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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Foto Síntese na ECO

Filipeta do evento - autor: Fábio Portugal
Com a acolhedora organização de Mathilde Molla, a ECO - Escola de Comunicação - da UFRJ desenvolveu, no período de 03 a 10 de Novembro de 2010, o evento Foto Síntese.



De início, Foto Síntese promoveu uma Oficina Fotográfica, nos dias 3, 4, 8 e 9 de Novembro, com saídas fotográficas de tema livre. É interessante notar que os alunos utilizaram câmeras analógicas, que eles mesmos revelaram os filmes PB e que fizeram, ainda, a ampliação das fotografias no laboratório da escola, uma experiência que dificilmente se repetirá em suas vidas e, aliás, nas nossas: virou História... Com as as fotos editadas, montou-se uma exposição no prédio da Central de Produção Multímidia, no próprio campus da Praia Vermelha.

Início da palestra - Mathilde Molla, 2010
Convidado a encerrar o evento, apresentei uma Palestra baseada em Foto Síntese, recente postagem deste blog, com a minha versão do tema, incluindo a apresentação de novos exemplos. 

Dante Gastaldoni - Mathilde Molla, 2010
No auditório Luiz Fernando Perazzo mais de 60 alunos, a maioria da disciplina Fotojornalismo, ministrada pelo Prof. Dante Gastaldoni, responsável acadêmico pelo evento. 

Além de fazer um apanhado das questões que envolvem as fotos históricas, expliquei meu processo de escolha de fotos sínteses, exemplificando com as relativas às primeiras três Copas do Mundo de futebol ganhas pelo Brasil. 

Geral da palestra - Mathilde Molla, 2010


No final, para a minha mais alta satisfação, não escapei de responder, dado o vivo interesse da garotada, a umas tantas perguntas sobre os percalços e os prazeres da carreira de fotojornalista, a minha e a dos outros... 

Sem dúvida, pelo menos para mim, foi muito divertido, mas o importante mesmo é que tenha sido útil (espero que sim!) aos nossos futuros jornalistas.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A Foto Síntese

O conceito, eu chamaria de foto síntese.
O Acordo Ortográfico não me autoriza o uso do hífen... Por outro lado, a junção “fotossíntese” tem outro significado, específico, não fotográfico. Fico com "foto síntese" porque, pergunto, alguém engoliria, como alternativa, por exemplo, a expressão “fotografia sintetizadora”?...

Então, foto síntese nada mais seria que (mas, reconheçamos, é muito!...) aquela fotografia capaz de fazer, de ser (para toda uma maioria de observadores) o resumo, o sumário, a síntese (evidentemente simbólica e a mais compacta possível) de algum tema, assunto, evento etc. (Hum, seria a tal imagem que vale mais que mil palavras?...)

Seja como for, a foto síntese é uma procura constante do fotojornalista. As limitações técnicas, nos primórdios da fotografia, e as limitações de espaço em veículos jornalísticos, entre outros fatores, contribuíram para que a foto síntese se tornasse uma meta (às vezes inconsciente) dos repórteres fotográficos, mais tarde meio que substituída pelo “ensaio”, em especial nas revistas, e mesmo nos jornais.

A proposta de busca de um “momento decisivo”, a la Cartier-Bresson, seria uma derivação (ou, quiçá, a origem?...) da foto síntese?... Não, acho que dá para diferenciar.
A “foto-momento-decisivo” pode até ser a foto síntese de uma situação, de uma oportunidade, mas se conforma, sob a direção do fotógrafo, com a sua habilidade e/ou sorte, à geometria do instante.
Já a foto síntese tem abrangência mais ampla (e que não se limite a escolha a um único fotógrafo...): um contexto, um ciclo, um período, um corpus fotográfico. De certo modo, muito mal comparando, a foto síntese seria o punctum (a la Roland Barthes) de todo este material...

Como um exercício aplicado à nossa temática, alguns presidentes brasileiros e as possíveis foto sínteses de cada um de seus governos (são, evidentemente, escolhas arbitrárias, mergulhadas em nuances ideológicas, mas todas possíveis outras sempre serão...).

A foto síntese de JK, período rico de acontecimentos e imagens (construção de Brasília etc), fica em aberto, poderia até ser a “Me dá um dinheiro aí” de postagem anterior...

Começo então por aquela que é, talvez, a foto mais reconhecidamente histórica de toda a  Fotografia brasileira. Foi feita por Erno Schneider em Abril de 1961 e publicada apenas em Agosto, quando o governo Jânio Quadros parecia tão indefinido quanto a direção dos seus pés na foto...

Foto de Erno Schneider - “Qual o rumo?” - 21/04/1961


Pulemos João Goulart e o seu (até visualmente) confuso mandato (Jango, ao lado da bela Maria Teresa, discursando no Comício da Central é a minha favorita) e vamos logo à dureza da Ditadura Militar... Ou melhor, como propõe Daniel Aarão Reis, à Ditadura Civil Militar.

Alguns meses depois do golpe de 1964, o fotógrafo Braz Bezerra, do Jornal do Brasil, chegando cedo a uma reunião ministerial no Palácio do Catete, flagra o Mal. Castello Branco sozinho à cabeceira de mesa vazia de ministros, fazendo uma espécie de retrato do momento do país.

Foto de Braz Bezerra - Castello Branco só na reunião ministerial - 30/12/1964

Em Dezembro de 1968, após a edição do AI-5, o mesmo tipo de foto se repete, com o mesmo simbolismo, mas agora muito mais radical...
Na edição seguinte, a revista Veja publica na capa (autoria e data não são citados no site da revista) uma foto do presidente Costa e Silva sentado, sugestivamente só, em pleno Congresso Nacional.

Foto Roberto Stuckert - Costa e Silva sozinho no Congresso - Dez/1968

Passemos rápido pelos dois seguintes governos militares, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, deixando para depois a escolha, tarefa árdua, das suas foto sínteses...
Chegamos, então, à dúbia presidência do Gal. João Figueiredo, período da chamada "Abertura". O presidente militar mantinha os óculos típicos, embora não mais usasse fardas e, sim, ternos. A foto de Jair Cardoso como que o desmascara...

Foto de Jair Cardoso - "A origem do poder" -  27/08/1981

Qual a foto síntese do inesperado governo Sarney?... E a de Collor: a de sua saída acelerada do Palácio após o impeachment?... A de Itamar não correria o risco de ser um tanto eroticamente carnavalesca?... Qual a foto síntese do intelectual Fernando Henrique Cardoso?... E a do operário-presidente Lula?...
Maior a proximidade, mas amplo o universo de escolha.E mais difusa qualquer certeza...

[Atualizado em  01/05/2024]