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domingo, 21 de agosto de 2011

Encontros inusitados

Circula pela internet, como anexo, uma projeção de fotos que mostra encontros importantes (e muitas vezes inusitados) de artistas e políticos americanos e europeus, um PowerPoint editado (diz o crédito) por Terezinha Casalecchi (tcasalecchi@gmail.com), de Bauru.
Eis aí um mote interessante... Certamente há no Brasil, registrados pelos nossos fotógrafos, um rol de encontros inusitados ou inesperados, e pode-se lembrar aqui de alguns deles, dando preferência às áreas da política e da diplomacia, até porque, sendo nossa referência a fotografia, precisamos mesmo de algum foco...

No campo da diplomacia, encontros de primeiros mandatários são comuns, e no Brasil sempre tiveram alta prioridade as visitas dos presidentes americanos, que foram importantes, é claro, mas, sendo sempre esperadas, são assunto para outro momento...
Jânio Quadros e “Che” Guevara - Brasília, 1961

Em outros níveis, os encontros talvez surpreendam mais... Um dos mais polêmicos aconteceu em 1961, quando o presidente Jânio Quadros, conservador de direita, outorgou a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, mais alta condecoração brasileira para estrangeiros, ao esquerdista líder revolucionário (e, à época, ministro) cubano, o argentino Ernesto “Che” Guevara. Para os motivos do gesto de Jânio, que provocou um conflito com Carlos Lacerda, há várias versões: um mero gesto de amizade (Jânio, ainda candidato, esteve em Cuba em 1960), um pedido do Vaticano para intermediar a crise governo/igreja em Cuba e até um apoio secreto a John Kennedy, presidente americano...
Cabe lembrar que a renúncia de Jânio à presidência ocorreu apenas seis dias depois, em 25 de Agosto de 1961, há exatamente 50 anos.

Pelé e Robert Kennedy - foto Life, Rio, 1965
Outro encontro dos mais inusitados foi o de Robert Kennedy e Pelé, em 1965. Após assistir ao jogo entre os selecionados de Brasil e União Soviética (justamente o grande inimigo americano da Guerra Fria de então...), Robert Kennedy, virtual candidato à presidência dos EUA, acompanhado por fotógrafos (inclusive um da revista Life), desceu ao vestiário do Maracanã para se encontrar com Pelé, que, entre surpreso e divertido, o recebeu ainda ensaboado, enrolado em uma toalha!
Uma jogada de marketing?... Um trunfo diante dos eleitorados negro e latino, tentando ocupar o lugar do irmão John, assassinado em Dallas, em 1963?... Embora tenha negado a interlocutores a candidatura, Robert Kennedy, no encontro com Pelé, parece estar o tempo todo posando para um previsível futuro cartaz de propaganda. Como não há garantias, seu encontro com a morte, também por assassinato, aconteceu antes...
JK e Lacerda almoçam em Lisboa, 1966

Os encontros entre antigos inimigos políticos são, para o bem ou mal, dos mais espantosos eventos da política brasileira.
Convertido de comunista a direitista no final dos anos 30, Carlos Lacerda foi, por mais de uma década, inimigo ferrenho de Getúlio Vargas (é considerado o pivô de seu suicídio) e do seu pupilo, o futuro presidente João Goulart.

Assumidamente golpista, Lacerda, liderando a UDN e buscando apoio nos militares, tentou derrubar Juscelino Kubitschek antes mesmo de sua posse e fez novas tentativas durante o mandato.

Jango e Lacerda na Frente Ampla - Montevidéu, 1967

Candidato declarado à presidência, foi surpreendido pelo sucesso e eleição de Jânio Quadros, com quem logo se indispôs, em 1961. Pouco depois, ajudou a derrubar Jango, apoiando o golpe civil-militar de 1964, o que lhe abriria caminho para a presidência...

Com a consolidação da ditadura, aceita a sugestão indireta de JK, exilado em Portugal, de formarem uma Frente Ampla, tentativa de reunir a oposição, e se encontra com ele em Lisboa, em novembro de 1966. Diante da desconfiança de que seria o maior beneficiado, resolve se encontrar com João Goulart, exilado em Montevidéu, em setembro de 1967, atitude que também provocou reações negativas, tanto da direita quanto da esquerda.
 
Carlos Lacerda entrevista Roberto Carlos - Gil Pinheiro, 1970
Após algum esforço de mobilização, a Frente Ampla é proscrita, em abril de 1968, pelo governo ditatorial, que também decreta a cassação dos direitos políticos de Carlos Lacerda. Em 1970, Lacerda, à falta de projetos políticos viáveis, volta aos tempos de jornalista e, entre outros, entrevista Roberto Carlos na Manchete, revista de Adolpho Bloch, outro de seus antigos desafetos...

Às vezes, os inimigos se encontram, mas nem por isto se associam... Na série de depoimentos A História bem na Foto, Alcyr Cavalcanti relembra o inesperado encontro, no natal de 1982, entre Leonel Brizola, governador do Rio de Janeiro, e Roberto Marinho, proprietário das Organizações Globo.
Brizola e Roberto Marinho - Alcyr Cavalcanti, Rio, 1982
Um encontro até então inimaginável, considerando-se o papel do conglomerado Globo na tentativa de fraudar a eleição de Brizola como governador, o chamado caso Proconsult. Pelo que consta, Brizola e Roberto Marinho continuaram irremediavelmente inimigos.

Mas também é certo que as necessidades da política podem fazer milagres... O próprio Brizola, na eleição de 1989, teve que "engolir" Lula, o “sapo barbudo”, e apoiá-lo na disputa contra Fernando Collor. Um momento, aliás, em que, mais uma vez, as Organizações Globo interferiram na eleição, favorecendo Collor na edição do debate entre os candidatos. O tempo passa e Collor, depois de deposto por um impeachment (que a própria Globo apoiou), retorna à vida política, elegendo-se senador por Alagoas, e se une à base que apoia Lula, presidente desde 2002.
FHC, Lula, Collor e Sarney - André Dusek, Brasília, 2008
Em certo momento, na posse do presidente do Supremo Tribunal Federal, em 2008, o cordial encontro entre os presidentes Fernando Henrique Cardoso, Collor de Mello, Luiz Inácio Lula da Silva e José Sarney.

A política pode transcender partidos e governos e  produzirem encontros ainda mais memoráveis...
Altamente interessante é série de encontros entre o cantor popstar Sting e o lider indígena Raoni, que se estendeu da Amazônia até os principais centros urbanos do mundo, um encontro entre uma cultura intrinsecamente brasileira em ascenção e o amplo movimento de internacionalização das lutas ambientais.
Raoni no palco com Sting - Roberto Larroude, S. Paulo, 2009
Talvez, pelo que representam de preocupação com o bem comum a todos, um encontro do mais alto nível político, do maior valor simbólico.

Demonstração de uma enorme mudança de mentalidade, se o compararmos, por exemplo, a outro encontro histórico, já citado aqui, a viagem de Rondon e Roosevelt, em 1910, pelos sertões do Brasil, à procura do rio da Dúvida.
Sem dúvida, até mesmo os encontros mudam com o tempo...



Dedicado ao generoso amigo 
Marcos Vinício Ildefonso da Cunha, 
fotógrafo e livreiro, que há longo tempo sugere o tema...

terça-feira, 24 de maio de 2011

A Cultura da Natureza (e suas marcas)

Destruir a Natureza: será que faz parte da Natureza Humana?...
É certo que a Cultura separou-se da Natureza, e já lhe é superior?...
E o (ser) Humano (nós, o que cuida e o que maltrata) saberá manter-se vivo no planeta Terra?...

No momento, no Rio de Janeiro, duas belas e sensíveis exposições fotográficas tratam destes assuntos, repondo a fotografia em uma de suas mais nobres funções, a de um olhar da consciência.
 
Evidentemente, o fotógrafo J.L.Bulcão (em parceria com o designer francês Antoine Olivier), pelo que mostra em sua exposição “Guardiões da Floresta Amazônica”, acredita que sim!... 
Colheita de açaí - J.L.Bulcão, 2009

Em viagens pela Amazônia, em 2009, registraram comunidades integradas à floresta: quebradeiras de coco-babaçu, coletores de açaí, seringueiros, índios sustentados pelo guaraná... A exposição, que inclui peças de artesanato e registros de som, exalta a capacidade das comunidades de se auto-sustentarem.    

Estas preocupações decorrem das necessidades práticas... No início do século XX, as sucessivas secas que afetavam o Rio de Janeiro levaram a um pioneiro esforço de recuperação ecológica: o replantio da Floresta da Tijuca, violentamente invadida pelas fazendas de café, o novo grande negócio do latifúndio brasileiro de então.
Major Archer

Foi o Major Archer e seus seis escravos (Constantino, Eleuthério, Leopoldo, Manoel, Matheus e Maria) que lideraram esta empreitada, com mais 22 trabalhadores assalariados, plantando em 13 anos quase 100 mil mudas de espécies nativas (porém, introduziram plantas importadas, como a jaqueira, hoje dominante em grandes áreas, quase uma praga...).

Chico Mendes em Piracicaba - Pauléo, 1988

Uma causa que pode ser mortal... Sempre houve quem propusesse o empate, o aproveitamento sensato dos bens naturais, mas a engrenagem de destruição humana já levou muitos destes. Entre eles, Chico Mendes, que, enquanto lutava pela vida, antevia (como se vê na foto de Pauléo) o seu imediato destino...


Desta época, em 1865, um dos primeiros exemplos de fotografia a serviço da consciência ecológica, a foto de George Leuzinger, da Carvoaria do Palatinato Superior, em Petrópolis-RJ, conforme emocionado texto de Pedro Vasquez.   
Carvoaria Palatinato Superior, Petrópolis - George Leuzinger, 1865

Fica a pergunta: a floresta aguenta modelos econômicos mais complexos? E os que vêm de fora, aprenderão, a tempo, a preservá-la?

A exposição do fotógrafo José Caldas, presidente da AFNATURA - Associação dos Fotógrafos de Natureza, traz mais dúvidas, mas é indicação da profundidade das mudanças ambientais no Brasil.
Sugestivamente intitulada “Brasil e a Transformação da Paisagem” (o convite é uma brilhante “charge fotográfica”: um mapa do Brasil, com pobreza e futebol), é uma seleção (com curadoria de Ângela Magalhães e Nadja Peregrino) de mais de 20 anos (e vários livros) de seu trabalho, que ele chama de “documentação geográfica”.   
    
Campo de futebol na Serra da Canastra - José Caldas
Nas belas fotos, algumas em grande formato, é evidente o pesado conflito entre as atividades econômicas predatórias dos recursos naturais, que degradam a paisagem, e o crescimento da postura crítica na consciência ambiental, que ajuda a preservar reservas naturais.

O tema agora ganha belas fotos em nobres espaços, mas, afinal, quais são as fotos históricas da “transformação da paisagem” no Brasil?...

O próprio José Caldas responde, com conhecimento de causa, lembrando o desmatamento da Amazônia, da Mata Atlântica, do Cerrado: “Tudo isso tem fotos dispersas, mas não ''A'' foto!  Essas coisas acontecem lentamente, por isso a gente não nota nem reclama...”.
Mas, passado um tempo, sempre podemos perceber os gestos fundadores destas grandes tragédias ambientais ou entender que até mesmo esforços sinceros podem levar a duras destruições...

No início do século XX, a República militarista, com suas ideias positivistas, leva as expedições do futuro Mal. Cândido Rondon aos limites ocidentais do país: não havia mais dúvidas sobre a chegada da Civilização aos sertões!... Até o próprio Rio da Dúvida foi identificado, em 1914, graças à expedição em que Rondon guiou o ex-presidente americano Theodore Roosevelt aos confins de Rondônia, numa epopeia quase lhes foi fatal, em 237 dias pela Amazônia, história não podia deixar de virar livro... 
Rondon (2o à esq) lancha com Roosevelt (2o à dir) durante a Expedição, 1914.
Foi-se a dúvida: o atual Rio Roosevelt passa pelas terras dos Cinta-largas, hoje rasgadas por lavras de diamantes...

Eixos de Brasília no Cerrado - Mário Fontenelle, 1957
E, se esta ida para o Oeste, seguindo as profecias e os interesses, precisava de um marco, algumas décadas depois foi feita uma cruz no Cerrado e dela surgiu Brasília. 
O marco zero está na foto de Mário Fontenelle, considerada pelo fotógrafo e antropólogo Milton Guran, ao comentar sua obra, “a mais extraordinária fotografia do Brasil moderno, uma imagem seminal que simboliza o momento em que o brasileiro tomou posse efetiva do seu destino”.  
Momento de chegada dos “passageiros da esperança” ao Planalto e da abertura de caminhos que levariam à dominação do Cerrado e ao acesso aos mistérios da Amazônia, a expansão do poder.

Médici inaugura Transamazônica - 1970
E quanto mais incontestável é o poder, mais profundo é o golpe com que fere a Terra...
Em 1970, em Altamira, Pará, o ditador-presidente Médici inaugura uma placa de bronze, sugestivamente incrustada no tronco de uma castanheira, e com este ato marca o início oficial da construção da rodovia Transamazônica, a tal que ligava “nada a lugar nenhum”... 
Hoje, a foto lembra a destruição de grandes áreas de florestas no Pará e Mato Grosso por empresas que aproveitaram os incentivos do “milagre econômico”.

E a estes outros gestos se seguiram, e os índices das queimadas variam mas não recuam, e as diretrizes do novo Código Florestal são discutidas mas discutíveis, e, com tudo isto, a História continua...
Mas, só enquanto o ser humano estiver sobre a face da Terra.
Ou, talvez, de outras terras, espaço afora...

José Cláudio Ribeiro da Silva - Nova Ipixuna, Pará



Mais uma marca na História...

O extrativista e ativista ambiental José Cláudio Ribeiro da Silva e sua esposa Maria do Espírito Santo da Silva, ambos com 54 anos, foram executados por pistoleiros em Nova Ipixuna, Pará, no mesmo instante em que este texto estava sendo escrito...

[Saiba quem ele foi e o que pensava, clicando aqui]