sábado, 30 de julho de 2011

As cidades e seus fotógrafos históricos

A cidade, campo de batalha entre a estruturação geométrica de suas construções e a insinuância irrequieta de habitantes e transeuntes, é matéria prima inescapável para os fotógrafos...
Mas, nem todos fazem dela o seu motivo central, conseguem fotografá-las de forma disciplinada, dedicam-lhe toda uma obra... Na prática, apenas alguns poucos tornaram-se fotógrafos históricos das cidades em que nasceram, viveram ou investiram, por um tempo, o seu talento. Se o fizeram, não terá sido só por paixão pessoal ou exigência da profissão, mas, talvez mais certamente, por uma criativa harmonia entre estes tão poderosos impulsos.

Entre as muitas exposições do FotoRio 2011, algumas recuperam as fotos históricas (e as próprias histórias) de fotógrafos que, identificados com as suas (ou mesmo outras) cidades, transformaram-se em guardiões (e também mensageiros) das imagens de seu passado.

Um exemplo clássico, é a obra do fotógrafo “ítalo-gaúcho” Virgilio Calegari, apresentado na exposição “Um Cavaliere entre dois mundos”, um destaque no FotoRio. Chegando ao Brasil com 13 anos de idade, ainda no século XIX, Calegari fotografou Porto Alegre de tal forma que “ajudou a criar e popularizar a imagem da pequena capital que se pretendia grande”, no dizer da curadora da exposição, Sinara Sandri. Em 1910, no auge da carreira, com vários prêmios internacionaisl, recebeu de seu país a comenda de Cavaliere, pela contribuição à cultura italiana e pelo seu sucesso no exterior. 
Pça XV, esq Mar.Floriano, Porto Alegre -Virgilio Calegari, 1910
Estes fotógrafos, que produzem a memória visual das cidades, são típicos das grandes metrópoles, cujo crescimento e modificações acompanham por décadas. Mas, ainda no FotoRio, temos um belo exemplo em um âmbito regional, a exposição “O Sal da Terra” (prorrogada até 14/08/11), com fotos de Wolney Teixeira, que documentou a Região dos Lagos, RJ, entre os anos 30 e 70 do século XX.

Largo de Santo Antonio, canal de Itajuru e rua da Praia - Cabo Frio - Wolney Teixeira, 1948
Além das salinas, praias, restingas, as pescarias, as festas e os políticos, suas fotos mostram “a vila colonial que permaneceu intocada até os anos 50, quando a cidade passa a adquirir feições de balneário turístico”, como destaca Mauro Trindade, que editou, para a exposição e futuro livro, os mais de 10.000 negativos guardados pelo filho do fotógrafo.
Centro de São Paulo - Cristiano Mascaro, c. 1985



Outras visões das cidades dependem de um olhar especial. No correr do século XX, vários fotógrafos fizeram leituras particulares de certas cidades utilizando técnicas específicas, conseguindo dar às fotos um tom autoral, que se descola do registro “realista” do período inicial da fotografia.

Um exemplo é o tratamento altamente formal, aparentemente distanciado, do fotógrafo, professor e arquiteto Cristiano Mascaro em suas fotos de São Paulo: com um denso preto e branco e em formato quadrado, como se retratasse a personalidade da cidade. Um trabalho que se tornou, através de livros e exposiçoes, pelo apuro das imagens, um marco visual da cidade de São Paulo: “ele é um mestre no que se refere à percepção da arquitetura como protagonista”, declara o crítico Agnaldo Farias.

Elev. Lacerda e Merc. Modelo, Salvador - Cesar Duarte, 2008
Cesar Duarte, mais jovem e menos conhecido fotógrafo carioca, além de registros para a Prefeitura do Rio, também fez, como expressão pessoal, uma escolha técnica: usando o mote “cidade iluminada” para seus livros , fotografou Rio de Janeiro e Salvador em um horário especial, a chamada “twilight zone”, a passagem do dia para a noite, o momento em que a luz natural do fim da tarde se equilibra com a luz artificial dos interiores e da iluminação pública, o que possibilita criar fotos surpreendentes de locais conhecidos.



Um dos nossos grandes fotógrafos-historiadores, Augusto Malta, também trabalhou, no início do século XX, para a Prefeitura carioca (que conserva seu acervo), fazendo desta posição profissional a base de sua obra. Em mais de 30 anos, Malta registrou do cotidiano aos mais dramáticos acontecimentos da cidade: a construção da Av. Rio Branco, a destruição do Morro do Castelo, a vida nas cabeças-de-porco, o surgimento das favelas, as revoltas, os carnavais, tudo...

Av. Rio Branco, Rio de Janeiro - Augusto Malta, 1923


Outras grandes cidades brasileiras têm seus fotógrafos-historiadores e, no correr do século XIX, um dos mais importantes foi Militão Augusto de Azevedo, um ator carioca que, ao se mudar para São Paulo,  torna-se fotógrafo de retratos. Anos mais tarde, faz uma grande obra como paisagista, deixando como principal legado, o "Álbum Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo (1862-1867)", publicado em 1887.

Igreja N. S. dos Remédios e Pátio da Cadeia, S. Paulo - Militão, 1862
Certamente, o maior deles (entre muitos!..) foi Marc Ferrez, que tem a sua extensa obra bem preservada. Xará de seu tio, um escultor que veio para o Brasil com a Missão Francesa em 1815, nasceu no Brasil e foi criado na França, mas trabalhou como fotógrafo no Brasil por mais de meio século (de 1865 a 1918), dedicando-se especialmente aos temas e paisagens de sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

Cais dos Mineiros, Candelária e centro do Rio, fotografados da ilha das Cobras - Marc Ferrez, 1885



No correr do século XIX, diga-se de passagem, o Rio de Janeiro foi das cidades mais  fotografadas em todo mundo. Afinal, até mesmo Pedro II, o Imperador, era fotógrafo...

Toda cidade tem a fotografia em sua história e eis aí uma bela tarefa, fazer este levantamento, Brasil a fora: quem são os "fotógrafos históricos" de sua cidade?...
Cartas para a redação deste blog.



Neste 1º de Agosto, o blog A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil 
completa um ano de circulação, passando de 3000 acessos mensais.











O autor agradece a todos, e em especial aos que colaboram com comentários.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A foto de imprensa e as questões do momento

Várias questões, já recorrentes, sobre fotografia jornalística apareceram nos últimos dias em diálogos na Internet ou conversas pessoais. Complicadas como são, não permitem certezas, mas pedem, ao menos, reflexão:
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1. A vulgarização da imagem
         Ronaldo Theobald, importante fotojornalista da segunda metade do século XX, em e-mail pessoal, diz-se entristecido com o fato de que “todo mundo está capturando” a sua (o adjetivo é meu) famosa fotografia e suas fotos são quase como filhas, merecem respeito –  que ele intitula "Deus de calção e chuteiras" (leia seu depoimento em A História bem na Foto) e mostra o ex-jogador (e hoje presidente) do Vasco da Gama, Roberto “Dinamite”, assediado pela torcida ao entrar no campo da Portuguesa, no Rio de Janeiro, foto ganhadora do Prêmio Esso de Fotojornalismo de 1977.
Roberto Dinamite - Ronaldo Theobald, 1977

         Está aí uma questão típica da Internet e suas facilidades... O que nos leva à consideração (mas isto não o satisfaz...) de que a imagem não mais lhe pertence (embora a autoria continue eternamente sua), que ela tornou-se produto (e retrato) da cultura brasileira, daquilo que somos como povo. E, mais: que a constante cópia da foto lhe traz o reconhecimento geral da qualidade do seu trabalho, e ainda o apresenta às novas gerações, que não podem mais ver suas fotos todos dias nas páginas dos jornais. 
         A questão dos direitos autorais se complica com os possíveis usos comerciais da imagem, e o próprio Theobald cita a Lei  nº  9.610 de 19/02/1998, que lhe garantiria direitos patrimoniais e morais. Certo, mas sabe-se que, além da lei, há as interpretações...  O padrão predominante no “mercado” é o reconhecimento de direitos patrimoniais para a empresa produtora (no caso, o Jornal do Brasil) ou compradora, e de direitos autorais para o fotógrafo. O que também leva a outra questão: como controlar estes ganhos?... E ainda há que considerar o direito de imagem, sempre problemático... Nesta foto, por exemplo, é centralizado no jogador, mas inclui qualquer uma das pessoas enquadradas.    
         Uma discussão que é muito ampla, a ser (re)feita urgentemente, e que não tem cabimento aqui.... A arte da vida  consiste em fazer da vida uma obra de arte”, nas “palavras sábias de Mahatma Gandhi”, lembra o próprio Ronaldo Theobald, e talvez seja este o caminho... Mas esta lembrança também sugere (se é consenso o direito de citar uma frase ou trecho de texto) que o ato de copiar a foto conhecida e republicá-la na Internet (com crédito, é claro!, e sem retorno comercial), não é mais do que fazer uma citação da obra do fotógrafo...
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2. A correção da História
Não matem meu cachorro - Sergio Jorge, 1961
         De repente, uma situação inusitada: o veterano fotógrafo Sergio Jorge, Prêmio Esso de Fotojornalismo de 1961, reivindica, por e-mail, a autoria da foto alusiva aos mil gols de Pelé, que havia sido publicada neste blog com destaque, justamente, para a correção do crédito! 
O jornal O Globo publicara a foto, em caderno especial sobre os 70 anos de Pelé, com um sucinto crédito à agência Keystone e, dois dias depois se retratou, atribuindo-a à revista Manchete: “a foto foi feita pelo fotógrafo Mituo Shiguihara, na Vila Belmiro, por iniciativa do diretor de redação da época, Zevi Ghivelder” (leia no blog Panis cum Ovum, de ex-jornalistas da Manchete, a retificação). 
Pois, “está tudo errado!”, diz Sergio Jorge: “a ‘bolação’ da foto foi feita por mim, fotógrafo Sergio Jorge, e o repórter Durval Ferreira”, da sucursal de São Paulo, e “ninguém da redação do Rio, como diz em seu texto, Zevi e outros, participaram dessa história, e também o ex-colega, já falecido, Mituo Shiguihara, que nada tem a ver com a foto”. Ele detalha que levaram “uma Kombi/works cheia com as bolas, eram 347”, registrando com “variadas fotos feitas com minha Hasselblad e objetiva 250mm do alto da marquise”. Porém, quando os jogadores entraram em campo para o treino, inclusive Pelé, “desmancharam o arranjo e todos chutaram as 347 bolas para o público que estavam nas arquibancadas”. O jeito foi fazer “um arranjo com a fábrica de bolas Drible, pagando o valor das bolas em permuta com uma página de Manchete [espaço publicitário] e “aí sim o Zevy e o [Arnaldo] Niskier participaram no acerto da permuta”.
Pelé 1000 gols - Sergio Jorge, 1969
Sergio Jorge, que comercializa sua produção pela agência Fotodisk, diz que “todo bom material fotográfico produzido pelos fotógrafos era vendido ou trocado com agências fotográficas mundiais, e os fotógrafos ficavam a ver navios, pelos seus direitos autorais” e ele “sempre questionava o Jakito [Pedro Jacques Kapeller, diretor e sobrinho de Adolpho Bloch]. Agora, pretende também “questionar com relação à agência Keystone”: “vou brigar por meus direitos!”.
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         As questões em torno destes direitos (o autoral, o patrimonial e os de imagem) são mesmo um emaranhado... Mas esta correção é um bom mote para lembrar o "sumiço" do arquivo fotográfico da própria Editora Bloch, vendido por uma ninharia, em leilão judicial, a um “grupo familiar” de Teresópolis-RJ, em maio de 2010, a qual, desde então, não se tem mais acesso
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3. As novas formas de fotojornalismo    
         E chega a divulgação do fotógrafo Ayrton Camargo (recentemente citado neste blog, pela sua foto aérea em 360º do Rio), que fala de uma fotografia realmente impressionante. Publicada por um órgão de imprensa, é “a primeira, única e maior gigafoto feita em uma favela no Brasil (com certeza), e pelo que conferi com profissionais gringos, do Mundo também :-)”...  Diga-se de passagem, a maior foto do mundo (até Outubro de 2010) também foi feita no Rio de Janeiro, por pesquisadores do Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), que utilizaram um robô para bater as fotos, depois montadas por um software de sincronização (esta é apenas uma reprodução fixa, a foto original permite observar os mínimos detalhes).
Rio de Janeiro visto do Pão de Açúcar (foto fixa de gigafoto) - Luiz Velho e equipe do Impa, 2010
         A foto de Ayrton é algo mais artesanal e ele explica como foi feita: “a imagem tem 138.286 x 36.532 pixels ou seja = + de 5 gigapixels reais. Esta gigafoto foi composta com 685 clicks e cobre 190 graus de visão”. Junto com ele, mais dois fotógrafos (Stefano Aguiar e Andréa Simões) fotografaram “sem parar, de 13:36h até as 15:22h, gerando 84 gb de arquivos, debaixo de um sol estúpido, isso depois de nos perdermos dentro das vielas do Morro do Alemão (já pacificado)”.
Este blog nem tem condições técnicas de apresentar o resultado, o que se vê aqui é apenas uma captura, fixa, da imagem. Para ver com todos os recursos é preciso acessar, no site do jornal O Dia, pelo link da foto. Fundamental é observar os detalhes e a sugestão é escolher o ponto que quer ver, girar a rodinha do mouse para ampliar e aguardar até que surja o foco. A foto abrange um arco que vai do Piscinão de Ramos e da ponte de acesso à Ilha do Governador até o estádio do Engenhão e além, Inhaúma e Engenho da Rainha. E vale a pena prestar atenção na paisagem do fundo: a baía da Guanabara, a ponte Rio-Niteroi, o Centro, as montanhas... Em suma, um show de Rio de Janeiro!
Rio de Janeiro visto do Morro do Alemão (foto fixa de gigafoto) - Ayrton Camargo, 2011
 
         Mas, a foto, nestes termos, levanta ao menos duas questões...
A primeira, a da autoria: quando são necessários três fotógrafos para fazer uma fotografia, estamos diante de um novo “status” autoral?... É algo diferente de um fotógrafo de estúdio e seus assistentes?... Certamente, lembra as histórias dos pintores clássicos e seus colaboradores/copiadores...
A segunda, é relativa ao veículo: uma foto como esta, publicada por um jornal na Internet, impossível de ser publicada em papel e que não é mais uma imagem estática, cabe ainda no conceito de fotojornalismo?... Ou é o fotojornalismo que não cabe mais no papel?...
Entre questões antigas, que aguardam mudanças, e questões novas, que mudam rápido demais, onde fica (ou para onde vai) o fotojornalismo? E, aliás, a própria fotografia?...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O desenrolar da paisagem

A paisagem está em todo lugar, ela é necessariamente onipresente...
E também está, desde o início, na fotografia!... A primeira de todas as fotografias é a paisagem que o seu autor, Joseph Nicéphore Niépce, via da janela de seu laboratório. Afinal, era mesmo necessário um modelo relativamente fixo: precisou de oito horas de exposição para registrar a foto!
Cais da Praia do Peixe - Louis Compte - Rio de Janeiro, 1840

Não por acaso, as mais antigas fotografias brasileiras também registram paisagens... São daguerreótipos (imagens únicas, em placa de metal), feitos pelo abade Compte, divulgador da técnica em viagem do navio-escola franco-belga L’Orientale, em Salvador, Bahia, dezembro de 1839 (desaparecidas), e no Rio de Janeiro, janeiro de 1840. 
Além do Paço Imperial e do Chafariz de Mestre Valentim, temos a paisagem do cais da extinta Praia do Peixe, com o prédio da Alfândega (atual Casa França-Brasil) e o mosteiro de São Bento.



São muitos os paisagistas do Império, é uma lista longa, a maioria estrangeiros, e há uma profusão de livros a respeito. 
O maior deles, sem dúvida, é o brasileiro Marc Ferrez, filho do franceses, cuja especialidade sempre foi a fotografia de paisagem, a ponto de (aproveitando os longos tempos de exposição das fotos e se posicionando várias vezes) se colocar dentro dela!  

Autorretrato com panorama do Rio de Janeiro - Marc Ferrez, 1885
Já no século XX, dos anos 30 aos 50, outra grande leva de fotógrafos estrangeiros, em parte escapulindo das guerras europeias, mas também atraídos pelas paisagens brasileiras, trouxe contribuições importantes, não só à fotografia como a toda nossa imprensa, dando novos padrões visuais às revistas ilustradas. 
Bagé, RS - Fulvio Roiter, 1957
Um bom exemplo pode ser visto na exposição de fotos de Fulvio Roiter, um dos maiores fotógrafos italianos vivos, que, em 1957, viajou todo o Brasil fotografando para a revista Manchete. Uma verdadeira síntese do país, que, com curadoria de Cristianne Rodrigues e Milton Guran, do FotoRio 2011, pode ser vista até 17 de julho no Centro Cultural dos Correios.

De meados do século XX para cá, o suporte da imagem torna-se cada vez mais sensível e as câmeras podiam ficar cada vez menores (e mais leves), ia dando a impressão, chegando nos anos 90, de que a fotografia de paisagem estava resolvida, seria questão apenas de escolha do ângulo e do momento. Mas, eis que chega a revolução digital... 

A fotografia – a princípio, um objeto bidimensional (com altura e largura, que apenas simula profundidade) – já tivera uma “expansão” no início do século XX, pela inserção do tempo (o hábil truque da sucessão de quadros ligeiramente diferentes), resultando no cinema. Com a informática, vem uma nova ampliação dos seus limites, agora no espaço: através de softwares que as encaixam, são criadas as chamadas fotografias “esféricas” ou “imersivas”, aquelas em que a imagem pode ser vista em virtuais 360º.
Rio em 360º - Ayrton, 2006
Cabe até a pergunta: isto ainda é fotografia ou já estamos em outro suporte?...

Como exemplo [imagem fixada: clique no título para ver o original], o Rio de Janeiro em 360º, uma foto (ou o quê?...) do fotógrafo Ayrton Camargo, um dos mais produtivos nesta linha de trabalho. E a esta altura não estamos falando apenas de paisagens: já são feitos assim, por exemplo, casamentos e reportagens... 
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3D na cidade - Mario Amaya, 2010



E os novos recursos não param por aí... Fotógrafos comerciais já oferecem fotos em 3D, embora a gente não saiba ainda muito bem aonde conseguir os tais óculos especiais com lentes bicolores...

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E, de repente, inventam a foto “animada”, batizada de “cinemagraph”, um bom aproveitamento de um recurso comum na internet, os “gifs”... 
Sinal.- Daniel Farjoun, 2010

[Se o sinal não mudar de cor, veja aqui


Ainda é fotografia?...
Pode ser, mas, reconheçamos, há, enquanto ainda usamos a base em papel, ao menos uma limitação: quando a foto é impressa, o movimento some...


De qualquer modo, a fotografia tem muita história pela frente.
Ou será que aquela coisa que conhecemos como “fotografia” já está na hora de entrar para a História?...





Grato ao fotojornalista Masao Goto Filho
pelas informações de ordem técnica.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Corpos críticos: a fotografia do morto

            O feriado de Corpus Christi (um dos vários eventos religiosos que são contraditoriamente oficializados como tal em um país formalmente laico), além de se encaixar bem em um período de poucas folgas, sugere reflexões um tanto fúnebres...
É momento em que, através de uma das suas pretensas manifestações divinas, como em outras religiões, o corpo humano, hoje desbragadamente presente em enxurradas de imagens contemporâneas, é realçado de maneira simbólica, dado como transubstanciado através de símbolos religiosos católicos, a hóstia e o vinho.
            Esta invenção medieval, tornada obrigação canônica no âmbito da igreja católica, produz, no Brasil, o visual mais popular do feriadão, em jornais e noticiários de TV, a dos tapetes artesanais, de variadas substâncias, passarelas para as procissões. E lembra também a verdadeira procissão de fotografias de defuntos da Fotografia brasileira.
            Se na religião a hóstia e o vinho são meios de sublimação do corpo, a fotografia, na História, é capaz de torná-lo (visualmente) concreto, manter viva a sua presença para quem se distancia no espaço ou no tempo. A lamentar, aqui, o possível impacto das imagens...
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Criança morta - Militão Augusto de Azevedo - São Paulo, 1877
Logo de início, no século XIX, surge um hoje impressionante costume, a foto daquele que morreu antes de ser fotografado... Com poses “naturais” (isolado ou em companhia de parentes), estas fotografias são uma pungente “solução” para a perda e futuro esquecimento do ente querido, e mais doem quando retratam crianças (saiba mais no artigo de Luiz Lima Vailati).          
 
Pedro II morto - Félix Nadar - Paris, 1891
Pedro II - Nadar - Paris, 1891 (foto original)
            As questões do poder, e não só da memória familiar, também podem exigir, com o devido cuidado, que seja feita a foto do morto. Um bom exemplo é a do corpo de D. Pedro II em seu leito de morte, vestido com o uniforme de Marechal do Exército. O detalhe é o livro sob a cabeça, que, de simples recurso do fotógrafo Nadar para elevar o tronco do Imperador defunto (cf. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, de Lilia Moritz Schwarcz, pg. 489), passa a ter um alto simbolismo, o de que “sua mente repousa sobre o conhecimento mesmo na morte” (conforme legenda da foto na Wikipédia).

Pode ser que justamente os inimigos, e não os admiradores, precisem da foto do morto... Perseguido tanto pelo governo republicano quanto pela igreja católica, Antonio Conselheiro, que era o guia místico de milhares de seguidores no arraial de Canudos, Bahia, na última década do século XIX, só tem uma foto conhecida, de 1897: foi desenterrado duas semanas depois de sua morte, após uma guerra que durou dois anos, para ser identificado e só então foi fotografado... 
Antonio Conselheiro - Flávio Barros - Canudos-BA, 1897

Wladimir Herzog morto na cela, 1975
            O fato é que a fotografia impactante do cadáver sempre que pode ser útil é apresentada à sociedade, muitas vezes como suposta “prova” de discutíveis certezas...  A ditadura civil-militar do golpe de 1964 foi useira e vezeira nesta prática, caso os corpos não desaparecessem “acidentalmente”... Entre estas fotografias estão a do corpo baleado de Marighella dentro de um fusca, em São Paulo, em 1969, e a de Lamarca e Zequinha, guerrilheiros mortos no interior da Bahia, em 1971. Mas talvez a foto mais significativa a série, quanto aos efeitos posteriores, seja aquela em que Vladimir Herzog aparece enforcado com a própria gravata em uma cela do DOI-CODI paulista, em 1975. Um suicídio tão evidentemente falso, que foi imediatamente desconsiderado pela comunidade judaica, que não lhe negou sepultura, e logo depois pela Justiça, que condenou o regime militar por seu assassinato ainda durante a vigência do AI-5. 

No geral, a imagem explícita do morto, no correr do século XX, passou a frequentar quase que exclusivamente as páginas policiais (com raras exceções, como rostos de celebridades, com expressão suave, envoltas em flores, em seus caixões). Só os jornais do tipo “espreme que sai sangue” continuaram fazendo questão de mostrar a violência nua e crua dos conflitos sociais. 
 
Vila do João, Rio de Janeiro - Evandro Teixeira, 1998
Conseguir uma imagem sensível de uma chocante cena de morte é um dos grandes desafios para os fotojornalistas, e nisto os brasileiros, sem dúvida, são dos melhores. Certamente, não é uma questão meramente profissional: o povo brasileiro parece afirmar (como diz a música De frente pro crime, de João Bosco, e demonstra a foto de Evandro Teixeira) que a morte (que faz parte...) não consegue impedir (por mais incrível que pareça...) a alegria de viver.

Agradeço à fotógrafa e historiadora Vera Sayão 
pelas sugestões em torno do tema.

domingo, 12 de junho de 2011

Namorou?... Epa!... E se alguém fotografou?...

Há poucos dias (10 de Junho), recolhido em seu apartamento do Leblon, João Gilberto, a “nossa Greta Garbo”, fez 80 anos de muita competência artística e bastante mau humor...
João Gilberto testa o som do Canecão
Aguinaldo Ramos, 1979
Entre tantas das suas queixas e esquivas, lembro, muito particularmente, do famoso show do Canecão (que não fez!), em 1979. Perfeccionista ao extremo, recusou-se a aceitar a má qualidade do som ambiente e causou tal confusão que virou até conto e nome de livro premiado (Jabuti, 1982) de Sérgio Sant’Anna.

Presente ao local, fotografando para a revista Amiga, da Bloch, relatei mais tarde aqueles angustiosos momentos no texto “Nunca mais, nunca mais...”.
Bem, tudo isto, quiproquós, cancelamentos etc, é o que de menos importante se pode falar sobre João Gilberto, ainda mais no Dia dos Namorados... Muito maior é a sua obra musical, dividida entre patos & barquinhos e as inúmeras canções de amor que cantou (dilema que sintetiza, ao lado de seu fã Caetano Veloso, em Doralice, de Dorival Caymmi e Antônio Almeida).
Doralice, eu bem que lhe disse, amar é tolice, é bobagem, ilusão...
Eu prefiro viver tão sozinho, ao som do lamento do meu violão.
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Esta abertura musical serve, afinal, como gancho para uma observação que não deixa de ser curiosa... Enquanto a música brasileira é, praticamente toda ela, centrada em casos de amor, a fotografia brasileira não tem o tema entre os seus prioritários. Pode ser por conta da ênfase dos nossos fotógrafos em problemas sociais ou políticos, mas o fato é que a fotografia internacional tem muito mais exemplos de fotos de casais que se tornaram ícones de uma época ou movimento, dos beijos arranjados nas ruas de Paris a casais e poses provocativos em New York.
Casamento de Diacuí e Aires da Cunha, 1952
O assunto merece aprofundamento, mas, abrindo o campo, podemos pinçar algumas candidatas. Por exemplo, nos anos 50, tempos de uma imprensa poderosa, invasiva e “autoral” (no sentido de criar seus próprios fatos...), o Brasil “assistiu” (pelas páginas de O Cruzeiro e Noite Ilustrada) ao casamento entre um sertanista branco, Aires Cunha, e uma índia do Xingu, Diacuí, celebrado na igreja da Candelária. Se não era original, sendo uma das bases da formação do povo brasileiro, este casamento interétnico tornou-se um marco desta integração, que sempre oscilou entre a alegria e a tragédia, como na própria história do casal.
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E como estamos em pleno FotoRio 2011, o maior evento da Fotografia no Rio de Janeiro, vale lembrar uma foto de seu organizador, Milton Guran, de seus tempos de fotojornalista, quando foi um dos criadores da agência Ágil, de Brasília.

4,30h, 31 de Maio, Salvador, BA - Milton Guran, 1979
Na luta de mudar a difícil relação entre fotógrafos e o mercado editorial e mostrar uma outra visão dos fatos, Guran acompanhou o Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes) de Salvador, dez anos após a prisão coletiva de estudantes no de Ibiúna, SP. Material (veja no site do LABHOI, Laboratório de História Oral e Imagem, da UFF) que lhe rendeu um livro, cujos título e capa vêm da foto, feita às 4,30h da manhã, de um casal que ratificava o final feliz do evento...
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Enquanto a liberdade se (re)afirmava, os fotojornalistas estavam atentos à Abertura política e a uma anunciada liberalização de costumes... Tais expectativas, porém, vêm se frustrando, à medida em que os neoliberalismo e “legalismo” dominantes estimularam a criação da “mercadoria imagem” e de uma indústria de processos, que inflacionam direitos para transformá-los em negócios...
[Veja minha opinião em Direitos Autorais: o essencial]

            E tudo isto em plena explosão das redes sociais, dos álbuns virtuais de fotografias, das imagens registradas por câmeras automáticas a serviço de governos e, também, empresas particulares, das detalhadíssimas fotos de satélites e de outros aparelhos e dispositivos que colocam todas as nossas imagens à disposição de... quem mesmo?...
Casal com tarja e toalha - Rogério Reis, 2011

Não por acaso, Rogério Reis, na exposição “Ninguém é de ninguém”, no Centro Cultural da Justiça Federal, do FotoRio, nos poupa de mais de 1000 palavras para, fazendo jus ao mote, demonstrar, pela ironia das imagens – como as de casais que dividem, ou não, a mesma tarja – , as incoerências e complexidade desta situação...

domingo, 5 de junho de 2011

Todo dia é Dia do Meio Ambiente?

Afinal, todo dia é Dia do Meio Ambiente?... Ou só temos o dia 5 de Junho?
Jorge Bem já dissera, pela voz de Baby do Brasil (neste vídeo):
”Todo dia era dia de índio
Mas agora eles só tem
O dia 19 de Abril...”
Caverna do Caminho - Ricardo Siqueira
O Dia do Meio Ambiente, 5 de Junho, foi criado em 1972, em Estocolmo, durante conferência da ONU sobre o tema, e adotado pelo governo brasileiro, por decreto, em 1981. Astrólogos já disseram que melhor seria que a data caísse no signo de Touro, mais prático, em vez de Gêmeos... Pois, temos também o Dia da Terra, 22 de Abril, signo de Touro, uma criação americana da virada dos anos 70, espécie de eco ecológico dos movimentos pacifistas...
Jacaré com borboleta - Luiz Cláudio Marigo

O que não temos, afinal, é respeito pelo Meio Ambiente. Reina a mais descarada exploração, quando não é, “apenas”, pura destruição... 



Em compensação (se é que podemos dizer assim...), o que não falta ao Meio Ambiente são belas imagens, um colírio para as nossas desgastadas frustrações ecológicas... Nas livrarias, brotam livros e livros de fotógrafos brasileiros, que investiram tempo e paciência para fotografar o meio ambiente.

E podíamos citar todos os associados da AFNatura, Associação de Fotógrafos de Natureza, que (em mais uma dessas ironias do meio...) luta contra uma nova modalidade de mercantilismo, praticada justamente por outros defensores da natureza... De uns tempos para cá, as Administrações das Unidades de Conservação ambientais vinham tentando “privatizar” a natureza, insistindo em cobrar dos fotógrafos (agora, em consulta pública) uma espécie de “direito de imagem” dos “seus” animais e paisagens...

"Peixe simpático" - Ricardo Azoury
São belos livros, mas tão custosos que necessitam de patrocínio. Ainda assim, são caros demais, mais próprios para (muito mal comparando...) o privilegiado consumo dos industriais e latifundiários do que dos trabalhadores em geral, e ficam muito distantes daquele que é contratado para derrubar árvores... 

Talvez por isto estas fotos não têm contribuído suficientemente para a preservação ambiental, não o bastante, o que talvez nos ensine algo sobre o desgaste (ou a insuficiência) das imagens como estímulo à consciência nestes nossos tão pragmáticos tempos...


Às vezes, há poucas imagens de grandes perdas... 

Natura - Frans Krajcberg - exposição MAM60
Um exemplo é a destruição da Mata Atlântica do sul da Bahia, dizimada entre as décadas de 50 e 70 do século XX, cujas imagens marcantes talvez sejam as de um artista plástico, Frans Krasjberg, graças à sua renitente resistência, um humano que teimou em viver naquelas matas...
Biguatinga do Pantanal - Araquém Alcântara




O pior é perceber que estes livros tendem a se transformar em luxuosos mausoléus: seus coloridos conteúdos, se já não estão, logo estarão mortos...


No fim das contas – pelo menos, enquanto não vem o fim dos tempos... – , parece mesmo que, no Brasil, ao contrário do que sugere a pergunta inicial, nenhum dia é dia de preservação do meio ambiente...



"Fim de expediente na Amazônia..." - Ricardo Beliel

Clique nos nomes para acessar os sites dos fotógrafos  
Ricardo Siqueira, Luiz Cláudio Marigo, Ricardo Azoury, Araquém Alcântara
informações sobre Frans Krajcberg e entrevista de Ricardo Beliel sobre a Amazônia.