sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Perfis e Autorretratos

Entre as boas preliminares de um trabalho como este (refletir sobre fotos históricas) está o exercício, no bom sentido, da inversão de sentido.
Por exemplo, centralizar a atenção em formas e estilos fotográficos menos usuais e deixar que isto oriente a pesquisa das fotos, mas sempre mantendo, nas escolhas, a ênfase no reconhecimento social (ou seja, no valor histórico) da fotografia...
É assim que se chega a este rápido passeio por perfis e autorretratos, categorias tão contraditórias que, aparentemente, só parecem ser parecidas nas atuais redes sociais digitais...

Magalhães Pinto - Orlando Brito, Brasília, s/d
Obter do perfil fotográfico (ou, para generalizar, do contorno ou silhueta) uma marca perfeitamente reconhecível é, dentre as possíveis artes da fotografia, mais uma arte... Muito especialmente, na área do fotojornalismo, em que, por limitações técnicas ou de tempo, predomina o improviso, outra arte intrínseca à fotografia...
Há, na silhueta, assinaturas. São tanto a do fotógrafo quanto a de uma excentricidade qualquer da figura do fotografado. Perceba-se ainda a necessidade de negociação (ou observação) em termos de ângulos e enquadres, de um lado, e de posturas e intenções, de outro. Acima de tudo (e entre eles), o definitivo recurso da fotografia: a luz.

Para demonstrar, busquei uma foto que tinha na cabeça, aquela em que Orlando Brito registrou, no contraluz, apenas um fio de luz envolvendo justamente a cabeça de Magalhães Pinto, banqueiro e político mineiro, um dos líderes civis do movimento que resultaria no golpe de 1964 (leia aqui).

Certamente uma escolha feliz, a do fotógrafo!... O reconhecimento por parte do leitor (ao menos, o da época...) é garantido: o formato e a "lisura" da cabeça garantem o resultado, a “assinatura’ do fotografado está explícita. 
 
Magalhães Pinto e Vavá - Rogério Reis, Rio, c.1979
Tanto que, no caso, o contraluz, elemento fundamental na foto de Orlando Brito, é dispensável!... 
Fato que fica evidente na fotografia de Rogério Reis, do final dos anos 70, quando Magalhães Pinto, com seu poder político em queda (em paralelo ao esperado fim da ditadura), foi “recepcionado”, na praia de Botafogo, no Rio, por um típico “popular” brasileiro, o Vavá (como conta o autor).
A foto pelas costas, que seria desvalorizada em uma reportagem comum, torna-se exaltação da identidade do conhecido político, um elemento que o próprio gesto do popular ressalta... 
Ulisses Guimarães - Orlando Brito, Brasília, 1992

Eis que, à procura da primeira foto, a de Orlando Brito, ao navegar por Com a palavra, a Fotografia, excelente blog em que conta histórias de muitas das suas, uma outra imagem, do mesmo tipo, se destacou: o perfil de Ulisses Guimarães. 
É o próprio fotógrafo quem dá a esta foto peso histórico (por acaso, feita no dia de aniversário de Ulysses, 6 de outubro de 1992), associando-a a uma possível premonição: “Confesso que o resultado da imagem me impressionou. Era forte, não tinha a ver com a serenidade daquele momento. Seis dias depois, a trágica notícia do desaparecimento de Ulysses” (leia mais aqui).

E falando de improviso, cabe registrar a habilidade do fotógrafo... O contorno de Magalhães Pinto aproveita a luz de filmagem da TV, em uma entrevista; o perfil de Ulisses, a longínqua luz do por do sol, no saguão de um prédio em Brasília.

O caso dos autorretratos é bem diferente...
Um fotógrafo, ao se retratar, não dá à foto maior importância, seja qual for a pretensão... Salvo outras injunções, das não fotográficas, não haverá motivos para considerá-la histórica.
A menos que o fotógrafo tenha certa importância social. Que seja, por exemplo, um imperador: algumas das fotos em poses formais de D. Pedro II, efetivo fotógrafo, são autorretratos.
Ou, então, quando o autorretrato é tão surpreendente para a época (e, pensando bem, até hoje) que se tornou um marco na fotografia brasileira, especialmente por não ser apenas um autorretrato, mas vários em um...
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Os trinta Valérios - Valério Vieira, São Paulo, 1901


Trata-se da fotomontagem “Os trinta Valérios”, a imagem de um incrível sarau em que o autor, Valério Vieira, se reproduz em todas as presenças, até as da parede e sobre o piano... Formado na Escola de Belas Artes do Rio, Valério tornou-se fotógrafo em São Paulo em 1880, onde inovou com retratos de formatura e grandes panorâmicas da cidade.
Este múltiplo autorretrato, produzido em 1901 (muito antes do Photoshop...) e premiado na Feira Internacional de Saint Louis, EUA, de 1904, foi montado com o uso de dezenas de negativos, ampliados cuidadosamente, na escuridão do laboratório fotográfico, em posições e proporções precisas.

Em todos os casos, os fotógrafos se valem da oportunidade e da criatividade, matérias primas da fotografia.
 
[Orlando Brito faleceu em 11/03/2022.]

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Catástrofes “naturais”: as imagens simbólicas

O ser humano é um risco no mundo...
Em tempo de catástrofe ambiental, uma enxurrada de fotos altamente realistas mostra praticamente todos os detalhes dos acontecimentos, trazidos à vista de todos, produto de um grande esforço de trabalho dos fotojornalistas, sem contar os colaboradores espontâneos da imprensa... 
No entanto, passado um certo tempo, as que ficam (e, por isto, se tornam históricas) são as mais simbólicas, não as mais cruéis e exatas ...

Historicamente, as notícias são centradas no que se entende como excessos da natureza contra os esforços de sobrevivência (ou de progresso...) do ser humano. 

O capítulo relativo às chuvas, por exemplo, é vasto: no Rio de Janeiro, há registros de enchentes desde 1711... 
Os fotógrafos sempre se esforçaram por registrar tudo, mas uma das únicas fotos neste tema que ganhou  Prêmio Esso foi a de Carlos Mesquita, do Jornal do Brasil (a anterior, de Antonio Andrade,  1967, é uma cena de ação), é uma espécie de "retrato" das consequências das chuvas de verão de 1982 em Petrópolis-RJ: a foto do rapaz de apenas 14 anos que trazia no colo o corpo de um menino retirado instantes antes dos escombros de um desabamento e dizia "ele está morto, ele está morto"...
Chuvas de verão em Petrópolis, RJ - Carlos Mesquita, 1982

Resultou numa primeira página forte, a foto atravessando toda a parte superior do jornal, muito discutida, alguns achando que, excessivamente chocante, não deveria ter sido publicada. O mérito do autor é ter substituído, no ato fotográfico, o drama coletivo, o conjunto confuso de escombros e esforços, por um singelo mas definitivo retrato da fragilidade humana.

As secas, historicamente frequentes no Nordeste, cada vez mais comuns no Sul, são outras das catástrofes “naturais” continuamente fotografadas no Brasil.
A seca do Ceará foi assunto, em 1878, da nossa primeira fotorreportagem, em fotografias de alta carga simbólica, as famélicas crianças fotografadas em estúdio.
Em 1983, mais de um século depois, nova versão: a foto de Delfim Vieira, também do JB, mostrando o alimento disponível para o sertanejo, um calango. 
Calango mata fome no Ceará - Delfim Vieira, 1983 

A foto foi feita em Apuiarés-CE, depois do prefeito declarar na TV que, para sobreviver, o povo estava comendo calangos (nome local para um tipo de lagartixa). Da ida à região resultou a foto de “um homem muito enrugado e muito magro, que nos mostrou o produto de um dia de caça: um calango morto com atiradeira, pronto para virar torresmo e ser comido em pedacinhos, com farinha, por toda uma família” (leia depoimento).
A foto, publicada no alto da primeira página do jornal, torna-se um resumo simbólico da seca pela “objetividade” da imagem. Nela, apenas duas informações: o que é um calango e em que condições estava o homem que se dispunha a comê-lo. Uma economia de dados que só aumenta o impacto da imagem...

Mas, nem sempre o ser humano é mera vítima da natureza, caso se insista nesta separação...
Cada vez mais, a catástrofe é provocada pelo ser humano. E, mais uma vez, a imagem que fica, sendo um resumo objetivo do momento, se torna, no tempo, uma referência simbólica.
É o caso da foto de Domingos Peixoto, publicada em O Globo, em janeiro de 2000, da agonia de uma ave coberta de petróleo, consequência do derramamento de petróleo na baía de Guanabara, advindo da refinaria da Petrobras, em Duque de Caxias-RJ.
Derrame de petróleo na Guanabara - Domingos Peixoto, 2000

Sem dúvida, a imagem mais marcante de mais um desastre ambiental, entre tantas e tantos...

De catástrofe em catástrofe, o fotojornalista traça a crônica da sobrevivência humana.
A seleção de fotos simbólicas, no entanto, mostra apenas uma pequena parte da história da insensatez humana.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

“Bonecos” da História: o retrato das negociações

O fotojornalismo também tem seus bonecos, mas não é brincadeira não...
”Fazer um boneco”, no jargão fotojornalístico, é tarefa relativamente pouco valorizada pelos repórteres-fotográficos empregados na imprensa, funcionários de um jornal diário. Disputando espaço nas páginas, não é de estranhar que desenvolvam alguma resistência à tarefa, para eles prosaica, de tirar retratos, de “fazer bonecos”...
Para fotógrafos de revistas, o retrato é tarefa mais habitual e mais valorizada. A principal fotografia de uma edição pode ser um retrato, muito frequentemente a própria capa, e poderá ter vida longa, em muitas reproduções.
Para o fotógrafo, como parte das negociações para um bom retrato, surge a questão do aproveitamento das condições reinantes ou a invenção das próprias...
Pixinguinha - Walter Firmo, 1968

 Um ótimo exemplo da observação do ambiente e da sua apropriação no retrato é a foto do músico e compositor Pixinguinha em sua casa de Ramos, feita por Walter Firmo, em 1968, para a revista Manchete.
O próprio Firmo, em tintas românticas, no depoimento Um santo enternecido, publicado no blog A História bem na Foto, conta porque escolheu o local da foto:
Era início de setembro e a propalada primavera já se anunciava, com seus dias de sol agradável pregado no azul de um céu sem nuvens. Havia, plantadas aos pés da mangueira, dálias e rosas, salpicando dessa forma, um lirismo impressionista, cujos matizes frios e quentes, pincelavam certa quietude anunciando que a felicidade estava ali e, que Pixinguinha se emolduraria muito bem plantado naquele recanto de ordem e paz.


Nem sempre é assim tão lírico... Às vezes, o fotógrafo, por qualquer razão, precisa criar, para a foto, um ambiente diferente do que o fotografado habitualmente frequenta, no que, aliás, pode correr sérios riscos...
Rogério Reis fala da foto (leia depoimento), modelo da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade (do escultor Leo Santana), atração no calçadão do Posto 6 de Copacabana, e não deixa dúvida: “foi uma foto construída”.
Drummond em Copa - Rogério Reis, 1983
Vizinho dele, Rogério sabia que Drummond não costumava caminhar na direção de Copacabana, e sim do Leblon, mas precisava de uma foto especial para Veja. Se Drummond aceitou, devia fazer algum sentido: afinal, com esta mudança de rumo, os dois criaram uma nova “realidade”...
Luelane Corrêa, no documentário A Cidade e o Poeta, fixou a câmara diante da estátua, entrevistou usuários do calçadão e registrou “testemunhas” que garantiam que ele sempre sentava ali, onde até escrevia poemas....



Pelo menos, foi uma decisão consensual, como manda o bom figurino do retrato fotojornalístico... Seja como for, a história dos retratos mostra que alguma negociação é sempre necessária. E, às vezes, é justamente o excesso de negociações que dá valor histórico à foto. 
É o caso da foto do deputado posando de cuecas...
Barreto Pinto posa para a posteridade - Jean Manzon, 1946
Em 1946, Barreto Pinto, um novo rico recém eleito deputado (pouco mais de 200 votos, assumiu o mandato por ser um dos suplentes de Getúlio Vargas), teria acertado com o repórter David Nasser e o fotojornalista Jean Manzon, da revista “O Cruzeiro”, uma reportagem sobre sua importante presença na alta sociedade carioca. Na sessão de fotos, na casa da nova esposa, um palacete em Botafogo, os jornalistas teriam sugerido que, devido ao calor, dispensasse as calças, que as fotos só o mostrariam da cintura para cima, e ele, ingenuamente, teria concordado.
Revista O Cruzeiro, 1946

A publicação da matéria "Barreto Pinto sem Máscara" (replicada até pela revista Time nos EUA), em que o deputado aparece nestes trajes em várias fotos (posando e nos preparativos), provocou grande celeuma, incluindo a questão do suposto acordo entre os repórteres e o fotografado. Correu, no entanto, a versão de que ele teria pago a reportagem, já incluindo a combinação de processar posteriormente os jornalistas, já que todos ganhariam notoriedade com isso...
A conseqüência maior do imbróglio foi a cassação do deputado por "falta de decoro", a primeira do Congresso brasileiro. Quanto à publicação da matéria, não houve maiores conseqüências jurídicas ou legais.
       
    Em suma, as negociações do retrato, em seus limites, vão da situação em que o fotografado não tem a menor chance de participar até o caso do fotografado comandar de tal modo as ações que a foto sai exatamente como quer. Mas já é assunto para outra postagem...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Recesso, sob o olhar amoroso de Noel (Rosa!): Boas Festas!

 


Sob o olhar amoroso
de Noel (Rosa!): 


Boas Festas!




Que em 2011
seja visível
(em cada um)
o perfil do gênio!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A elusiva figura do genial Noel Rosa

Viva, para sempre!, Noel Rosa, o Poeta da Vida!
 
A relação entre fotografia e música no âmbito da cultura de massas tem sido variada e rica, para dizer o mínimo.  Para os fotógrafos dá, ao menos, algum dinheirinho: não há divulgação nem reportagem que não necessite de fotografias...
João Gilberto no Canecão - A.R., 1979

O "problema" é que os gênios da música, apesar das imposições da profissionalização, costumam se afastar de tudo aquilo que possa desconcentrá-los da (ou possa ser um empecilho à) sua criação.  
Por exemplo, por timidez – Chico Buarque no início da carreira. Ou mesmo, compreensivelmente, por "preguiça criativa" – Dorival Caymmi em sua rede de balanço... 
O exemplo clássico é a já tradicional reação de João Gilberto, sempre que não encontra boas condições de reprodução para o seu sensibilíssimo som.   

Acompanhar dramas como estes é um dos privilégios da carreira de fotojornalista, e me aconteceu: pude registrar em fotos (e depois, em texto) o “não show” de João Gilberto no Canecão, em 1979!  

Mas, agora é outra história: este é o  nosso momento Noel Rosa!
Nada seria o bastante para celebrar seus 100 anos, completados neste sábado, 11/12/2010...

Felizmente, pude ouvir muita gente boa falando sobre ele, em seminários e palestras, na Casa de Rui Barbosa, na Livraria da Travessa. Rosa Maria Araújo, Nei Lopes, Sérgio Cabral, Carlos Sandroni, Ruy Castro, Ricardo Prado...

João Máximo, Vivi Fernandes de Lima e Francisco Bosco - A.R., 2010
Na Biblioteca Nacional, no debate da Revista de História, Francisco Bosco justificou seus apelidos: “Poeta da Vila”, pelo valor do texto poético, para além da sintonia entre letra e música, e “Filósofo do Samba”, pela força ética da vida que escolheu viver e pela capacidade de perceber as “fraturas” da “verdade”.  

Em seguida, João Máximo desconstruiu contemporâneas e limitadas visões que acusam de “racista” a quem teve mais de 15 parceiros negros e pobres do Estácio e da Mangueira, ou de “machista” a quem disse para a amada, num samba, que “O maior castigo que eu te dou / É não te bater / Pois sei que gostas de apanhar”, indo totalmente contra o “padrão” da época e do local...

E, afinal, não podia faltar Noel Rosa na Academia Brasileira de Letras, que a sua obra é imortal!   


Carlos Didier em entrevista na ABL - A.R., 2010
 

Em rápida entrevista antes do Seminário Brasil, brasis, um dos autores, Carlos Didier, do esgotado Noel Rosa: uma biografia (com João Máximo, leia sua explicação no link) enfatizou que Noel Rosa, tão produtivo, tinha também uma grande “capacidade de escapulir”, sempre saindo para uma outra: “Viveu 26 anos, mas é como se tivesse vivido 75... Em apenas oito anos, dos 18 aos 26, fez mais que a maioria dos compositores em uma vida toda!” 

Entre suas estratégias de evasão, o fugir de fotografias... Exemplifica falando da homenagem da Estação Primeira de Mangueira, em 1933, a Orestes Barbosa, compositor de Chão de Estrelas, e também jornalista, cronista da cidade, grande incentivador da música popular.  Noel Rosa, já um sucesso, há muito tempo amigo de Cartola da Mangueira e de Ismael Silva (e muitos malandros) do Estácio, com quem criara um novo estilo de samba, compareceu ao evento, prestigiando. 
Autocaricatura de Noel Rosa
Mas, na hora da foto, todo mundo na sua melhor pose, cadê o Poeta da Vila?... Escafedera-se...

Grande parte do seu problema com a imagem vinha, evidentemente, da deformação do queixo, causada pelo uso de fórceps em seu nascimento, que lhe prejudicava o simples ato de comer. Para compensar, descobriu que, se não faria sucesso pela beleza, conseguia chamar a atenção das mulheres com as artes da música. Não é à toa que a iconografia de Noel Rosa compreende, basicamente, retratos e fotos posadas...

A ironia (e salve salve a ironia!...) é que o próprio Didier, ao falar de uma caricatura típica de Noel Rosa (de lado, o queixo retraído), que teria como referência o perfil do seu rosto na foto com a cantora Marília Batista e seu grupo, acabou apresentando um momento desprevenido de Noel Rosa, um Noel informal, despreocupado, inebriado pela própria obra: a música não só amansa as feras como faz relaxar os humanos...
 
Marília Batista canta Noel Rosa - s/d, Arquivo Almirante, 1933
Na foto, o melhor do poeta: a sua capacidade de observação, o seu afeto pela criação musical, a sua simplicidade na vida, a percepção do mundo do ponto de vista dos despossuídos, dos que não têm "nem pra gastar", uma visão do mundo que explicitou através de suas músicas. 
Entre elas “Com que roupa?”, revolucionário samba  de sucesso imediato em plena época da Revolução de 30, calcado ironicamente no Hino Nacional.
Em suma, como toda a sua obra, uma foto musical do Brasil de então...
[Atualizado em 14/12/2010]

domingo, 5 de dezembro de 2010

Com a mão na taça: o melhor momento do futebol brasileiro

Não que o Campeonato Brasileiro de cada ano (depende das chances do seu time...) seja desinteressante.
Desta vez, melhor pensar no grau de condensação simbólica que uma fotografia pode adquirir no tempo, este grande solucionador de dúvidas...
É do que trata a ideia de foto síntese, que, improvisando uma definição, seria “a fotografia capaz (para toda uma maioria de observadores) de fazer (ou ser) o resumo, o sumário, a síntese (o símbolo mais compacto possível) de um tema, assunto, evento, período etc”.

Foi o assunto do evento Foto Síntese , da ECO/UFRJ, usando como exemplo o futebol brasileiro. Seu melhor momento, sem medo de errar, é a conquista da taça Jules Rimet, a Copa do Mundo... É nossa, mas, hoje, apenas na memória: foi roubada e derretida em 1984...
Sendo apenas um exercício e o assunto de amplo conhecimento, ao menos para a minha geração, considerei a pesquisa como feita e escolhi logo as fotos sínteses de cada Copa: Bellini levantando a taça, Garrincha garantindo o Bi, Pelé liderando o Tri.

Bellini - s/d, Suécia, 1958
A Copa de 1958 foi a da “superação”. Para o futebol, das lembranças da “tragédia” de 50, do “Maracanazo”. Para o povo, a nação, do “complexo de vira-lata”, que Nelson Rodrigues definiu como “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. 
"Estátua do Bellini" - AR, 2010

O gesto de Bellini, levantando a taça que representa o mundo acima da cabeça do rei da Suécia, sintetiza o momento. E o fez, detalhe, em vez de colocar debaixo do braço e sair, a pedido dos fotógrafos...

Tão marcante, que ao erguerem à frente do Maracanã, no Rio, após a Copa de 62, uma estátua “genérica” aos campeões, o povo logo a nomeou a “Estátua do Bellini”, como conta Ruy Castro, com humor, na revista Brasileiros.



Garrincha contra Chile - s/d, Chile, 1962
Em 1962, caçado implacavelmente nos gramados do Chile, mas driblando todos os obstáculos (principalmente os extracampo, da paixão vulcânica por Elza Soares à expulsão na semifinal), Garrincha foi a peça chave da vitória do Brasil, nesta que foi a Copa do “jeitinho”..

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Capa "Veja na História"

Simbolizando um país que se desenvolvia à base de muita “malandragem”, a genialidade de Garrincha (o “Anjo das Pernas Tortas”, para Vinicius de Moraes) é tão reconhecida que até no futuro se tornou capa de revista...




A Copa de 1970 é a da “qualidade”. A da preparação do time, um tanto militarizada, mas, principalmente, a dos jogadores, o melhor grupo, comprovado em campo, já reunido. Sua eficiência, aliada à paixão do brasileiro, possibilitou à arte do futebol ganhar da tensão política produzida pela ditadura civil militar do golpe de 64. 
Predominou a ufanista "Eu Te Amo Meu Brasil”, de Os Incríveis. 

Pelé foi o craque do time, o Rei, mas sua corte (com ele, na foto, Tostão e Jairzinho) era do mais alto gabarito...    

Aproveitemos para observar um exemplo da composição da imagem como diferencial na escolha. Alguém deixaria de escolher a da esquerda?...
São fotos horizontais, mas costumam receber um corte vertical, para destacar os jogadores.

 
Gol de Pelé - Orlando Abrunhosa, México, 1970
Gol de Pelé - Lemyr Martins, México, 1970





Ora, não há melhor mandato histórico para uma fotografia do que ser copiada (e à mão!), traço definitivo de sua importância social.
Em 2010, a revista digital Sete Fios homenageou as vitórias em Copas com uma série de charges. Com exceção de 58, é o mesmo resultado.
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Bem antes, em 1970, logo após o Tri, os Correios lançaram a série de selos que homenageia a conquista da Jules Rimet, calcadas em fotos (o lance de Garrincha na de 62 é meio estranha...).
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São exemplo que ajudam a corroborar as, no caso, quase intuitivas escolhas destas fotos sínteses.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Questão de consciência: o negro na fotografia brasileira

João Cândido

Glória a todas as lutas inglórias 
que através da nossa História 
não esquecemos jamais



As comemorações do centenário da Revolta da Chibata, com homenagens ao Mestre Sala dos Mares João Cândido, o Almirante Negro, traz à tona a presença do negro na fotografia brasileira.
Ocorrida em 1910, a Revolta da Chibata teve considerável cobertura fotojornalística, apesar das limitações políticas e técnicas (saiba mais nos links).
 
Na foto, publicada pela revista O Malho em 27 de Novembro de 1910, a bordo do encouraçado Minas Gerais, João Cândido lê os decretos presidenciais de abolição dos castigos físicos na Marinha e de anistia aos revoltosos, tendo à frente o Cmte. Pereira Leite, que aguarda a devolução do comando.

João Cândido discute anistia com Pereira Leite - O Malho, 1910
Anistia que foi desconsiderada logo em seguida pelo governo de Hermes da Fonseca, transformando-se em prisões, desterros e mortes dos marinheiros.

 No detalhe, o fotógrafo flagrado no lado errado do lance... 
Note-se, além da elegância do seu traje, o tamanho (e imagine-se o peso) do equipamento fotográfico. Seria, pelo tipo físico assemelhado, Augusto Malta, autor de importantes registros do episódio?...
Tratados com uma violência escravocrata, os marujos, negros na sua grande maioria, para surpresa da sociedade de então, demonstraram uma alta competência, da organização do movimento ao comando dos mais modernos navios de guerra da época.

Os registros fotográficos da Revolta da Chibata dão uma dimensão realista às relações sociais e étnicas do momento, mas a atitude escravocrata também persistia na imprensa, que estampou diversas alusões de cunho racista contra as lideranças do movimento. 
Por exemplo, na capa da revista Careta, o que seria a resultante “inversão de papéis”: marinheiros brancos, descalços e subservientes, sob comando de oficial negro, com traços forçadamente simiescos.




Este, justamente, um dos temas da palestra do pesquisador e colecionador George Ermakoff, autor do livro O Negro na Fotografia Brasileira do Século XIX, na biblioteca do Centro Cultural da Justiça Federal (Rio), no dia 23/11/2010, por conta das comemorações da Semana de Consciência Negra.
O editor George Ermakoff, ladeado por Cristina Paiva (biblioteca CCJF) e Tom Farias Alves (biógrafo do poeta Cruz e Souza, do abolicionista José do Patrocínio e da escritora Carolina Maria de Jesus).
No século XIX, antes da Abolição, a fotografia dava às pessoas negras, predominantemente, um tratamento de figuras exóticas, transformando as imagens dos diversos tipos físicos negros em um produto comercial, que, interessando especialmente a estrangeiros, se tornou um bom negócio para os fotógrafos, que os fotografavam em seus estúdios.


Escravo Mina - Cristiano Jr, c. 1865
Usando as imagens de seu livro como referência, Ermakoff falou do comércio de fotos de negros brasileiros, vendidas a varejo como cartões postais, especialmente as de Cristiano Jr, na década de 1860 no Rio de Janeiro.



Escravo Mina Ossa, Augusto Stahl,1865














Mas, também, do uso pretensamente científico destas fotografias. 
Negra vendedora - Alberto Henschel, 1870


Coleções delas foram parar em instituições americanas, como as de Augusto Stahl (alemão, no Brasil entre 1853 e final dos anos 60), que o pesquisador Luiz Agassiz levou para Harvard, EUA, ou as de Alberto Henschel (alemão, entre 1866 e 1882 teve estúdios em Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo), que foi levada em quantidade para museus alemãs, de onde Ermakoff os resgatou para seu livro.



Mas faz muito tempo...

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 (O Mestre Sala dos Mares, 
Aldir Blanc e João Bosco)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Modernidade total: o fotógrafo sumiu!

Nada melhor do que uma luz (ainda mais se tratando de fotografia), um flash!...
Este veio em pleno seminário Revistas ilustradas: modos de ler e de ver o Rio de Janeiro na Primeira República, na Casa de Rui Barbosa, nos dias 16 e 17 de Nov/2010, quando uma típica teoria de comentarista de palestra virou, no caso, uma luminosa percepção...

O desenho, de época, do cartaz do Seminário inclui uma máquina fotográfica...
Imaginem a cena: início do século XX, o Brasil se torna uma República turbulenta e militarista, ainda controlada por forças regionais, que, aos poucos, se “civiliza”, um país cada vez mais “moderno”... 
Os novos governantes querem espantar do país os ares monárquicos, aliviar a capital de seu passado colonial, inscrito ainda na malha urbana. Com prefeitos eficientes, aterros e avenidas, o Rio de Janeiro aspira copiar a recem urbanizada Paris: a elite carioca poderá flanar em alto estilo...
Ora, é tempo da câmera Kodak, com o lema “você aberta o botão e nós fazemos o resto“, as pessoas fotografavam (“kodakeavam”) à exaustão! Nas ruas, a fotografia é uma febre e as revistas ilustradas também estão entupidas delas. 
O tema mais comum, como sempre, é gente, agora organizada e classificada em fotos posadas, nos mais variados grupos. Também a arquitetura eclética das fachadas da Av. Central ou da Exposição de 1922 e até as conseqüências da remoção de moradores e do inchamento da cidade: favelas também são fotografadas...

Afinal, se há tantas fotografias circulando, de onde foi que o fotógrafo sumiu?... 
Ah, sim... O fotógrafo sumiu dos créditos!...
É verdade: não há praticamente qualquer referência aos autores de milhares de fotografias publicadas pela imprensa carioca no período. Já outros produtores de imagem (desenhistas, caricaturistas, ilustradores) e de texto (escritores, cronistas, articulistas) têm seus nomes continuamente citados...
Edição de fotos por J. Carlos em O Malho - A.Ramos, 2010


Julieta Sobral (PUC-Rio), designer, ao passar J. Carlos em revista, mostrou uma face menos conhecida do espetacular desenhista, o seu papel de editor de arte no grupo editorial da revista O Malho, responsável pela publicação de uma profusão de fotografias, praticamente todas sem o crédito do fotógrafo...


É realmente um longo hiato... No Império, a fotografia no Brasil teve reconhecimento amplo, em grande parte devido ao interesse de D. Pedro II por ela. Além de outorgar títulos de fotógrafo da Casa Imperial, induziu instituições a designarem os seus (por exemplo, Marc Ferrez na Marinha). Na segunda parte do século XIX, as revistas eram território de ótimos ilustradores, que, muitas vezes, pelo dever de informar, reproduziam fotografias de forma quase exata (como Angelo Agostini, em sua Revista Illustrada) e costumavam dar crédito ao fotógrafo, um meio de garantir ao leitor a veracidade da imagem.


Pois, nesta época, início do século XX, é impressionante a “clandestinidade” do fotojornalista... Cláudia de Oliveira (EBA/UFRJ), umas das autoras do livro O Moderno em revistas, falando neste Seminário sobre o tema Fotografia, cidade moderna e revistas ilustradas, diz ter identificado nas revistas do período de 1900 a 1920 apenas um fotógrafo (um!...). Assinando-se Brum (?), publicou fotos na Fon-Fon, em O Malho e em A Careta, mas não connseguiu maiores informações.

O “flash” do momento foi vislumbrar que, no período, a tal ponto predomina a visão da fotografia como mera reprodutora do mundo natural e do fotógrafo como um simples apertador dos botões de uma caixa preta (vide Vilém Flüsser), que esta percepção, advinda ainda da possibilidade de reprodução técnica de fotografias por novos equipamentos gráficos (vide Walter Benjamin) e acrescida da adiantada profissionalização das empresas editoras de revistas (e jornais), tudo isto simplesmente faz com que o fotógrafo desapareça...

Do ponto de vista deste fotógrafo, a raiz da desvalorização está nas limitações técnicas (câmeras grandes, pesadas), na tendência para fotos únicas pela dificuldade de obter sequências (sistema de chapas), na necessária predominância da foto posada (baixa sensibilidade dos filmes). 
Realmente, da época, ficaram nomes de fotógrafos de registro formal, por conta de suas inserções em instituições públicas, cujo melhor exemplo é Augusto Malta, fotógrafo da Prefeitura, de 1900 (com Pereira Passos) até 1936.
É assunto a ser desenvolvido, mas foi animador receber da professora Tania de Lucca (Unesp), que falara sobre O gênero revista ilustrada em questão: desafios e possibilidades, concordância e apoio à tese, ao final do primeiro dia, entre goles de cafezinho...

Afinal, os fotógrafos de imprensa do início do século XX, eram eles apenas “paus-mandados”?...
Bom tema para pesquisadores que não se limitem às belas imagens dos fotógrafos já emoldurados pela História...