quinta-feira, 30 de junho de 2011

O desenrolar da paisagem

A paisagem está em todo lugar, ela é necessariamente onipresente...
E também está, desde o início, na fotografia!... A primeira de todas as fotografias é a paisagem que o autor, Nièpce, via da janela de seu laboratório. Afinal, era mesmo necessário um modelo relativamente fixo: precisou de oito horas de exposição para registrar a foto!
Cais da Praia do Peixe - Louis Compte - Rio de Janeiro, 1840

Não por acaso, as mais antigas fotografias brasileiras também registram paisagens... São daguerreótipos (imagens únicas, em placa de metal), feitos pelo abade Compte, divulgador da técnica em viagem do navio-escola franco-belga L’Orientale, em Salvador, Bahia, dezembro de 1839 (desaparecidas), e no Rio de Janeiro, janeiro de 1840. Além do Paço Imperial e do Chafariz de Mestre Valentim, temos a paisagem do cais da extinta Praia do Peixe, com o prédio da Alfândega (atual Casa França-Brasil) e o mosteiro de São Bento.



São muitos os paisagistas do Império, é uma lista longa, a maioria estrangeiros, e há uma profusão de livros a respeito. O maior deles, sem dúvida, é o brasileiro Marc Ferrez, filho do franceses, cuja especialidade sempre foi a fotografia de paisagem, a ponto de (aproveitando os longos tempos de exposição das fotos e se posicionando várias vezes) se colocar dentro dela!  

Autorretrato com panorama do Rio de Janeiro - Marc Ferrez, 1885
Já no século XX, dos anos 30 aos 50, outra grande leva de fotógrafos estrangeiros, em parte escapulindo das guerras europeias, mas também atraídos pelas paisagens brasileiras, trouxe contribuições importantes, não só à fotografia como a toda nossa imprensa, dando novos padrões visuais às revistas ilustradas. 
Bagé, RS - Fulvio Roiter, 1957
Um bom exemplo pode ser visto na exposição de fotos de Fulvio Roiter, um dos maiores fotógrafos italianos vivos, que, em 1957, viajou todo o Brasil fotografando para a revista Manchete. Uma verdadeira síntese do país, que, com curadoria de Cristianne Rodrigues e Milton Guran, do FotoRio 2011, pode ser vista até 17 de julho no Centro Cultural dos Correios.

De meados do século XX para cá, o suporte da imagem torna-se cada vez mais sensível e as câmeras podiam ficar cada vez menores (e mais leves), ia dando a impressão, chegando nos anos 90, de que a fotografia de paisagem estava resolvida, seria questão apenas de escolha do ângulo e do momento. Mas, eis que chega a revolução digital... 

A fotografia – a princípio, um objeto bidimensional (com altura e largura, que apenas simula profundidade) – já tivera uma “expansão” no início do século XX, pela inserção do tempo (o hábil truque da sucessão de quadros ligeiramente diferentes), resultando no cinema. Com a informática, vem uma nova ampliação dos seus limites, agora no espaço: através de softwares que as encaixam, são criadas as chamadas fotografias “esféricas” ou “imersivas”, aquelas em que a imagem pode ser vista em virtuais 360º.
Rio em 360º - Ayrton, 2006
Cabe até a pergunta: isto ainda é fotografia ou já estamos em outro suporte?...

Como exemplo [imagem fixada, clique no título para ver], o Rio de Janeiro em 360º, uma foto (ou o quê?...) do fotógrafo Ayrton, um dos mais produtivos nesta linha de trabalho. E a esta altura não estamos falando apenas de paisagens: já são feitos assim, por exemplo, casamentos e reportagens... 
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3D na cidade - Mario Amaya, 2010



E os novos recursos não param por aí... Fotógrafos comerciais já oferecem fotos em 3D, embora a gente não saiba ainda muito bem aonde conseguir os tais óculos especiais com lentes bicolores...

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E, de repente, inventam a foto “animada”, batizada de “cinemagraph”, um bom aproveitamento de um recurso comum na internet, os “gifs”... 
Sinal.- Daniel Farjoun, 2010

[Se o sinal não mudar de cor, veja aqui


Ainda é fotografia?...
Pode ser, mas, reconheçamos, há, enquanto ainda usamos a base em papel, ao menos uma limitação: quando a foto é impressa, o movimento some...


De qualquer modo, a fotografia tem muita história pela frente.
Ou será que aquela coisa que conhecemos como “fotografia” já está na hora de entrar para a História?...





Grato ao fotojornalista Masao Goto Filho
pelas informações de ordem técnica.

19 comentários:

Isabel Cristina Bandeira disse...

E atraves da fotografia, podemos dar prosseguimento a historia
Bjs
Bel

Marcos Vinício Cunha disse...

Muito bom.
abs, Marcos

Joana (Jô) disse...

Olá Guina,
Não dá pra ficar adiando em dizer o quanto te sou grata pelo seu trabalho. Deus te abençoe plenamente!!!!!!! É uma contribuição incomensurável ao nosso conhecimento e nossa emoção: muito, muito obrigada mesmo. Não sei se vc conhece a Serra da Beleza , q fica acima de Conservatória, pois é, qd lá estive chorei mt e agradeci ao CRIADOR por tamanha beleza q eu pudera ver. O mesmo acontece às vezes com suas fotografias - esta de hoje, com o Cristo Redentor circundado por esta imensidão de verde... caramba, q maravilha!!!- que me levam à recomendar a mts dos meus ex-alunos, amigos e família , não só como subsídios para seus trabalhos, como tb como aprendizado e muitíssimo mais, como algo q podemos ver e então fazer chegar aos nossos corações.
Tá valendo!!!!!!!!!!!
Parabéns!!!!!!
Bj Joana

Aguinaldo Ramos disse...

Puxa, Jô,
que bonito!
Acho que nunca recebi um comentário tão emocionante qto este...
Eu tb me sinto abençoado por ter a chance de repassar o trabalho de tantos fotógrafos talentosos, os de agora e os de antigamente. Acho que isto me faz mais bem do mostrar minhas próprias fotos.

Joana (Jô) disse...

É verdade, Guina,
tenho acompanhado seu trabalho sempre q posso, desde q tomei conhecimento do blog.
Por ex achei um barato a inserção de pessoas em fotos super antigas, o Cristo morto, e o q me causou um sentimento q não sei explicar, a do Vladi enforcado, caramba!, já estava esmaecida na minha memória.
E a foto tem também esta função, a de manter viva nas nossas memórias não só as belas paisagens mas os fatos de nossa História, e,ainda mais qd ainda jovem a gente viveu esse momento, a emoção é mt, mt gd.
Aqui em casa o blog já tem um admirador e consultor: meu filho Samuel, legal, né?
Outra vez, mt obrigada.

José Inácio Parente disse...

Guina querido,
Quanta produção e que qualidade e carinho pela Fotografia.
Como contribuição e como homenagem, estou lhe mandando um artigo que escrevi há uns 3 meses.
É um texto que fiz a pedido da Fundação Joaquim Nabuco para um livro comemorativo da fundação, onde constará uma seleção de 500 lindas fotografias extraídas de uma coleção de mais de 17 mil imagens de famílias privilegiando especialmente fotógrafos e famílias do Nordeste no período de 1850 a 1920. Eu já havia pesquisado essa coleção há uns 4 anos e fiquei impressionado.

Espero que você goste. O livro vai sair em setembro.
Um abraço,

José Inácio

Aguinaldo Ramos disse...

Grato, José Inácio.

Não posso dividir com todos o seu texto, mas posso lembrar que parte desta coleção está exposta no Museu de Belas Artes, pelo FotoRio: “Um retrato da sociedade brasileira”
http://www.fotorio.fot.br/2011/exposicoes.asp?cdt=3&cdl=289

E vamos aguardar o seu livro!

Bananal, my history, my city, my life. disse...

Obrigada pela visita e por nos seguir. Adorei seu blog! Tudo de bom!

Mathilde Molla disse...

Guina,
mais uma vez parabéns pelo blog.
bjs e bom final de semana
Mathilde

Teócrito Abritta disse...

Muito interessante este histórico da Fotografia de Paisagem, lembrando que a Fotografia de Natureza chegou a ser considerada uma arte menor principalmente no mundo da propaganda e de estúdio. Hoje tem sido mais valorizada devido a recursos tecnológicos como é mostrado neste artigo. Eu, em particular, sou um entusiasta deste tipo de fotografia exatamente por sua imprevisibilidade como condições climáticas, políticas etc.
A foto de Marc Ferrez “Autorretrato com panorama do Rio de Janeiro” merece um estudo técnico mais apurado, por uma equipe interdisciplinar, pois na sua execução devem ter sido usadas complexas combinações de máscaras, várias tentativas e erros, bem como uma grande experiência na avaliação das exposições.

Aguinaldo Ramos disse...

Tem toda razão, Teócrito!
Temos belas fotos de paisagens, mas parece que não chegamos a ter o nosso Ansel Adams...
Qto à foto do Marc Ferrez, lembrava dela, mas, ao publicar (inventando este título brincalhão), tb fiquei encucado com a técnica: não é só uma questão de aproveitar os longos tempos de exposição da época...
Merece mesmo uma boa análise, quem se habilita?...

Nilson Roberto disse...

Gostei do conteúdo, da contextualização e sobretudo da atualização. Parabéns para o trabalho " foto histórica". Felicitações ao Guina, "o poeta da fotografia"....
Até
Nilson

Fayra Batista disse...

FANTÁSTICO!!!
NESSAS HORAS DESCUBRO POR QUE TROQUEI A ECONOMIA PRA SER PROFESSORA DE HISTÓRIA!

Marcel W. Alves disse...

Parabéns, saúde e felicidade.
Tenho visitado seu blog e curtido os artigos.
Quanto às fotos com novas tecnologias, eu gosto, mas me amarro em foto preto e branco, em sépia e com toda a magia que o fotografo nela imprime, parabéns !

Joana (Jô) disse...

Só para te esclarecer, o título "Cristo morto" foi dado pelo conjunto de senhorinhas de um trabalho voluntário que faço. Quando é possível vamos à sala do computador (as q podem subir escadas...) e abro o YouTube para q elas vejam as coisas interessantes q recebo, assim como td o acho q devo mostrá-las. Quando mostrei as fotos dos mortos, foram muito engraçados os comentários e o que ficou mais forte foi a do Antonio Conselheiro, pois não houve jeito de contrapor, e para a maioria aquela foto "não é de pessoa: é do Cristo morto". Contei rapidamente a sua história e como foi feita a foto, mas não adiantou!! E assim ficou; assim como a do Brizola pulando a fogueira, que muitas não acreditaram ser ele: "ele não faria isso" - disseram.
As vzs td é mt engraçado!

Leonardo Fuks disse...

Oi Guina,
seu site/blog/visomundo é maravilhoso, adorei e voltarei muitas vezes.
Abraços,
Leo Fuks

Eduardo Cantanhede disse...

Bravo. Perfeitas. Parabéns.

Vladimir Machado disse...

Grande Guina: não tenho visitado muito o PC mas acessei o teu trabalho de pesquisa da Foto Histórica, leve e rico de informações.
O universo da fotografia e dos fotógrafos estão honrados com o teu blogspot.
Um abraço daqueles quebra-costelas,
vladimir

AYRTON 360 disse...

Cara, eu toda vez que recebo teus emails entro no blog
mas não tinha visto essa última não
e ADOREI

Super obrigado pela menção
Fiquei contente :-)

360 abraços
Ayrton