compara a primeira foto a mostrar um ser humano, um daguerreótipo do próprio Daguerre (Paris, 1838), com a versão colorizada, quase psicodélica (na minha opinião...), do blog Lunarlog. 
E floresceu no Fotomix’s Weblog, de alta qualidade reflexiva sobre técnicas fotográficas, onde o autor, Guaracy Monteiro, usa o Google para mostrar múltiplas e evidentes variações de imagens bastante conhecidas. 
Concordando no geral, observo, porém, que embora algumas intervenções tendam para a pop-art, outras podem ser práticas e úteis, se não pretenderem substituir a imagem original, mas apenas “atualizá-la” ou destacar aspectos (contraste, grão etc) que acrescentem informações. Em suma, como sempre, não há certezas...

Ainda bem que há quem cuide de guardar, registrar e, uma hora dessas, possibilitar ás fotos históricas ressurgirem à nossa frente!... 
Exatamente o assunto da mesa-redonda. 
Projeção Arquivos Pessoais FGV na FCRB - A. Ramos, 2010


Martina Spohr, afirmativa, apresentou o programa de digitalização de Arquivos Pessoais da Fundação Getúlio Vargas, que pretende, ao final de 2011, ter suas atuais 80.000 fotos acessíveis para pesquisa online, com a utilização de seu próprio sistema, mais eficiente que o Picasa, detetor e identificador de faces.
Reprodução da Internet

Com graça, Lúcia Maria Velloso de Oliveira apresentou a base Iconografia da Fundação Casa de Rui Barbosa, que vem sendo integrada às bases “descritivas” do acervo, visando futura integração das pesquisas. Com imagens de Rui Barbosa, do museu e de eventos, foi aberta aos internautas em plena comemoração dos 80 anos da Casa de Rui Barbosa, no Dia Nacional da Cultura, 05/11, data do seu nascimento.

E, fechando o círculo, falou pela Biblioteca Nacional o animado trio Vinicius Martins (autor da comparação visual acima), Ângela Bittencourt e Geraldo Gonçalves, apresentando, além do trabalho de digitalização das fotos de Pedro II, o portal digital conjunto com a Biblioteca Nacional francesa e vários projetos para 2011.

Nas três instituições, as fotos estão disponíveis na Internet para cópia em baixa resolução (72dpi) ou em pdf, mas sofrem restrições para outros formatos e usos, dependendo de complicadas questões de direitos autorais, de imagem etc, que as instituições até tentam contornar. Assunto para outra postagem, talvez, mais precisamente, para uma outra legislação...

Lúcia (FCRB), Martina (FGV), Johanna (USP), Vinicius, Ângela e Geraldo (BN) - A. Ramos, 2010
Moderada pela Profa. Johanna Smit, da USP, a mesa (mais um paradoxo do dia!) não era nada redonda, e sim retangular, até bem comprida... 
Em compensação, mostrou-se profundamente envolvida, enrolada mesmo, no papel (do presente!) de um efetivo esforço de disponibilização online de acervos fotográficos, para nossa comemoração!...