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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Falsificações, fraudes e farsas: nas fotos e na imprensa

Embora o senso comum tenda a ver como “realistas” as chamadas “imagens técnicas” (aquelas obtidas com o uso de algum equipamento entre o “apertador do botão” e a “realidade”, como fotografia e vídeo, para simplificar), não custa lembrar, neste 1º. de Abril, o quanto estas imagens podem ser mentirosas.
Algum tipo de manipulação sempre há, em qualquer fotografia, escolhas têm que ser feitas... Pode ser por parte do fotógrafo, ao escolher o ângulo ou a lente, ou do editor, quando opta por uma foto em vez de outra ou acrescenta uma legenda tendenciosa, entre outras figuras e possibilidades. De fato, a fotografia não é necessariamente um “espelho dos fatos”...

A primeira publicação, no Brasil, a imprimir fotografias de forma mecânica (sem intermediação de um gravurista) em edições sucessivas foi a Revista da Semana, lançada em maio de 1900.
As fotografias “realistas” impressionavam, mas os editores também apelavam, talvez contando com a ingenuidade dos leitores, poucos acostumados com fotografias... No n° 6, de 24 de Junho, a foto “Tentativa de Assassinato”, uma evidente encenação, ocupava toda a capa, enquanto a legenda, um tanto exagerada, dizia: “O coronel Horacio de Lemos atacado em pleno dia na Rua dos Ourives. Photographia instantanea apanhada casualmente por um dos nossos photographos”...


 
Outro recurso usado em certas circunstâncias (queda de vendas, em especial...) é a, digamos, “invenção da realidade”. Foi o que aconteceu em maio de 1952, quando a revista O Cruzeiro (que tinha em seu histórico alguns casos assemelhados), publicou as primeiras fotos de OVNIs do Brasil, em um encarte "Extra", sob o título "Disco Voador na Barra da Tijuca"!

As fotos são de Ed Keffel e texto de João Martins, que até aparecem na revista, examinando os negativos das fotos, feitas em uma Rolleiflex. Um sucesso nada modesto... Diz a reportagem: "O Cruzeiro apresenta, num furo jornalístico espetacular, a mais sensacional documentação jamais conseguida sobre o mistério dos discos voadores. O estranho objeto veio do mar, com enorme velocidade, e foi visto durante um minuto, de cor cinza-azulado, absolutamente silencioso, sem deixar rastros de fumaça ou de chamas. Relato completo da fascinante aparição na Barra da Tijuca". 
 
Curiosamente, os ufólogos são gratos à reportagem porque, objetivamente, apresentou o tema aos brasileiros: “A ufologia no Brasil começou com uma grande fraude”. Ironicamente, oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB) investigaram e produziram um relatório que confirmava a autenticidade das imagens, que são apenas fotomontagens.
A polêmica correu mundo, mas, a revista Ciência Popular, que logo duvidara, declarou oficialmente, em sua edição nº 76 (janeiro de 1955), que as fotos eram falsas. João Martins ainda voltou a se defender, em O Cruzeiro (outubro de 1959), no artigo “Revelado o segrêdo da Barra da Tijuca”, até que uma autoridade, o diretor da Ground Saucer Watch, William H. Spaulding, garantiu, em 1981, que as fotos eram forjadas porque “havia divergência nas sombras”.



Em compensação, a fotografia pode exercer importante papel para restituir a verdade e isto parece mesmo muito mais importante, como nas perícias e quando denuncia farsas...

Em 1989, Brasil e Chile se enfrentavam num Maracanã lotado, pelas eliminatórias da Copa do Mundo da Itália, e, em caso de derrota, a seleção brasileira seria eliminada.
Aos 24m do segundo tempo, Brasil vencendo por 1 x 0, a torcedora Rosenery Mello do Nascimento, 24 anos, disparou um sinalizador, de uso naval. A chama atingiu o gramado muito perto do goleiro chileno Roberto Rojas, que se jogou no chão e simulou ter sido atingido. Os chilenos se retiraram do campo revoltados, o goleiro, ensanguentado, sendo carregado. O juiz argentino Juan Lostau encerrou a partida após aguardar os chilenos por 20 minutos. Imagens de TV e especialmente uma foto de Jorge William provaram que o sinalizador não atingiu o goleiro, o qual levara a campo uma lâmina escondida na luva, com a qual, ao cair, cortou o próprio supercílio, o que foi confirmado pelos exames de corpo de delito, que também não encontraram vestígios de pólvora (veja vídeo). A fotografia, intitulada “A farsa chilena”, deu a Jorge William o Prêmio Esso de Informação Esportiva de 1990.
O Brasil foi declarado, pela FIFA, vencedor do jogo pelo placar de 2 x 0, pelo abandono de campo da equipe chilena. A então estudante Rosenery, torcedora do Fluminense, virou celebridade: deu entrevistas, foi a programas de tevê, esteve no Jô Soares e chegou a posar para a Playboy, em novembro de 1989. Tudo isto (vide site Achix) lhe rendeu casa e carro novo e viagens, até que ela “se aposentou”, casou e virou dona de casa...



Em suma, há falsificações, fraudes e farsas de todos os tipos na história do fotojornalismo e na imprensa... E, muitas vezes, o fotojornalista faz o seu melhor, “corre atrás”, mas, como a fotografia é "neutra", a sua colocação nestas histórias acaba dependendo muito mais do veículo de comunicação e das suas relações com as instâncias de poder. 


Como no caso da foto de Evandro Teixeira, feita na madrugada de 1º de abril de 1964, na tomada do Forte de Copacabana por tropas do golpe militar que se autoproclamou “Revolução de 31 de Março”: “Nessa noite, o telefone tocou na minha casa, do outro lado da linha estava o capitão Leno, meu amigo de vôlei de praia, dizendo que o Forte estava sendo tomado. Peguei a minha Leica e fui para lá. Com a ajuda do capitão, consegui entrar com a máquina escondida por debaixo da camisa e dessa maneira pude fotografar a movimentação dos militares debaixo de uma chuva torrencial. Até pensaram que eu fosse fotógrafo do Exército Brasileiro! Pouco depois, o general Castello Branco chegou e senti que era hora de deixar o recinto”.  
Fonte: Image & Vision.


E já que estamos falando de variadas forma de mentiras, enganos e engodos em torno deste momento (leia mais no link), é sempre bom lembrar as manchetes de alguns jornais bem em cima do golpe...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A Foto Síntese

O conceito, eu chamaria de foto síntese.
O Acordo Ortográfico não me autoriza o uso do hífen... Por outro lado, a junção “fotossíntese” tem outro significado, específico, não fotográfico. Fico com "foto síntese" porque, pergunto, alguém engoliria, como alternativa, por exemplo, a expressão “fotografia sintetizadora”?...

Então, foto síntese nada mais seria que (mas, reconheçamos, é muito!...) aquela fotografia capaz de fazer, de ser (para toda uma maioria de observadores) o resumo, o sumário, a síntese (evidentemente simbólica e a mais compacta possível) de algum tema, assunto, evento etc. (Hum, seria a tal imagem que vale mais que mil palavras?...)

Seja como for, a foto síntese é uma procura constante do fotojornalista. As limitações técnicas, nos primórdios da fotografia, e as limitações de espaço em veículos jornalísticos, entre outros fatores, contribuíram para que a foto síntese se tornasse uma meta (às vezes inconsciente) dos repórteres fotográficos, mais tarde meio que substituída pelo “ensaio”, em especial nas revistas, e mesmo nos jornais.

A proposta de busca de um “momento decisivo”, a la Cartier-Bresson, seria uma derivação (ou, quiçá, a origem?...) da foto síntese?... Não, acho que dá para diferenciar.
A “foto-momento-decisivo” pode até ser a foto síntese de uma situação, de uma oportunidade, mas se conforma, sob a direção do fotógrafo, com a sua habilidade e/ou sorte, à geometria do instante.
Já a foto síntese tem abrangência mais ampla (e que não se limite a escolha a um único fotógrafo...): um contexto, um ciclo, um período, um corpus fotográfico. De certo modo, muito mal comparando, a foto síntese seria o punctum (a la Roland Barthes) de todo este material...

Como um exercício aplicado à nossa temática, alguns presidentes brasileiros e as possíveis foto sínteses de cada um de seus governos (são, evidentemente, escolhas arbitrárias, mergulhadas em nuances ideológicas, mas todas possíveis outras sempre serão...).

A foto síntese de JK, período rico de acontecimentos e imagens (construção de Brasília etc), fica em aberto, poderia até ser a “Me dá um dinheiro aí” de postagem anterior...

Começo então por aquela que é, talvez, a foto mais reconhecidamente histórica de toda a  Fotografia brasileira. Foi feita por Erno Schneider em Abril de 1961 e publicada apenas em Agosto, quando o governo Jânio Quadros parecia tão indefinido quanto a direção dos seus pés na foto...

Foto de Erno Schneider - “Qual o rumo?” - 21/04/1961


Pulemos João Goulart e o seu (até visualmente) confuso mandato (Jango, ao lado da bela Maria Teresa, discursando no Comício da Central é a minha favorita) e vamos logo à dureza da Ditadura Militar... Ou melhor, como propõe Daniel Aarão Reis, à Ditadura Civil Militar.

Alguns meses depois do golpe de 1964, o fotógrafo Braz Bezerra, do Jornal do Brasil, chegando cedo a uma reunião ministerial no Palácio do Catete, flagra o Mal. Castello Branco sozinho à cabeceira de mesa vazia de ministros, fazendo uma espécie de retrato do momento do país.

Foto de Braz Bezerra - Castello Branco só na reunião ministerial - 30/12/1964

Em Dezembro de 1968, após a edição do AI-5, o mesmo tipo de foto se repete, com o mesmo simbolismo, mas agora muito mais radical...
Na edição seguinte, a revista Veja publica na capa (autoria e data não são citados no site da revista) uma foto do presidente Costa e Silva sentado, sugestivamente só, em pleno Congresso Nacional.

Foto Roberto Stuckert - Costa e Silva sozinho no Congresso - Dez/1968

Passemos rápido pelos dois seguintes governos militares, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, deixando para depois a escolha, tarefa árdua, das suas foto sínteses...
Chegamos, então, à dúbia presidência do Gal. João Figueiredo, período da chamada "Abertura". O presidente militar mantinha os óculos típicos, embora não mais usasse fardas e, sim, ternos. A foto de Jair Cardoso como que o desmascara...

Foto de Jair Cardoso - "A origem do poder" -  27/08/1981

Qual a foto síntese do inesperado governo Sarney?... E a de Collor: a de sua saída acelerada do Palácio após o impeachment?... A de Itamar não correria o risco de ser um tanto eroticamente carnavalesca?... Qual a foto síntese do intelectual Fernando Henrique Cardoso?... E a do operário-presidente Lula?...
Maior a proximidade, mas amplo o universo de escolha.E mais difusa qualquer certeza...

[Atualizado em  01/05/2024]