quinta-feira, 21 de abril de 2011

A morte anunciada (e repensada)

História, numa hora dessas?... 
Só novas mortes permitem o esquecimento (ou a superação) de tantas outras que a vida nos apresenta, quando não nos oferece pessoalmente...

E tal qual o destino que se dá a nossos restos, que, passado um tempo, vão para carneiros e urnas indiferenciadas, as mortes já antigas são guardadas em distantes e às vezes inacessíveis gavetas do que seria o "cemitério" da História.
Mas, nem todas, que há reconsiderações e hierarquias neste campo nada santo... A morte de algumas, pelo que associamos ao que fizeram em vida, pode ganhar novo espaço, talvez uma sepultura ornada ou um mausoleu gigantesco, tudo depende das reconsiderações que os sempre novos (e os futuros) administradores da vida fizeram (ou farão) na História.

Tiradentes em Cr$5000,
na capa de Abril 2011
Caso clássico, no Brasil, é o de Tiradentes, o alferes (hoje, algo como tenente) Joaquim José da Silva Xavier, e é pena que não tenhamos a sua foto, pois nem existia ainda a fotografia...
Único condenado à morte (e executado) da Conjuração Mineira, desamparado em vida, talvez pela menor expressão política, talvez pela excessiva vibração de sua luta, acabou recuperado em altíssimo grau pela República, na década de 1890, por militares que precisavam de herois...

E, logo, figurado em pinturas tão apropriadas à causa que até lhe deram barba e cabeleira, mártir "cristianizado", apesar dos condenados de então irem ao cadafalso com cabeça e cara raspadas... Seja como for, a recuperação histórica se efetivou: o Dia de Tiradentes, 21 de Abril, é, no Brasil, o único feriado dedicado a uma só pessoa.

Histórias que se transformam em música, músicas que recontam estas histórias e que podem ser revistas (e reouvidas...) com prazer no espetáculo “História através da Música”, um “espetáulaco”, como sugere o Crioulo Doido de Stanislaw Ponte Preta, guia desta história e neste palco, a sugestão teatral do momento...

Tancredo no Hospital - Gervásio Baptista, 1985
E, no entanto, há mortos que aos poucos desaparecem no chamado "limbo" da História, à medida em que o impacto de sua morte se distancia da realidade desgastante do cotidiano.
É o caso de Tancredo Neves, que, miticamente, “escolheu” o mesmo dia 21 de Abril para morrer...
Surpreendido em 15 de março de 1985 pela notícia da doença que impediu sua posse como Presidente, o Brasil acompanhou a agonia. Uma morte que a nação não queria e cuja proximidade os médicos aceitaram disfarçar, armando uma cena no hospital, que Gervásio Baptista (que seria seu fotógrafo na Presidência e assumira com Sarney), foi o único a registrar. 

Uma fatalidade, e não há como escapar. Mas, há como antever?...
A História tem esta vantagem: permite recuperar os sinais (o que dá certo alívio) e chegar a conclusões que, na hora, o acelerado dos fatos não permite.

Tancredo sente dor  - Zeca Guimarães, 1984
Dois fotógrafos da série A História bem na Foto contam histórias assemelhadas, ambas em torno de Tancredo e sua morte.

Zeca Guimarães (leia seu depoimento) reviu a foto intrigante de Tancredo fazendo uma careta de dor, ainda em 1984, e compreendeu: era a morte que se anunciava... 


E Antonio Batalha (aqui, suas lembranças) entendeu o gesto significativo de Tancredo, de uma visita de campanha ao Rio de Janeiro: era um gesto de despedida...


Tancredo se despede - Antonio Batalha, 1985
Então, voltando à Inconfidência Mineira, não é que neste mesmo momento os restos de três outros condenados (no caso, ao degredo na África, onde morreram) são recuperados, trazidos de volta ao Brasil, e entronizados no Panteão da Inconfidência?... 

São as voltas que a História dá. 
É, esta História é mesmo de morte...

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Falsificações, fraudes e farsas: nas fotos e na imprensa

Embora o senso comum tenda a ver como “realistas” as chamadas “imagens técnicas” (aquelas obtidas com o uso de algum equipamento entre o “apertador do botão” e a “realidade”, como fotografia e vídeo, para simplificar), não custa lembrar, neste 1º. de Abril, o quanto estas imagens podem ser mentirosas.
Algum tipo de manipulação sempre há, em qualquer fotografia, escolhas têm que ser feitas... Pode ser por parte do fotógrafo, ao escolher o ângulo ou a lente, ou do editor, quando opta por uma foto em vez de outra ou acrescenta uma legenda tendenciosa, entre outras figuras e possibilidades. De fato, a fotografia não é necessariamente um “espelho dos fatos”...

A primeira publicação, no Brasil, a imprimir fotografias de forma mecânica (sem intermediação de um gravurista) em edições sucessivas foi a Revista da Semana, lançada em maio de 1900.
As fotografias “realistas” impressionavam, mas os editores também apelavam, talvez contando com a ingenuidade dos leitores, poucos acostumados com fotografias... No n° 6, de 24 de Junho, a foto “Tentativa de Assassinato”, uma evidente encenação, ocupava toda a capa, enquanto a legenda, um tanto exagerada, dizia: “O coronel Horacio de Lemos atacado em pleno dia na Rua dos Ourives. Photographia instantanea apanhada casualmente por um dos nossos photographos”...


 
Outro recurso usado em certas circunstâncias (queda de vendas, em especial...) é a, digamos, “invenção da realidade”. Foi o que aconteceu em maio de 1952, quando a revista O Cruzeiro (que tinha em seu histórico alguns casos assemelhados), publicou as primeiras fotos de OVNIs do Brasil, em um encarte "Extra", sob o título "Disco Voador na Barra da Tijuca"!

As fotos são de Ed Keffel e texto de João Martins, que até aparecem na revista, examinando os negativos das fotos, feitas em uma Rolleiflex. Um sucesso nada modesto... Diz a reportagem: "O Cruzeiro apresenta, num furo jornalístico espetacular, a mais sensacional documentação jamais conseguida sobre o mistério dos discos voadores. O estranho objeto veio do mar, com enorme velocidade, e foi visto durante um minuto, de cor cinza-azulado, absolutamente silencioso, sem deixar rastros de fumaça ou de chamas. Relato completo da fascinante aparição na Barra da Tijuca". 
 
Curiosamente, os ufólogos são gratos à reportagem porque, objetivamente, apresentou o tema aos brasileiros: “A ufologia no Brasil começou com uma grande fraude”. Ironicamente, oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB) investigaram e produziram um relatório que confirmava a autenticidade das imagens, que são apenas fotomontagens.
A polêmica correu mundo, mas, a revista Ciência Popular, que logo duvidara, declarou oficialmente, em sua edição nº 76 (janeiro de 1955), que as fotos eram falsas. João Martins ainda voltou a se defender, em O Cruzeiro (outubro de 1959), no artigo “Revelado o segrêdo da Barra da Tijuca”, até que uma autoridade, o diretor da Ground Saucer Watch, William H. Spaulding, garantiu, em 1981, que as fotos eram forjadas porque “havia divergência nas sombras”.



Em compensação, a fotografia pode exercer importante papel para restituir a verdade e isto parece mesmo muito mais importante, como nas perícias e quando denuncia farsas...

Em 1989, Brasil e Chile se enfrentavam num Maracanã lotado, pelas eliminatórias da Copa do Mundo da Itália, e, em caso de derrota, a seleção brasileira seria eliminada.
Aos 24m do segundo tempo, Brasil vencendo por 1 x 0, a torcedora Rosenery Mello do Nascimento, 24 anos, disparou um sinalizador, de uso naval. A chama atingiu o gramado muito perto do goleiro chileno Roberto Rojas, que se jogou no chão e simulou ter sido atingido. Os chilenos se retiraram do campo revoltados, o goleiro, ensanguentado, sendo carregado. O juiz argentino Juan Lostau encerrou a partida após aguardar os chilenos por 20 minutos. Imagens de TV e especialmente uma foto de Jorge William provaram que o sinalizador não atingiu o goleiro, o qual levara a campo uma lâmina escondida na luva, com a qual, ao cair, cortou o próprio supercílio, o que foi confirmado pelos exames de corpo de delito, que também não encontraram vestígios de pólvora (veja vídeo). A fotografia, intitulada “A farsa chilena”, deu a Jorge William o Prêmio Esso de Informação Esportiva de 1990.
O Brasil foi declarado, pela FIFA, vencedor do jogo pelo placar de 2 x 0, pelo abandono de campo da equipe chilena. A então estudante Rosenery, torcedora do Fluminense, virou celebridade: deu entrevistas, foi a programas de tevê, esteve no Jô Soares e chegou a posar para a Playboy, em novembro de 1989. Tudo isto (vide site Achix) lhe rendeu casa e carro novo e viagens, até que ela “se aposentou”, casou e virou dona de casa...



Em suma, há falsificações, fraudes e farsas de todos os tipos na história do fotojornalismo e na imprensa... E, muitas vezes, o fotojornalista faz o seu melhor, “corre atrás”, mas, como a fotografia é "neutra", a sua colocação nestas histórias acaba dependendo muito mais do veículo de comunicação e das suas relações com as instâncias de poder. 


Como no caso da foto de Evandro Teixeira, feita na madrugada de 1º de abril de 1964, na tomada do Forte de Copacabana por tropas do golpe militar que se autoproclamou “Revolução de 31 de Março”: “Nessa noite, o telefone tocou na minha casa, do outro lado da linha estava o capitão Leno, meu amigo de vôlei de praia, dizendo que o Forte estava sendo tomado. Peguei a minha Leica e fui para lá. Com a ajuda do capitão, consegui entrar com a máquina escondida por debaixo da camisa e dessa maneira pude fotografar a movimentação dos militares debaixo de uma chuva torrencial. Até pensaram que eu fosse fotógrafo do Exército Brasileiro! Pouco depois, o general Castello Branco chegou e senti que era hora de deixar o recinto”.  
Fonte: Image & Vision.


E já que estamos falando de variadas forma de mentiras, enganos e engodos em torno deste momento (leia mais no link), é sempre bom lembrar as manchetes de alguns jornais bem em cima do golpe...

terça-feira, 8 de março de 2011

No Carnaval, todas as Mulheres do mundo!

Uma festiva coincidência, neste 8 de março de 2011: é Carnaval e Dia Internacional das Mulheres!
Em homenagem a este encontro perfeito, a lembrança de duas mulheres que fizeram de suas vidas (com muita alegria, e também dramas...) verdadeiros carnavais!
Luz del Fuego fantasiada de Eva - Teatro Municipal - Carnaval de 1948
(Ilustração de seu livro A Verdade Nua - Reprodução do livro  
Luz del Fuego - A Bailarina do Povo, de Cristina Agostinho. 



Luz del Fuego, um marco do naturismo (seu aniversário, 21 de fevereiro, foi escolhido Dia do Naturismo no Brasil), associou a exposição desinibida do corpo a uma firme atuação política, e fazia sucesso nos Carnavais, desfilando enrolada em suas jiboias.
















Leia Diniz, depois de reativar o teatro de revista com seus improvisos nos textos de Tem Banana na Banda e de receber de Virgínia Lane o título de Rainha das Vedetes, foi consagrada, no Carnaval de 1971, como a Rainha da Banda de Ipanema. 



Leila Diniz Rainha da Banda de Ipanema 1971 Mais detalhes em http://rioquemoranomar.blogspot.com/2011/02/o-carnaval-carioca-de-1971.html





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E, sendo Carnaval, uma homenagem musical às Mulheres...
Para cantá-las em música e versos, duas outras tão carnavalescas e admiráveis quanto.


Cássia Eller e Rita Lee cantam “Luz del Fuego”, de Rita Lee



Rita Lee canta “Todas as mulheres do mundo”, de Rita Lee


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Perfis e Autorretratos

Entre as boas preliminares de um trabalho como este (refletir sobre fotos históricas) está o exercício, no bom sentido, da inversão de sentido.
Por exemplo, centralizar a atenção em formas e estilos fotográficos menos usuais e deixar que isto oriente a pesquisa das fotos, mas sempre mantendo, nas escolhas, a ênfase no reconhecimento social (ou seja, no valor histórico) da fotografia...
É assim que se chega a este rápido passeio por perfis e autorretratos, categorias tão contraditórias que, aparentemente, só parecem ser parecidas nas atuais redes sociais digitais...

Magalhães Pinto - Orlando Brito, Brasília, s/d
Obter do perfil fotográfico (ou, para generalizar, do contorno ou silhueta) uma marca perfeitamente reconhecível é, dentre as possíveis artes da fotografia, mais uma arte... Muito especialmente, na área do fotojornalismo, em que, por limitações técnicas ou de tempo, predomina o improviso, outra arte intrínseca à fotografia...
Há, na silhueta, assinaturas. São tanto a do fotógrafo quanto a de uma excentricidade qualquer da figura do fotografado. Perceba-se ainda a necessidade de negociação (ou observação) em termos de ângulos e enquadres, de um lado, e de posturas e intenções, de outro. Acima de tudo (e entre eles), o definitivo recurso da fotografia: a luz.

Para demonstrar, busquei uma foto que tinha na cabeça, aquela em que Orlando Brito registrou, no contraluz, apenas um fio de luz envolvendo justamente a cabeça de Magalhães Pinto, banqueiro e político mineiro, um dos líderes civis do movimento que resultaria no golpe de 1964 (leia aqui).

Certamente uma escolha feliz, a do fotógrafo!... O reconhecimento por parte do leitor (ao menos, o da época...) é garantido: o formato e a "lisura" da cabeça garantem o resultado, a “assinatura’ do fotografado está explícita. 
 
Magalhães Pinto e Vavá - Rogério Reis, Rio, c.1979
Tanto que, no caso, o contraluz, elemento fundamental na foto de Orlando Brito, é dispensável!... 
Fato que fica evidente na fotografia de Rogério Reis, do final dos anos 70, quando Magalhães Pinto, com seu poder político em queda (em paralelo ao esperado fim da ditadura), foi “recepcionado”, na praia de Botafogo, no Rio, por um típico “popular” brasileiro, o Vavá (como conta o autor).
A foto pelas costas, que seria desvalorizada em uma reportagem comum, torna-se exaltação da identidade do conhecido político, um elemento que o próprio gesto do popular ressalta... 
Ulisses Guimarães - Orlando Brito, Brasília, 1992

Eis que, à procura da primeira foto, a de Orlando Brito, ao navegar por Com a palavra, a Fotografia, excelente blog em que conta histórias de muitas das suas, uma outra imagem, do mesmo tipo, se destacou: o perfil de Ulisses Guimarães. 
É o próprio fotógrafo quem dá a esta foto peso histórico (por acaso, feita no dia de aniversário de Ulysses, 6 de outubro de 1992), associando-a a uma possível premonição: “Confesso que o resultado da imagem me impressionou. Era forte, não tinha a ver com a serenidade daquele momento. Seis dias depois, a trágica notícia do desaparecimento de Ulysses” (leia mais aqui).

E falando de improviso, cabe registrar a habilidade do fotógrafo... O contorno de Magalhães Pinto aproveita a luz de filmagem da TV, em uma entrevista; o perfil de Ulisses, a longínqua luz do por do sol, no saguão de um prédio em Brasília.

O caso dos autorretratos é bem diferente...
Um fotógrafo, ao se retratar, não dá à foto maior importância, seja qual for a pretensão... Salvo outras injunções, das não fotográficas, não haverá motivos para considerá-la histórica.
A menos que o fotógrafo tenha certa importância social. Que seja, por exemplo, um imperador: algumas das fotos em poses formais de D. Pedro II, efetivo fotógrafo, são autorretratos.
Ou, então, quando o autorretrato é tão surpreendente para a época (e, pensando bem, até hoje) que se tornou um marco na fotografia brasileira, especialmente por não ser apenas um autorretrato, mas vários em um...
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Os trinta Valérios - Valério Vieira, São Paulo, 1901


Trata-se da fotomontagem “Os trinta Valérios”, a imagem de um incrível sarau em que o autor, Valério Vieira, se reproduz em todas as presenças, até as da parede e sobre o piano... Formado na Escola de Belas Artes do Rio, Valério tornou-se fotógrafo em São Paulo em 1880, onde inovou com retratos de formatura e grandes panorâmicas da cidade.
Este múltiplo autorretrato, produzido em 1901 (muito antes do Photoshop...) e premiado na Feira Internacional de Saint Louis, EUA, de 1904, foi montado com o uso de dezenas de negativos, ampliados cuidadosamente, na escuridão do laboratório fotográfico, em posições e proporções precisas.

Em todos os casos, os fotógrafos se valem da oportunidade e da criatividade, matérias primas da fotografia.
 
[Orlando Brito faleceu em 11/03/2022.]

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Catástrofes “naturais”: as imagens simbólicas

O ser humano é um risco no mundo...
Em tempo de catástrofe ambiental, uma enxurrada de fotos altamente realistas mostra praticamente todos os detalhes dos acontecimentos, trazidos à vista de todos, produto de um grande esforço de trabalho dos fotojornalistas, sem contar os colaboradores espontâneos da imprensa... 
No entanto, passado um certo tempo, as que ficam (e, por isto, se tornam históricas) são as mais simbólicas, não as mais cruéis e exatas ...

Historicamente, as notícias são centradas no que se entende como excessos da natureza contra os esforços de sobrevivência (ou de progresso...) do ser humano. 

O capítulo relativo às chuvas, por exemplo, é vasto: no Rio de Janeiro, há registros de enchentes desde 1711... 
Os fotógrafos sempre se esforçaram por registrar tudo, mas uma das únicas fotos neste tema que ganhou  Prêmio Esso foi a de Carlos Mesquita, do Jornal do Brasil (a anterior, de Antonio Andrade,  1967, é uma cena de ação), é uma espécie de "retrato" das consequências das chuvas de verão de 1982 em Petrópolis-RJ: a foto do rapaz de apenas 14 anos que trazia no colo o corpo de um menino retirado instantes antes dos escombros de um desabamento e dizia "ele está morto, ele está morto"...
Chuvas de verão em Petrópolis, RJ - Carlos Mesquita, 1982

Resultou numa primeira página forte, a foto atravessando toda a parte superior do jornal, muito discutida, alguns achando que, excessivamente chocante, não deveria ter sido publicada. O mérito do autor é ter substituído, no ato fotográfico, o drama coletivo, o conjunto confuso de escombros e esforços, por um singelo mas definitivo retrato da fragilidade humana.

As secas, historicamente frequentes no Nordeste, cada vez mais comuns no Sul, são outras das catástrofes “naturais” continuamente fotografadas no Brasil.
A seca do Ceará foi assunto, em 1878, da nossa primeira fotorreportagem, em fotografias de alta carga simbólica, as famélicas crianças fotografadas em estúdio.
Em 1983, mais de um século depois, nova versão: a foto de Delfim Vieira, também do JB, mostrando o alimento disponível para o sertanejo, um calango. 
Calango mata fome no Ceará - Delfim Vieira, 1983 

A foto foi feita em Apuiarés-CE, depois do prefeito declarar na TV que, para sobreviver, o povo estava comendo calangos (nome local para um tipo de lagartixa). Da ida à região resultou a foto de “um homem muito enrugado e muito magro, que nos mostrou o produto de um dia de caça: um calango morto com atiradeira, pronto para virar torresmo e ser comido em pedacinhos, com farinha, por toda uma família” (leia depoimento).
A foto, publicada no alto da primeira página do jornal, torna-se um resumo simbólico da seca pela “objetividade” da imagem. Nela, apenas duas informações: o que é um calango e em que condições estava o homem que se dispunha a comê-lo. Uma economia de dados que só aumenta o impacto da imagem...

Mas, nem sempre o ser humano é mera vítima da natureza, caso se insista nesta separação...
Cada vez mais, a catástrofe é provocada pelo ser humano. E, mais uma vez, a imagem que fica, sendo um resumo objetivo do momento, se torna, no tempo, uma referência simbólica.
É o caso da foto de Domingos Peixoto, publicada em O Globo, em janeiro de 2000, da agonia de uma ave coberta de petróleo, consequência do derramamento de petróleo na baía de Guanabara, advindo da refinaria da Petrobras, em Duque de Caxias-RJ.
Derrame de petróleo na Guanabara - Domingos Peixoto, 2000

Sem dúvida, a imagem mais marcante de mais um desastre ambiental, entre tantas e tantos...

De catástrofe em catástrofe, o fotojornalista traça a crônica da sobrevivência humana.
A seleção de fotos simbólicas, no entanto, mostra apenas uma pequena parte da história da insensatez humana.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

“Bonecos” da História: o retrato das negociações

O fotojornalismo também tem seus bonecos, mas não é brincadeira não...
”Fazer um boneco”, no jargão fotojornalístico, é tarefa relativamente pouco valorizada pelos repórteres-fotográficos empregados na imprensa, funcionários de um jornal diário. Disputando espaço nas páginas, não é de estranhar que desenvolvam alguma resistência à tarefa, para eles prosaica, de tirar retratos, de “fazer bonecos”...
Para fotógrafos de revistas, o retrato é tarefa mais habitual e mais valorizada. A principal fotografia de uma edição pode ser um retrato, muito frequentemente a própria capa, e poderá ter vida longa, em muitas reproduções.
Para o fotógrafo, como parte das negociações para um bom retrato, surge a questão do aproveitamento das condições reinantes ou a invenção das próprias...
Pixinguinha - Walter Firmo, 1968

 Um ótimo exemplo da observação do ambiente e da sua apropriação no retrato é a foto do músico e compositor Pixinguinha em sua casa de Ramos, feita por Walter Firmo, em 1968, para a revista Manchete.
O próprio Firmo, em tintas românticas, no depoimento Um santo enternecido, publicado no blog A História bem na Foto, conta porque escolheu o local da foto:
Era início de setembro e a propalada primavera já se anunciava, com seus dias de sol agradável pregado no azul de um céu sem nuvens. Havia, plantadas aos pés da mangueira, dálias e rosas, salpicando dessa forma, um lirismo impressionista, cujos matizes frios e quentes, pincelavam certa quietude anunciando que a felicidade estava ali e, que Pixinguinha se emolduraria muito bem plantado naquele recanto de ordem e paz.


Nem sempre é assim tão lírico... Às vezes, o fotógrafo, por qualquer razão, precisa criar, para a foto, um ambiente diferente do que o fotografado habitualmente frequenta, no que, aliás, pode correr sérios riscos...
Rogério Reis fala da foto (leia depoimento), modelo da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade (do escultor Leo Santana), atração no calçadão do Posto 6 de Copacabana, e não deixa dúvida: “foi uma foto construída”.
Drummond em Copa - Rogério Reis, 1983
Vizinho dele, Rogério sabia que Drummond não costumava caminhar na direção de Copacabana, e sim do Leblon, mas precisava de uma foto especial para Veja. Se Drummond aceitou, devia fazer algum sentido: afinal, com esta mudança de rumo, os dois criaram uma nova “realidade”...
Luelane Corrêa, no documentário A Cidade e o Poeta, fixou a câmara diante da estátua, entrevistou usuários do calçadão e registrou “testemunhas” que garantiam que ele sempre sentava ali, onde até escrevia poemas....



Pelo menos, foi uma decisão consensual, como manda o bom figurino do retrato fotojornalístico... Seja como for, a história dos retratos mostra que alguma negociação é sempre necessária. E, às vezes, é justamente o excesso de negociações que dá valor histórico à foto. 
É o caso da foto do deputado posando de cuecas...
Barreto Pinto posa para a posteridade - Jean Manzon, 1946
Em 1946, Barreto Pinto, um novo rico recém eleito deputado (pouco mais de 200 votos, assumiu o mandato por ser um dos suplentes de Getúlio Vargas), teria acertado com o repórter David Nasser e o fotojornalista Jean Manzon, da revista “O Cruzeiro”, uma reportagem sobre sua importante presença na alta sociedade carioca. Na sessão de fotos, na casa da nova esposa, um palacete em Botafogo, os jornalistas teriam sugerido que, devido ao calor, dispensasse as calças, que as fotos só o mostrariam da cintura para cima, e ele, ingenuamente, teria concordado.
Revista O Cruzeiro, 1946

A publicação da matéria "Barreto Pinto sem Máscara" (replicada até pela revista Time nos EUA), em que o deputado aparece nestes trajes em várias fotos (posando e nos preparativos), provocou grande celeuma, incluindo a questão do suposto acordo entre os repórteres e o fotografado. Correu, no entanto, a versão de que ele teria pago a reportagem, já incluindo a combinação de processar posteriormente os jornalistas, já que todos ganhariam notoriedade com isso...
A conseqüência maior do imbróglio foi a cassação do deputado por "falta de decoro", a primeira do Congresso brasileiro. Quanto à publicação da matéria, não houve maiores conseqüências jurídicas ou legais.
       
    Em suma, as negociações do retrato, em seus limites, vão da situação em que o fotografado não tem a menor chance de participar até o caso do fotografado comandar de tal modo as ações que a foto sai exatamente como quer. Mas já é assunto para outra postagem...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Recesso, sob o olhar amoroso de Noel (Rosa!): Boas Festas!

 


Sob o olhar amoroso
de Noel (Rosa!): 


Boas Festas!




Que em 2011
seja visível
(em cada um)
o perfil do gênio!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A elusiva figura do genial Noel Rosa

Viva, para sempre!, Noel Rosa, o Poeta da Vida!
 
A relação entre fotografia e música no âmbito da cultura de massas tem sido variada e rica, para dizer o mínimo.  Para os fotógrafos dá, ao menos, algum dinheirinho: não há divulgação nem reportagem que não necessite de fotografias...
João Gilberto no Canecão - A.R., 1979

O "problema" é que os gênios da música, apesar das imposições da profissionalização, costumam se afastar de tudo aquilo que possa desconcentrá-los da (ou possa ser um empecilho à) sua criação.  
Por exemplo, por timidez – Chico Buarque no início da carreira. Ou mesmo, compreensivelmente, por "preguiça criativa" – Dorival Caymmi em sua rede de balanço... 
O exemplo clássico é a já tradicional reação de João Gilberto, sempre que não encontra boas condições de reprodução para o seu sensibilíssimo som.   

Acompanhar dramas como estes é um dos privilégios da carreira de fotojornalista, e me aconteceu: pude registrar em fotos (e depois, em texto) o “não show” de João Gilberto no Canecão, em 1979!  

Mas, agora é outra história: este é o  nosso momento Noel Rosa!
Nada seria o bastante para celebrar seus 100 anos, completados neste sábado, 11/12/2010...

Felizmente, pude ouvir muita gente boa falando sobre ele, em seminários e palestras, na Casa de Rui Barbosa, na Livraria da Travessa. Rosa Maria Araújo, Nei Lopes, Sérgio Cabral, Carlos Sandroni, Ruy Castro, Ricardo Prado...

João Máximo, Vivi Fernandes de Lima e Francisco Bosco - A.R., 2010
Na Biblioteca Nacional, no debate da Revista de História, Francisco Bosco justificou seus apelidos: “Poeta da Vila”, pelo valor do texto poético, para além da sintonia entre letra e música, e “Filósofo do Samba”, pela força ética da vida que escolheu viver e pela capacidade de perceber as “fraturas” da “verdade”.  

Em seguida, João Máximo desconstruiu contemporâneas e limitadas visões que acusam de “racista” a quem teve mais de 15 parceiros negros e pobres do Estácio e da Mangueira, ou de “machista” a quem disse para a amada, num samba, que “O maior castigo que eu te dou / É não te bater / Pois sei que gostas de apanhar”, indo totalmente contra o “padrão” da época e do local...

E, afinal, não podia faltar Noel Rosa na Academia Brasileira de Letras, que a sua obra é imortal!   


Carlos Didier em entrevista na ABL - A.R., 2010
 

Em rápida entrevista antes do Seminário Brasil, brasis, um dos autores, Carlos Didier, do esgotado Noel Rosa: uma biografia (com João Máximo, leia sua explicação no link) enfatizou que Noel Rosa, tão produtivo, tinha também uma grande “capacidade de escapulir”, sempre saindo para uma outra: “Viveu 26 anos, mas é como se tivesse vivido 75... Em apenas oito anos, dos 18 aos 26, fez mais que a maioria dos compositores em uma vida toda!” 

Entre suas estratégias de evasão, o fugir de fotografias... Exemplifica falando da homenagem da Estação Primeira de Mangueira, em 1933, a Orestes Barbosa, compositor de Chão de Estrelas, e também jornalista, cronista da cidade, grande incentivador da música popular.  Noel Rosa, já um sucesso, há muito tempo amigo de Cartola da Mangueira e de Ismael Silva (e muitos malandros) do Estácio, com quem criara um novo estilo de samba, compareceu ao evento, prestigiando. 
Autocaricatura de Noel Rosa
Mas, na hora da foto, todo mundo na sua melhor pose, cadê o Poeta da Vila?... Escafedera-se...

Grande parte do seu problema com a imagem vinha, evidentemente, da deformação do queixo, causada pelo uso de fórceps em seu nascimento, que lhe prejudicava o simples ato de comer. Para compensar, descobriu que, se não faria sucesso pela beleza, conseguia chamar a atenção das mulheres com as artes da música. Não é à toa que a iconografia de Noel Rosa compreende, basicamente, retratos e fotos posadas...

A ironia (e salve salve a ironia!...) é que o próprio Didier, ao falar de uma caricatura típica de Noel Rosa (de lado, o queixo retraído), que teria como referência o perfil do seu rosto na foto com a cantora Marília Batista e seu grupo, acabou apresentando um momento desprevenido de Noel Rosa, um Noel informal, despreocupado, inebriado pela própria obra: a música não só amansa as feras como faz relaxar os humanos...
 
Marília Batista canta Noel Rosa - s/d, Arquivo Almirante, 1933
Na foto, o melhor do poeta: a sua capacidade de observação, o seu afeto pela criação musical, a sua simplicidade na vida, a percepção do mundo do ponto de vista dos despossuídos, dos que não têm "nem pra gastar", uma visão do mundo que explicitou através de suas músicas. 
Entre elas “Com que roupa?”, revolucionário samba  de sucesso imediato em plena época da Revolução de 30, calcado ironicamente no Hino Nacional.
Em suma, como toda a sua obra, uma foto musical do Brasil de então...
[Atualizado em 14/12/2010]

domingo, 5 de dezembro de 2010

Com a mão na taça: o melhor momento do futebol brasileiro

Não que o Campeonato Brasileiro de cada ano (depende das chances do seu time...) seja desinteressante.
Desta vez, melhor pensar no grau de condensação simbólica que uma fotografia pode adquirir no tempo, este grande solucionador de dúvidas...
É do que trata a ideia de foto síntese, que, improvisando uma definição, seria “a fotografia capaz (para toda uma maioria de observadores) de fazer (ou ser) o resumo, o sumário, a síntese (o símbolo mais compacto possível) de um tema, assunto, evento, período etc”.

Foi o assunto do evento Foto Síntese , da ECO/UFRJ, usando como exemplo o futebol brasileiro. Seu melhor momento, sem medo de errar, é a conquista da taça Jules Rimet, a Copa do Mundo... É nossa, mas, hoje, apenas na memória: foi roubada e derretida em 1984...
Sendo apenas um exercício e o assunto de amplo conhecimento, ao menos para a minha geração, considerei a pesquisa como feita e escolhi logo as fotos sínteses de cada Copa: Bellini levantando a taça, Garrincha garantindo o Bi, Pelé liderando o Tri.

Bellini - s/d, Suécia, 1958
A Copa de 1958 foi a da “superação”. Para o futebol, das lembranças da “tragédia” de 50, do “Maracanazo”. Para o povo, a nação, do “complexo de vira-lata”, que Nelson Rodrigues definiu como “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. 
"Estátua do Bellini" - AR, 2010

O gesto de Bellini, levantando a taça que representa o mundo acima da cabeça do rei da Suécia, sintetiza o momento. E o fez, detalhe, em vez de colocar debaixo do braço e sair, a pedido dos fotógrafos...

Tão marcante, que ao erguerem à frente do Maracanã, no Rio, após a Copa de 62, uma estátua “genérica” aos campeões, o povo logo a nomeou a “Estátua do Bellini”, como conta Ruy Castro, com humor, na revista Brasileiros.



Garrincha contra Chile - s/d, Chile, 1962
Em 1962, caçado implacavelmente nos gramados do Chile, mas driblando todos os obstáculos (principalmente os extracampo, da paixão vulcânica por Elza Soares à expulsão na semifinal), Garrincha foi a peça chave da vitória do Brasil, nesta que foi a Copa do “jeitinho”..

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Capa "Veja na História"

Simbolizando um país que se desenvolvia à base de muita “malandragem”, a genialidade de Garrincha (o “Anjo das Pernas Tortas”, para Vinicius de Moraes) é tão reconhecida que até no futuro se tornou capa de revista...




A Copa de 1970 é a da “qualidade”. A da preparação do time, um tanto militarizada, mas, principalmente, a dos jogadores, o melhor grupo, comprovado em campo, já reunido. Sua eficiência, aliada à paixão do brasileiro, possibilitou à arte do futebol ganhar da tensão política produzida pela ditadura civil militar do golpe de 64. 
Predominou a ufanista "Eu Te Amo Meu Brasil”, de Os Incríveis. 

Pelé foi o craque do time, o Rei, mas sua corte (com ele, na foto, Tostão e Jairzinho) era do mais alto gabarito...    

Aproveitemos para observar um exemplo da composição da imagem como diferencial na escolha. Alguém deixaria de escolher a da esquerda?...
São fotos horizontais, mas costumam receber um corte vertical, para destacar os jogadores.

 
Gol de Pelé - Orlando Abrunhosa, México, 1970
Gol de Pelé - Lemyr Martins, México, 1970





Ora, não há melhor mandato histórico para uma fotografia do que ser copiada (e à mão!), traço definitivo de sua importância social.
Em 2010, a revista digital Sete Fios homenageou as vitórias em Copas com uma série de charges. Com exceção de 58, é o mesmo resultado.
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Bem antes, em 1970, logo após o Tri, os Correios lançaram a série de selos que homenageia a conquista da Jules Rimet, calcadas em fotos (o lance de Garrincha na de 62 é meio estranha...).
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São exemplo que ajudam a corroborar as, no caso, quase intuitivas escolhas destas fotos sínteses.