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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Corpos críticos: a fotografia do morto

            O feriado de Corpus Christi (um dos vários eventos religiosos que são contraditoriamente oficializados como tal em um país formalmente laico), além de se encaixar bem em um período de poucas folgas, sugere reflexões um tanto fúnebres...
É momento em que, através de uma das suas pretensas manifestações divinas, como em outras religiões, o corpo humano, hoje desbragadamente presente em enxurradas de imagens contemporâneas, é realçado de maneira simbólica, dado como transubstanciado através de símbolos religiosos católicos, a hóstia e o vinho.
            Esta invenção medieval, tornada obrigação canônica no âmbito da igreja católica, produz, no Brasil, o visual mais popular do feriadão, em jornais e noticiários de TV, a dos tapetes artesanais, de variadas substâncias, passarelas para as procissões. E lembra também a verdadeira procissão de fotografias de defuntos da Fotografia brasileira.
            Se na religião a hóstia e o vinho são meios de sublimação do corpo, a fotografia, na História, é capaz de torná-lo (visualmente) concreto, manter viva a sua presença para quem se distancia no espaço ou no tempo. A lamentar, aqui, o possível impacto das imagens...
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Criança morta - Militão Augusto de Azevedo - São Paulo, 1877
Logo de início, no século XIX, surge um hoje impressionante costume, a foto daquele que morreu antes de ser fotografado... Com poses “naturais” (isolado ou em companhia de parentes), estas fotografias são uma pungente “solução” para a perda e futuro esquecimento do ente querido, e mais doem quando retratam crianças (saiba mais no artigo de Luiz Lima Vailati).          
 
Pedro II morto - Félix Nadar - Paris, 1891
Pedro II - Nadar - Paris, 1891 (foto original)
            As questões do poder, e não só da memória familiar, também podem exigir, com o devido cuidado, que seja feita a foto do morto. Um bom exemplo é a do corpo de D. Pedro II em seu leito de morte, vestido com o uniforme de Marechal do Exército. O detalhe é o livro sob a cabeça, que, de simples recurso do fotógrafo Nadar para elevar o tronco do Imperador defunto (cf. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, de Lilia Moritz Schwarcz, pg. 489), passa a ter um alto simbolismo, o de que “sua mente repousa sobre o conhecimento mesmo na morte” (conforme legenda da foto na Wikipédia).

Pode ser que justamente os inimigos, e não os admiradores, precisem da foto do morto... Perseguido tanto pelo governo republicano quanto pela igreja católica, Antonio Conselheiro, que era o guia místico de milhares de seguidores no arraial de Canudos, Bahia, na última década do século XIX, só tem uma foto conhecida, de 1897: foi desenterrado duas semanas depois de sua morte, após uma guerra que durou dois anos, para ser identificado e só então foi fotografado... 
Antonio Conselheiro - Flávio Barros - Canudos-BA, 1897

Wladimir Herzog morto na cela, 1975
            O fato é que a fotografia impactante do cadáver sempre que pode ser útil é apresentada à sociedade, muitas vezes como suposta “prova” de discutíveis certezas...  A ditadura civil-militar do golpe de 1964 foi useira e vezeira nesta prática, caso os corpos não desaparecessem “acidentalmente”... Entre estas fotografias estão a do corpo baleado de Marighella dentro de um fusca, em São Paulo, em 1969, e a de Lamarca e Zequinha, guerrilheiros mortos no interior da Bahia, em 1971. Mas talvez a foto mais significativa a série, quanto aos efeitos posteriores, seja aquela em que Vladimir Herzog aparece enforcado com a própria gravata em uma cela do DOI-CODI paulista, em 1975. Um suicídio tão evidentemente falso, que foi imediatamente desconsiderado pela comunidade judaica, que não lhe negou sepultura, e logo depois pela Justiça, que condenou o regime militar por seu assassinato ainda durante a vigência do AI-5. 

No geral, a imagem explícita do morto, no correr do século XX, passou a frequentar quase que exclusivamente as páginas policiais (com raras exceções, como rostos de celebridades, com expressão suave, envoltas em flores, em seus caixões). Só os jornais do tipo “espreme que sai sangue” continuaram fazendo questão de mostrar a violência nua e crua dos conflitos sociais. 
 
Vila do João, Rio de Janeiro - Evandro Teixeira, 1998
Conseguir uma imagem sensível de uma chocante cena de morte é um dos grandes desafios para os fotojornalistas, e nisto os brasileiros, sem dúvida, são dos melhores. Certamente, não é uma questão meramente profissional: o povo brasileiro parece afirmar (como diz a música De frente pro crime, de João Bosco, e demonstra a foto de Evandro Teixeira) que a morte (que faz parte...) não consegue impedir (por mais incrível que pareça...) a alegria de viver.

Agradeço à fotógrafa e historiadora Vera Sayão 
pelas sugestões em torno do tema.